Opinião Victor Dias: A Liberdade sucumbe aos interesses económicos e financeiros

Os políticos que estão actualmente na ribalta em Portugal, seja no poder ou na oposição, situados no chamado arco da governação, encolheram cobardemente os ombros, face aos insultos e abomináveis afirmações que um artigo editorial publicado num dos mais importantes jornais de Angola, continha referindo-se aos portugueses em geral e a alguns em particular, nomeadamente empresários e governantes.

Certamente os expressamente visados, saberão defender-se e dizer o que lhes aprouver, repudiando tais insultos.

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No entanto, dado o teor desse artigo e, atendendo às fortes ligações desse jornal, aos meandros do poder em Luanda, esse texto intensamente ofensivo e atentatório da Honra e Orgulho nacionais, clamava por uma claríssima e inequívoca tomada de posição pública, por parte de um representante português dos poderes públicos que não deixasse passar este incidente sem uma resposta categórica de reprovação do seu teor. Quem cala consente, e neste caso consentir é dar crédito a quem o não merece.

Os negócios e os interesses económicos de Portugal, não podem ser razão para branquear o desrespeito por valores fundamentais que a nossa Constituição inscreve na matriz política e cultural do Portugal Democrático.

Não nos cabe nenhuma legitimidade para nos ingerirmos nos assuntos da política interna em Angola, onde a Liberdade e Democracia são valores que têm merecido do jornalista Rafael Marques, críticas e denúncias de reiterada violação dos direitos humanos. Esse é um problema dos angolanos, mas isso não nos deve tolher ou bloquear o pensamento e a livre opinião, muito menos o direito e a obrigação de tomar parte numa missão que é de toda a Humanidade. Refiro-me, obviamente, à luta, universal, pelos Direitos Humanos.

Mas é muito importante que os senhores do poder angolano, compreendam e respeitem, o facto de Portugal ainda ser um Estado de Direito Democrático, onde apesar de tudo, há separação de poderes e ninguém, nem mesmo os donos do capital que vêm de Angola, estão acima da Lei.

O poder judicial é independente e autónomo e, felizmente, não se deixa contaminar pelos interesses circunstanciais, ainda que estes se apresentem sob a capa de interesse nacional.

Compreendo e aceito que o assunto tenha de ser tratado com pinças, na consideração da sensível questão da segurança e bem estar dos milhares de portugueses que se encontram actualmente a trabalhar e a viver em Angola, mas isso, só exigia cuidado e engenho para encontrar as palavras, os meios e os canais adequados, para tomar a posição recta, não uma completa demissão e ignorância do assunto, “metendo o rabinho entre as pernas”, num comportamento de subserviência “canina” que nos envergonha a todos.

São os valores da Liberdade, da Democracia, da Justiça e do respeito pelos Direitos Humanos que me fazem nutrir pelo povo Angolano, a maior amizade e solidariedade. E é precisamente em nome desses valores que não confundo o povo de Angola com algumas das figuras que detêm o poder em Luanda.

Quando penso que são essas figuras que estão a apropriar-se em Portugal, de sectores fundamentais da nossa economia, desde a produção e distribuição de energia, de água e do sector da comunicação social e produção e distribuição de conteúdos mediáticos, sinto muita coisa, menos tranquilidade e confiança.

Há muitas vozes preocupadas com o rumo da independência nacional, face às imposições da troica, mas deveriam preocupar-se muito mais com o poder do capital que vem da China e de Angola, atendendo aos conceitos e práticas políticas dessa espécie de capitalismo.

É triste ver quem nos governa deixar-se iludir, de forma tão tonta, com uns pratos de lentilhas.

Ou será que alguém tem dúvidas quanto aos métodos de actuação desses poderes e ao que nos pode acontecer no futuro?…

Victor Dias