Opinião Victor Dias: Ler nas entrelinhas do discurso político

Se há área da vida pública onde a semiótica da comunicação é utilizada com maior requinte, é a política.

Convém então que estejamos bem atentos, quer aos truques da metalinguagem, como aos “lapsos linguae”, porque quer uns quer outros, nos podem revelar o que verdadeiramente vai na cabeça dos políticos.

Se formos fazer uma análise de conteúdo, quer dos discursos proferidos pelos líderes partidários e governantes, como pelas suas afirmações, em debates, entrevistas ou declarações de circunstância, facilmente conseguiremos coligir um conjunto de contradições, erros de orientação ideológica e escapadelas subliminares do que realmente pretendem fazer.

Vejamos, por exemplo, o caso do actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e os seus diversos discursos de campanha eleitoral. Se é verdade que há várias medidas que implementou, uma vez chegado ao poder, e que corresponderam exactamente ao que havia prometido em campanha, outras houve, que foram uma autêntica surpresa, e uma claríssima quebra do compromisso eleitoral.

Acredito que, uma vez chegado ao poder, a realidade encontrada tenha sido substancialmente diferente do que seria expectável, porventura para pior. Mas o que temos de exigir à classe política, é verdade e honra nos compromissos.

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Por seu lado, a oposição, afiança já, que se for poder, vai restituir essa confiança na governação, e repor tudo e mais alguma coisa, num discurso que soa um pouco a – “…ó tempo!… volta para trás…”.

Não nos deixemos enganar e não embarquemos alegremente em discursos dos amanhãs que cantam, porque na verdade, aquilo que se sente, é que nem os próprios oradores que dão voz a essa conversa, creem no que nos estão a dizer.

Penso que é chegado o tempo de clamarmos por um discurso político simples, muito simples mesmo, de tal forma que todos, sem excepção, possamos entender.

Advogo um discurso político que use uma linguagem fácil e directa que nos permita compreender com toda a clareza, o que cada partido e cada líder pretendem para Portugal.

Só assim, poderemos acompanhar e manter uma vigilância apertada, sobre toda a acção política.

Estou convicto que só deste modo, poderemos julgar, com objectividade e verdade, o trabalho dos nossos governantes e o trabalho da oposição, diminuindo consideravelmente, o risco de sermos enganados, de cairmos no embuste político e de vermos a nossa vida a andar para trás.

Se os partidos e os seus agentes não fizerem um esforço, para simplificar o seu discurso e tornar mais escrutinável a sua acção, por parte dos cidadãos, dificilmente, muito dificilmente mesmo, conseguirão recuperar a nossa confiança, para níveis democraticamente aceitáveis.

Victor Dias