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Projeto NEMESIS está a dar competências sociais a alunos da Maia

O NEMESIS é um projeto europeu que alia educação e inovação social. É o primeiro modelo educativo para a Inovação Social alguma vez experimentado e testado por professores na Europa. O pioneirismo estende-se ao concelho da Maia, estando o projeto a ser aplicado por professores em quatro escolas do Agrupamento de Escolas da Maia.

Vários alunos já participaram pela primeira vez em projetos, no ano letivo anterior, nas EB1 de Gueifães, Centro Escolar de Gueifães – Vermoim, na EB2,3 de Gueifães e na Escola Secundária da Maia. Há ainda o contributo da EB nº 2 do mesmo agrupamento.

Envolveu cerca de 150 alunos em três grupos de trabalho (uma turma no 1º ciclo, outra no 2º e 3º ciclos e uma terceira no ensino secundário) num primeiro ano de pilotagem do projeto NEMESIS.

Metodologias inovadoras que apoiam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

A professora Aline Santos explicou ao jornal Maia Primeira Mão que os professores tentam “utilizar metodologias inovadoras” no âmbito de uma aprendizagem de inovação social, como por exemplo, “o trabalho em projeto, a ópera, os laboratório de cocriação”.

Os professores começam por apresentar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável aos alunos e, diz Aline Santos, “eles começam a escolher temas que gostassem de trabalhar para mudar o mundo à sua volta”.

Começando o trabalho, os alunos dispõem dos laboratórios de cocriação, uma espécie de grupos de parceiros: “aqui podem pedir ajuda a agentes externos à escola: pais, técnicos, inovadores sociais, pessoas da autarquia. Eles vêm à escola para esclarecer os alunos, dando também sugestões e dando opinião sobre as escolhas que têm que fazer, para que eles possam tomar as melhores opções”.

“Trabalho interdisciplinar”

Ana Carvalho, outra das professoras envolvidas no projeto, refere que se trata de um “trabalho interdisciplinar”. Pela sua experiência, o trabalho em que esteve envolvida ligou as disciplinas de Português, Ciências Naturais, Geografia, História, TIC e Educação para a Cidadania”. Houve, assim o “contributo de vários professores em várias áreas do saber”. Este ano, o projeto está a ter continuidade com mais professores agregados, “participando os professores de Educação Visual e de Dança”.

Resultados mais evidentes nas competências sociais

Os resultados mais evidentes estão relacionados, de acordo com Aline Santos, com as competências sociais, as chamadas “soft skills”. “Em termos de comunicação, como se habituam a apresentar as suas próprias ideias e conquistas, ficam depois mais à-vontade e mais confiantes quando têm que se colocar a falar perante um grupo grande”, afirma Aline Santos.

A autonomia e autoconfiança saem reforçadas nestes alunos. Aline Santos aponta que, na reunião no final do ano passado, com os alunos para ouvir a sua opinião, o que eles mais diziam é que “agora, somos tratados como adultos, somos nós que fazemos as escolhas e tomamos as decisões. Portanto há um maravilhoso mundo de empoderamento dos alunos”.

Alunos mais confiantes quando sentem que contribuem para “tornar o mundo melhor”

Ana Carvalho reforça que todo este trabalho “vai ao encontro do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória. Para nós é muito importante estarmos a tentar desenvolver nos alunos estas competências: o saber trabalhar em equipa, resolver problemas, ter iniciativa. Este projeto desafia-os e potencia o desenvolvimento desta capacidades”.

Aline Santos complementa esta ideia: “outra competência muito importante que desenvolvem é eles aprenderem a deixar de pensar só no seu mundo e o quererem tornar o mundo melhor, não só para si próprios, mas também para todos os que nos rodeiam”.
E acrescenta que em muitos dos vídeos dos projetos, os alunos resumiam o projeto da seguinte forma: “o NEMESIS é um projeto para tornar o mundo melhor”.

Aprendizagem mais focada na aquisição de competências

O NEMESIS representa uma nova abordagem para atingir competências de inovação social e o objetivo é criar mentalidades empreendedoras e pensamento crítico entre os alunos dos ensinos básico e secundário permitindo-lhes, assim, serem os inovadores sociais do futuro. Os professores envolvidos neste projeto, a nível europeu, consideram que a Educação, hoje, baseia-se sobretudo na aquisição de conhecimento, por isso, defendem que, nos próximos 10 anos, as escolas deveriam estar mais focadas na aquisição de competências e de capacidades.

