“Ver, ouvir e cheirar as condições em que vive” a comunidade cigana

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Sem solução à vista. É assim que continua o realojamento dos cerca de 70 homens, mulheres e crianças de etnia cigana que foram “despejados” do terreno que ocupavam na Rua 4 da Urbanização do Lidador, em Moreira da Maia. Foram despejados por ordem o Tribunal Judicial da Comarca da Maia. Manifestaram-se em frente à Câmara Municipal. Estão a viver em tendas num terreno municipal na mesma rua 4 e esta quarta-feira marcaram presença na sessão da Assembleia Municipal da Maia. Mas não foram os únicos.

Nas alas do salão nobre de um lado sentaram-se os representantes das famílias despejadas, do outro moradores da rua 4 da Urbanização do Lidador. O objectivo era intervir e interceder pela comunidade que tem vivido sem dignidade, dizia Mário Vilaça Ferreira, que todos os dias, quando abre a janela de casa não deixa de “ver, ouvir e cheirar as condições em que vivem”.

Não consigo perceber como é que não há uma solução há 40 anos”. E em jeito de desabafo disse ainda ter a certeza de que se o cenário que se vive na rua 4 da Urbanização fosse num arruamento central da Maia, o assunto já teria sido resolvido.

E se a comunidade cigana está farta de promessas, os restantes moradores também estão, garantiu Olinda Gonçalves, que acredita que o que tem faltado “é vontade política e social” para solucionar o problema. “As condições são desumanas. Agora têm piores que tinham os meus animais e não podemos esquecer que existem lá muitas crianças e adultos com problemas de saúde”, ressalvou a moradora.

José Luís Morgado mora na urbanização há 29 anos. Chegou mesmo a ver alguns dos elementos da comunidade a nascer. A outros, ele e a mulher, curaram muitos hematomas. Por isso, afirmou à assembleia, hoje em dia custa-lhe ver as condições de vida em que vivem. E à edilidade apelou para que “rapidamente” arranje uma solução.

E quando todos pensavam que os moradores estavam na assembleia para defender os desalojados, o porta-voz da comunidade cigana interveio para dizer precisamente o contrário. Para Nuno Rossio o único objectivo dos moradores é correr com eles do local. “Nós somos os primatas da rua 4, eles não nos querem lá”. E, depois, voltando-se para o presidente da edilidade maiata descansou-o dizendo que a comunidade está bem e que o autarca “tem o tempo que precisar para arranjar uma solução”.

E perante uma assembleia cheia de gente rejeitou algumas das críticas que foram feitas pelos moradores, principalmente no que toca à limpeza. “Nós somos limpos, temos contentores para o lixo, temos dois chuveiros para o banho e quarto de banho”, enumerou Nuno Rossio.

O realojamento já tinha sido abordado no período antes da ordem do dia pelos presidentes das Juntas de Freguesia de Vila Nova da Telha e de Moreira, Pinho Gonçalves e Albino Maia, respectivamente. Se o primeiro praticamente se limitou a pedir a Bragança Fernandes uma solução definitiva, mais emotivo foi Albino Maia. O presidente da Junta de Moreira lamenta os interesses que rodeiam a questão e diz não perceber “como é que que se consegue colocar num prato da balança dinheiro e no outro pessoas”. E quando se fala na dependência da comunidade que vive o Rendimento Social de Inserção, o autarca lembra que há muitos nas mesmas condições a morar em empreendimentos de habitação. A única diferença será então na cor da pele. Também não escondeu o incómodo sempre que via algum sorriso na plateia ou alguma reacção às suas declarações. E elogiou a postura da Câmara da Maia que “tudo tem feito para solucionar a questão”, garantiu. “Alguns olham só para o seu umbigo, nós olhamos para a frente, tratando as pessoas como pessoas e não como animais”.

O presidente da Câmara Municipal da Maia, Bragança Fernandes, lamentou o despejo “mal feito” da comunidade. “Devia ter sido coordenado com a acção social, com a câmara municipal e com o próprio Governo Civil do Porto”, enumerou.

Bragança Fernandes garantiu ser presidente de todos os maiatos, não só dos que o elegeram e como tal, “todas as hipóteses para se chegar a uma solução estão a ser estudadas” para realojar “com dignidade” todos aqueles que estão recenseados na Maia.

Isabel Fernandes Moreira