Rui Moreira e o seu discurso arrastão

Tenho o edil portuense na conta de um homem culto e inteligente. E reconheço-lhe ainda, qualidades de educação e trato que fazem dele um “gentleman”, modos a que não será alheia a sua formação “british”.

Mas desde que entrou na política ativa, parece querer correr certos riscos.

Um mau caminho

Rui Moreira, na sua ânsia de querer liderar a região norte, tem tido por vezes algumas intervenções que me deixam incrédulo.

Algumas das suas últimas declarações públicas, a propósito do diferendo com a TAP, quase me fizeram beliscar o nariz, perguntando-me se aquele era o Rui Moreira que eu conheci.

Arrastar a supressão de certas rotas, por parte da TAP, para a dialética quase tribal das velhas rivalidades entre o Porto e Lisboa, é a meu ver um mau caminho, muito mau caminho mesmo.

A teoria da cabala sobre uma espécie de plano escondido, que o Terreiro do Paço, terá na manga, para esgotar a capacidade do aeroporto de Lisboa, e levar o Governo a construir um novo, aproveitando essa embalagem para lançar mais uma leva de obras megalómanas, é um discurso que embora possa não estar totalmente desprovido de sentido, não se pode ter na praça pública, com aquele conteúdo e forma.

Vigo de candeias às avessas com o Porto

No mesmo sentido, e com um efeito ainda pior, foram as palavras proferidas pelo Presidente da Câmara do Porto, a respeito do aeroporto da cidade amiga de Vigo.

Vigo que é nada mais nada menos, que a cidade galega mais importante da estrutura política inter-regional do noroeste peninsular, designada por Eixo Atlântico.

Deitar mão de ingredientes gastronómicos, como a salsicha fresca e a francesinha, para ridicularizar uma infraestrutura de transporte aéreo da cidade amiga de Vigo, é no mínimo, de mau gosto, e acarreta riscos indesejáveis.

Este comportamento político, ainda por cima em público, não condiz com a imagem que eu tinha de Rui Moreira. Não bate certo com o brilho do seu verniz original.

E agora?…

Agora, o alcaide de Vigo deixou o seu homónimo do Porto, numa situação bem difícil, exigindo um pedido formal de desculpas. Mas Rui Moreira pôs-se a jeito.

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Um discurso na lógica de campanha eleitoral

Compreendo que Rui Moreira tenha de fazer pela vida, e ir começando a pensar na sua reeleição em 2017. E só essa lógica explica que tenha alinhado esta linguagem populista, diria até, um tanto irresponsável.

Irresponsável, pois embora o Edil portuense não esteja desprovido de fundamentos justos e que aderem à realidade nortenha, está a obter efeitos contraproducentes que não ajudam o norte a reivindicar o que é seu por direito.

O país não precisa deste tipo de afirmações crispadas e pautadas por uma linguagem inapropriada, que na prática, só gera ruído, dificulta o diálogo entre instituições e entre pessoas, e que no fim de tudo, pode dar uma ou duas mãos cheias de votos, mas pode tirar o melhor que uma pessoa tem na vida, a sua imagem de pessoa sensata, ponderada, elegante no trato e na linguagem, e que nunca perde a compostura, refutando liminarmente todos os recursos de retórica e linguagem que não se compaginam com o seu património intelectual e carismas éticos e morais.

Temo que este discurso de arrastão que Rui Moreira resolveu adotar, acabe por arrastá-lo também, deixando que o confundam com “especímenes” que não são de modo algum da sua estirpe.

Temo igualmente que muitas das razões que lhe assistem, nesta sua justa reivindicação de respeito e consideração pelos legítimos interesses do Porto e do norte, vejam o conteúdo das matérias que ele traz à colação, prejudicado pela forma inadequada como as tem comunicado.

Devo dizer que subscrevo no essencial, muitos dos fundamentos da argumentação que ele tem invocado. Argumentação na qual denota um bom domínio dos assuntos relacionados com o aeroporto e com a atividade económica dele dependente. E isso torna ainda mais incompreensível que tenha este discurso arrastão.

Não sei bem porquê, mas quando vejo pessoas por quem eu nutria até uma certa admiração, entrarem por estes caminhos erráticos, sinto sempre uma certa tristeza…

Rui Moreira não é assim. Ou melhor, não era assim tão dado à espuma dos dias!…

Victor Dias