NEMESIS fomenta a partilha de saberes

Os elementos-chave do projeto são: os laboratórios de cocriação; os inovadores sociais; plataforma aberta de aprendizagem para a inovação social.
Os laboratórios de cocriação integram um grupo diversificado de atores que cocria projetos de inovação social para dar resposta a problemas locais em contextos reais.

O grupo de inovadores sociais é uma comunidade de elementos dedicados que oferecem inspiração e orientação para as incursões dos alunos na inovação social.

A plataforma aberta proporciona um espaço e uma comunidade online para partilha de recursos e de práticas.

Projeto de Análise da qualidade do ar

Sara Alves está no 1º ano da Faculdade de Ciências do Porto, no curso de Biologia, tendo participado na Secundária da Maia de um projeto de análise e melhoria da qualidade do ar das salas de aula. No seu grupo estavam Rita Nunes e Rita Sousa, que tentaram resolver o problema de alguns maus cheiros do ar com a introdução de plantas nas salas.

A Professora Isabel Allen apresentou as alunos ao Professor Carlos Gomes, da Faculdade de Ciências, que foi um dos especialistas a que as jovens recorreram para procurar conhecimentos sobre a área e encontrar soluções.

Sara Alves considerou ao jornal Maia Primeira Mão que o projeto “correu bem e ensinou-nos às três a enfrentar e a resolver problemas. O ensino em Portugal é muito teórico e depois vamos para a Faculdade e vemo-nos frente a outros problemas, que temos de resolver e temos que nos desenrascar. Isso não nos é ensinado antes. Por isso, penso que esta foi uma experiência muito útil”.

O grupo era de três, mas os restantes alunos da turma, de 23, também colaboraram na procura de soluções para este projeto. A dinâmica de grupo foi importante, sublinha, “porque diferentes pessoas pensam de diferentes maneiras, o que significa que para o mesmo problema pode haver diferentes soluções, portanto conseguimos encontrar soluções para o mesmo problema e aplicá-las da melhor maneira”.

Aproveitamento da água da chuva para horta

Rodrigo Teixeira frequenta o 8º ano e começou, no ano passado, um projeto de aproveitamento da água da chuva para a utilizar numa horta biológica. Uma ideia, revela, é conduzir a água dos telhados dos pavilhões para depósitos.

Nesta fase o projeto está ainda numa fase de “sensibilização dos alunos de outras turmas para a poupança de água, promovendo a redução do gasto deste precioso bem. Um dos meios de sensibilização é a realização de individuais para os tabuleiros do refeitório”.
O Rodrigo já se habituou a transmitir a sua opinião e é muito desenvolto a responder: “foi muito útil participar neste projeto, consegui ser mais autónomo, pois fui à procura de uma solução para uma ideia. Não é difícil trabalhar em grupo, quando todos os elementos pensam em soluções para uma ideia comum”.

Melhorar os espaços para que todos se sintam confortáveis na escola

Inês Almeida está no 4º ano e já surpreende qualquer pessoa pela facilidade com que comunica explicando os detalhes do projeto da sua turma de “melhorar os espaços para que alunos, funcionários e professores se sintam confortáveis na sua escola.

Já começamos no ano passado, trabalhando os sentimentos das pessoas, escrevendo frases numas nuvens e espalhando-as pela escola para os meninos não se sentirem tristes”. Exemplos de algumas frases: “Estás na escola, é o sítio ideal para sorrir”; “O teu sorriso contagia-me”; “Não estejas triste, porque tudo se vai resolver”.

“Aprendi que não importo só eu e o meu espaço, mas o de todos”, afirmou nesta entrevista, garantindo que daqui em diante sente-se mais apta a participar noutros projetos escolares e considera importante este tipo de trabalhos para dar mais à vontade na apresentação de trabalhos a professores e a comunicar melhor.

O projeto prossegue este ano com a melhoria do pomar da EB1 de Gueifães. Um dos problemas é que “alguns meninos arrancam os frutos das árvores” e estragam-nos.

A turma já visitou o espaço e desenhou como quer que fique o pomar. Os alunos também já escreveram as cartas para entidades solicitando apoios para a intervenção no espaço.

Precisam de materiais para construir uma cerca e quatro mesas: “a mesa da palavra, da leitura, dos jogos e das artes”. A mesa da palavra, explica a Inês, “é quando um menino se sente triste senta-se naquela mesa e é obrigado a falar com outra pessoa para se sentir melhor”.
A Inês revelou ainda que a turma pretende fazer o “apadrinhamento de cada árvore”, isto é, “alguns alunos ficam responsáveis por uma árvore e têm que cuidar dela”.