Opinião Victor Dias: O valor da experiência

Houve um tempo, aí pelos anos 90, do século passado, em que a febre dos “yuppies” contaminou as sociedades ocidentais, tendo mesmo chegado a afectar algumas culturas orientais, por tradição, muito mais conservadoras.

Nessa época, tudo tinha de ter o factor Jota. O crédito com melhores condições era jovem, a imagem visual das pessoas tinha de ser jovem, para estar “in”, e até as administrações das grandes corporações empresariais, se encheram de gente muito nova, recém formada e cheia de sangue na guelra.

Este fenómeno, fortemente aproveitado e incentivado pela comunicação publicitária, não deixou imune, nenhum dos sectores das sociedades, desde a política à alta finança, afectando de uma forma horizontal, toda a vida social.

Uma das consequências, aparentemente, mais benéfica para as pessoas, foi a antecipação da idade da reforma, gerando uma nova classe de reformados activos que, em certa medida, vieram dar um novo fôlego ao voluntariado social, dando uma outra dimensão à cidadania solidária, que em muitas instituições do género, passou a poder contar com quadros qualificados e pessoas com capacidades e experiências profissionais muito enriquecedoras. Será do conhecimento de todos os leitores, a existência de pessoas, entre os seus amigos, familiares ou conhecidos, que se reformaram com pouco mais de 50 anos, e quiçá, até menos idade.

3B8027.lowres

Com o tempo, algumas organizações, particularmente companhias detentoras de grandes marcas, com implantação mundial, cujas administrações mais se assemelham a governos, tal é a sua dimensão e potentado económico, voltaram a chamar, os seus veteranos da gestão. E fizeram-no, em certos casos, para corrigir erros e rotas que se estavam a revelar pouco promissoras, senão mesmo ruinosas.

Dar a volta

No Japão, certas corporações do ramo automóvel e da electrónica, conseguiram dar a volta, e para além de resolverem os seus problemas de estratégia de gestão, conseguiram também enfrentar uma crise internacional que, entre outras causas, decorre do fenómeno da globalização, uma realidade nova e muito exigente para quem governa esses potentados, com milhares de pessoas e famílias, dependentes do seu sucesso económico.

Hoje, nos órgãos de governo das grandes companhias, o valor mais pontuado aquando da contratação dos seus gestores, é inequivocamente o factor “know-how”, quer dizer, a experiência pessoal e profissional, atestada por um currículo com provas dadas que possa ser facilmente escrutinado.

Em todo o Mundo, se reconhece que as investigações científicas que os neurocientistas têm vindo a desenvolver há vários anos, estão correctas, confirmando-se na prática que há qualidades e capacidades intelectuais que só com a idade, atingem um nível de maturação cerebral, que permitem a uma pessoa, olhar, ver, sentir e estar na vida, com uma temperança, sensatez e equilíbrio psico-emocional que lhe conferem competências que não é fácil adquirir prematuramente.

A razão dos disparates

Quem tem a responsabilidade de usar o poder que lhe é confiado, fá-lo-á certamente melhor, se for detentor dessa maturidade, à qual acrescente uma experiência pessoal que potencie o resultado desse crescimento humano.

Entendo que esta minha análise, porventura altamente subjectiva, ajudará os leitores a compreender a razão de tantos disparates que se cometem na política e nas organizações humanas, governadas por gente imatura e, mormente, sem grande experiência de vida, seja de vida pessoal ao serviço do bem comum, seja de vida profissional, que lhes confira o tal currículo comprovável.

A liderança das organizações, na minha opinião, cada vez mais firmada na observação que faço da realidade, é uma missão que requer maturidade e experiência de vida. E firmo esta minha convicção, sem desvalorizar a aprendizagem que, todos nós sem excepção, fazemos na nossa juventude e início de vida activa, aprendendo com os erros, consolidando conhecimentos, melhorando experiências e desempenhos, enfim, dando substância e forma às nossas múltiplas competências, balizadas em princípios e valores éticos e deontológicos.

Que fique claro, a minha total concordância, no que toca à participação dos mais jovens, nas lideranças partilhadas das organizações, facto que só tem vantagens, para as mesmas e para os próprios jovens, no sentido em que é precisamente isso que lhes vai conferindo experiência. Mas, sempre com a alta direcção de quem já fez esse caminho e está melhor preparado, para enfrentar e dar resposta às dificuldades e aos imponderáveis, a que nenhuma ciência habilita.

A “coqueluche” do tudo jovem, teve como consequência social mais nefasta, o arrefecimento do diálogo intergeracional que é, a meu ver, essencial ao desenvolvimento humano, ao bem-estar, à coesão e Paz social, de qualquer sociedade que se queira mais harmoniosa, mais fraterna e solidária.

Experiência

A bem do futuro de Portugal, e das comunidades locais, que são a sua grande base de sustentabilidade social, é inquestionavelmente melhor para o bem comum que saibamos escolher líderes experientes, cujo perfil e currículo de vida e público, nos dê garantias de que exercerão os seus cargos, com competência e sentido do dever, desiderato que, do meu ponto de vista, não é possível alcançar, sem dar tempo ao tempo e, sobretudo, sem passar por ele, aprendendo com os melhores.

A idade não é um posto, mas são as lições que a vida nos vai dando que fazem de nós pessoas avisadas e prudentes. E é isso que explica que, actualmente, nas maiores empresas do Mundo, o capital do conhecimento que outrora esteve na primeira linha das preferências do recrutamento de gestores de topo, tenha cedido lugar ao capital de experiência, que não dispensando o primeiro, o colocou no plano que lhe cabe.

A experiência jota é útil, mas não é suficiente para que quem a possui, salte para os comandos de uma comunidade ou nação, sobretudo se não houver pelo meio, uma vida de trabalho e de serviço, a favor da causa pública e do bem comum.

Em suma, o que dá credibilidade a um líder, é o facto de ter um passado que nos inspire confiança nas suas competências e capacidades. Uma confiança atestada pela obra realizada e pela possibilidade de escrutinar o seu currículo.

Face a isto, não há impulso jovem, nem embaixador que resista, enfim, é uma “jotice”…

Victor Dias