Conferência sobre desafios 30 anos após a guerra fria

0
198

O Salão Nobre dos Paços do Concelho da Maia recebeu, no dia 23, uma conferência sobre “Que desafios geopolíticos, 30 anos após o fim da guerra fria”.

Organizada pelo pelouro das Relações Internacionais da autarquia, no âmbito da Exposição “World Press Photo”, foram convidados: Ilda Figueiredo, presidente do Conselho Português para a Paz e Cooperação; Ana Isabel Xavier, professora universitária, especialista em relações Internacionais; e Fernando Jorge Cardoso, professor universitário, coordenador do gabinete de Estudos Estratégicos do Desenvolvimento do Instituto Marquês de Valle Flôr.

O vice-presidente da Câmara, Paulo Ramalho, moderou o debate e a análise de questões relacionadas com a nova ordem política e económica que surgiu com a queda do Muro de Berlim, o desmembramento da União Soviética e o Pacto de Varsóvia, bem como os novos desafios geopolíticos e ameaças globais que, hoje, se nos colocam. Falou-se ainda do papel atual de organizações como a ONU, a NATO e do posicionamento da União Europeia.

Fernando Jorge Cardoso defendeu que “existem hoje ameaças globais, que o mais provável era terem surgido, independentemente da continuidade ou fim do conflito Leste-Oeste”. Identificou assim “três desafios que decorrem do fim da guerra fria: a erosão da aliança euro-atlântica, a crise sistémica da União Europeia e a erosão do multilateralismo”.

Referiu-se a três desafios “que existiriam hoje, mesmo que o conflito se mantivesse: mudanças climáticas, crescimento demográfico a par do envelhecimento da população e guerra violenta pelo poder no interior do Islão”. Por último, o investigador identificou três ameaças “em que existe alguma responsabilidade do fim da guerra fria, mas que tivesse ela continuado, continuariam provavelmente a existir: protagonismo global da China, mudanças estratégicas no Médio Oriente e crise das democracias liberais”.

Por sua vez, Ilda Figueiredo sublinhou a importância “dos 17 objetivos do desenvolvimento sustentável, aprovados pela ONU em 2015 e que chamam a atenção para os grandes desafios que a humanidade enfrenta, designadamente para acabar com a pobreza em todas as suas formas e para promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”. Acrescentou que, “num momento em que se regista um agravamento das desigualdades e a insegurança internacional, aquelas questões assumem particular importância”.

Ilda Figueiredo apontou que uma “maior mobilização de todos na defesa dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável” implica a “defesa do desarmamento nuclear, como defendeu recentemente o Papa Francisco, da assinatura de ratificação do tratado de proibição das armas nucleares, visando o progresso social e a paz”.

Ana Isabel Xavier, chamou a atenção para o facto de “com o colapso da confrontação bipolar entre o capitalismo e o comunismo, a conceção tradicional e estática de segurança ter sido claramente questionada, tornando-se evidente a falta de consenso de quem constitui a partir de então o inimigo tácito. Ao longo dos últimos trinta anos, o ambiente estratégico tornou-se mais ousado, imprevisível e volátil. As ameaças, como as migrações e o terrorismo, são transnacionais”.

A professora universitária entende que “a resposta às ameaças só pode ser coordenada e integrada. As soluções têm de ser simultaneamente globais, regionais e locais. Nenhuma análise se pode limitar a uma abordagem militar tradicional”.

Fala-se hoje de “ameaças híbridas como simultaneamente tática e estratégia subversiva. Com a quarta revolução industrial já em marcha, os desafios da governação e das políticas públicas viram-se cada vez mais para a cooperação digital”, afirmou a professora universitária.

Na sua opinião, “a combinação de insegurança e alterações climáticas é a face moderna das crises humanitárias”.

Encerrando a Conferência, Paulo Ramalho destacou “o crescimento do projeto da União Europeia com o fim da guerra fria, pela adesão de novos países vindos do antigo Bloco de Leste, o que trouxe mais desenvolvimento e mais bem-estar ao território da Europa, mas também mais desafios no que concerne à construção e implementação das políticas de coesão”.

No que respeita à Europa atual, o vice-presidente da Câmara afirmou que a UE tem sentido dificuldades em “construir uma verdadeira política de segurança e de imigração e de se afirmar como um espaço económico liderante e competitivo face ao aparecimento de novas potencias económicas como a China e a Índia, o que se pode agravar com a saída do Reino Unido”.

Para o autarca, uma das “principais ameaças” atuais relaciona-se com “as constantes guerras comerciais entre os Estados Unidos e a China”.