Opinião Victor Dias: As comemorações do 25 de Abril na Maia

Vivi de forma particular, as comemorações do 40º aniversário do 25 de Abril, na Maia.

E digo de forma particular, porque graças à minha condição de Director Artístico, do Coral Infantil Municipal dos PEQUENOS CANTORES DA MAIA, tive a oportunidade e a honra, de ter sido convocado, pelo Presidente da Assembleia Municipal, Sr. Luciano Gomes, para comparecer com a instituição artística que dirijo, com a finalidade de proporcionar aos convidados e deputados municipais, um momento de fruição musical, que serviu de prelúdio, à sessão solene que a Assembleia Municipal da Maia levou a cabo, após a cerimónia pública, do hastear da Bandeira Nacional. Ocasião, abrilhantada pelas fanfarras das corporações de bombeiros voluntários de Moreira e de Pedrouços, que criaram na praça do Doutor José Vieira de Carvalho, um verdadeiro ambiente de festa e exuberância, numa manhã em que até o Sol, esteve a preceito.

Escolhi para o breve programa que os PEQUENOS CANTORES ali foram interpretar, uma selecção de seis temas, de entre os mais belos, compostos por Vitorino, Sérgio Godinho e Zeca Afonso, cantautores muito ligados à luta pela Liberdade e, sobretudo, compositores de altíssima qualidade estética, no domínio da Música portuguesa de expressão popular e canto de intervenção. Um género musical muito datado, mas nem por isso, de menor valia cultural ou artística, bem pelo contrário.

A propósito das conversas de circunstância, uma das minhas pequenas cantoras mais novinhas, de apenas seis anos de idade, questionou-me sobre o que significava a Democracia. Tenho de admitir que fui colhido de surpresa, o que me obrigou a respirar fundo e pensar por uns instantes, para encontrar o melhor modo e forma adequada, para explicar à pequenita, o que é isso da Democracia. Fitei-a nos olhos e perguntei-lhe, quem são as pessoas, neste Mundo, que maior bem te querem. Assim, aquelas pessoas que fazem tudo, mas absolutamente tudo para que sejas feliz?… Sem hesitar, ela respondeu-me: – “…a minha mãe e o meu pai…”. Agarrei a resposta dela, e disse—lhe – a Democracia é isso mesmo. A tua mãe e o teu pai desejam a mesma coisa, a tua felicidade. Mas a tua mãe e o teu pai, são pessoas diferentes, que pensam de maneira diferente, têm papéis diferentes na tua família, e no entanto, desejam uma coisa em comum, o bem da sua filha, que és tu… A Democracia é mais ou menos isto. Todos nós queremos o bem comum, no entanto, cada um pensa por si, ou pelo seu partido, e querem seguir caminhos diferentes, para chegar ao mesmo lugar.

“Somos de todos”

Enquanto exercia a minha pedagogia, algumas pessoas, que ali representavam partidos muito díspares, vieram felicitar-nos pelo nosso trabalho. E eu resolvi não perder também essa oportunidade, para lhe explicar que naquele momento, pessoas com ideias e opiniões diferentes, estavam ali, unidas, a dar-nos os parabéns, porque todas elas, também desejam o bem comum da nossa comunidade, e nós, de algum modo, lhes despertamos esse sentimento democrático. Acrescentei ainda que nós não somos de nenhum partido, nem de nenhum grupo social em particular, mas somos de todos os maiatos, porque no nosso seio, há meninos de todas as freguesias, de todos os meios sociais e não nos interessa o que cada um pensa, o que é ou deixa de ser, ou que opinião tem. Só nos interessa que todos se sintam bem e felizes, a cumprir esta missão de representar a Maia e a sua principal instituição, o Município. Uma missão que cumprimos com gosto e orgulho, tal como aconteceu, no dia seguinte, quando estivemos em directo, no canal 1, da RTP, colocando a Maia em antena aberta, durante mais de 12 minutos de televisão, em que além de cantar, difundimos os valores subjacentes ao evento, MAIA CIDADE EUROPEIA DO DESPORTO 2014 e outros eventos de natureza cultural.

Pequenos Cantores da Maia

Creio que o sinal de que a menina tinha percebido a minha explicação, tão infantil quanto me foi possível, se concretizou quando ela afirmou: – “…então a Democracia é uma coisa boa”…”. Ao que eu respondi com um sorriso de reforço positivo, confirmando a sua brilhante conclusão.

Em vinte e três anos de actividade artística, na direcção desta instituição cultural do Município, nunca me senti tão realizado, profissional e civicamente, e, porque não dizê-lo, muito feliz, pois para além da missão que nos tinha sido confiada, pelo Presidente da Assembleia Municipal, logramos alcançar um significado simbólico, que granjeou da maioria das pessoas ali presentes, um acolhimento afável, sem reservas, sem complexos ou preconceitos ideológicos, traduzido em manifestações espontâneas de carinho e congratulação pela nossa existência. Manifestações oriundas de todos os quadrantes. Sublinho ainda as palavras do Vice-Presidente da Câmara, Engº. Silva Tiago, que me confidenciou ter ficado emocionado, com a candura e suavidade das vozes angelicais dos PEQUENOS CANTORES.

Nesse mesmo dia, o Presidente da Câmara e patrono dos PEQUENOS CANTORES DA MAIA, Engº. Bragança Fernandes, transmitiu-me pessoalmente a sua enorme satisfação, porque tinha recebido de toda a gente, incluindo pessoas que exercem a sua missão de fazer oposição ao Executivo, palavras de felicitação pelo nosso desempenho artístico, no programa das cerimónias, facto do qual se sentia muito orgulhoso.

Bem comum

Perdoar-me-ão os leitores que quebrando o senso comum, de que ninguém é bom juíz em causa própria, tenha querido partilhar convosco, estes motivos de alegria e satisfação, por ver uma instituição que verdadeiramente trago no meu coração, ser reconhecida por toda a comunidade que ela serve, assumindo-se autenticamente como um elo de união entre todos. Um elo que é simbolizado por um gosto em comum, o gosto pela Música.

Independentemente da forma como vemos, somos ou estamos no Mundo, como pretendemos alcançar o bem comum, preconizando caminhos diversos, mas que são aqueles em que acreditamos e cremos genuinamente, como os melhores para a comunidade em que nos integramos, somos capazes de convergir no essencial, naquilo que nos dá identidade cultural e dá sentido à nossa pertença comunitária.

A diversidade, nas suas múltiplas dimensões, torna a vida das pessoas e das comunidades, mais rica e mais coesa, e só pode, a meu ver, ser encarada como um factor de desenvolvimento. Acalento a plena convicção, que é na diversidade de pensamento que as sociedades encontram massa crítica vital, para a sua evolução. É neste quadro de princípios e valores que devemos educar, para a cidadania, as nossas crianças.

A Democracia é essencialmente isto……

Victor Dias