“É necessário desconstruir a ideia da política obscura e construir a ideia de que a política é como voluntariado”

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Hugo Gonçalves (foto cedida pelo próprio)

Hugo Gonçalves tem 24 anos e é o atual presidente da Juventude Popular (JP) da Maia. Está no último ano da licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Fernando Pessoa. Iniciou, no mês de Agosto, o seu mandato bienal. A JP é a organização política e autónoma de juventude do CDS-PP, tendo sido criada no ano de 1974 com o nome de Juventude Centrista.

Referiu recentemente que é uma altura difícil para fazer política, no entanto, é necessário ser feita. O que podemos esperar num período incerto como o que vivemos?

Relativamente a este mandato, obviamente que o maior desafio será as eleições autárquicas que se avizinham. Falando nas dificuldade de fazer política nos dias de hoje, obviamente que temos as redes sociais e é uma forma, que recentemente, tem sido cada vez mais utilizada e bem. Mas, como em todas as outras áreas, fomos lançados de cabeça para aquilo que vivemos hoje, esta nova realidade, a necessidade do distanciamento social e, tal como em tudo o resto, o contacto pessoal tem sempre um trato diferente e a política não é exceção a isso. O contacto com a população sempre marcou a maior parte de uma campanha eleitoral e com esta nova realidade vamos ter de nos reinventar e arranjar novas estratégias para compensar.

Considera, então, que as redes sociais sejam uma ajuda, mas não substituem o contacto físico?

As redes sociais trazem-nos muita informação sem filtros. Uma grande percentagem dos utilizadores chegam lá e dizem apenas o que lhes vai na cabeça. Não queria falar de toxicidade, mas é isso. Utilizar as redes sociais como forma de campanha tem esse entrave. É muito fácil criar pequenos grupos para denegrir algo ou alguém. A polémica dos seguidores fantasmas, que são pagos no Facebook e toda essa manipulação, tira alguma credibilidade às instituições partidárias e à própria campanha em si. É importante delinear estratégias, de forma a evitar estes problemas.

A Pandemia tem tido repercussões negativas para a execução do vosso trabalho, a nível de execução de projetos ou na transmissão da mensagem?

Negativas ou positivas, não avaliaria assim. Dificulta, mas talvez daqui a uns anos olhemos para trás e este tenha sido o empurrão que precisávamos para evoluir para formas diferentes. Não foi algo planeado e por isso traz dificuldades, nem tudo está no nosso controlo. Há um grande aumento do uso de plataformas nas reuniões, como o Zoom ou o Microsoft Teams. Juntamente com as questões ambientais, obviamente que esta mudança tem um impacto positivo, porque existe uma diminuição dos gases poluentes com a diminuição das deslocações. Além disso, as redes sociais são um must neste momento. Temos ainda os média mais tradicionais, mas não chega, principalmente numas Eleições Autárquicas.

Fale-nos um pouco das suas ações ou projetos para o futuro…

Nós vamos ter uma grande preocupação com a Educação. Não vamos esquecer os outros assuntos, mas este é o pilar fundamental para o futuro. Na Maia, temos um ensino de excelência. Poucos serão os concelhos que poderão dizê-lo com este à vontade. Todo o meu percurso académico até ao 12º ano foi na Maia e, portanto, falo com conhecimento de causa. Bons professores, excelentes instalações, uma associação de pais sempre muito presente. Mas o facto de estarmos bem, não significa que não possamos melhorar.

Na sua apresentação, referiu a educação 4.0, apresentando-a como uma necessidade para a educação. Pode concretizar em que consiste esse desafio?

Vivemos num sistema educativo ainda muito rígido, pré-era dos computadores, à base do ter de reter informação para depois a despejar. Isto faria sentido num tempo em que a única fonte de conhecimento estaria em bibliotecas ou universidades e só aí teríamos contacto com informação. Hoje em dia, numa pequena caixinha (telemóvel) temos acesso a tudo isto: bom e mau, real e manipulado. Porquê tanta preocupação com a informação toda que decoramos para um exame, que até nos corre mal ou não nos lembramos de algo, quando podemos apenas aceder ao Google e aceder a essa informação? Faz mais sentido sabermos procurar e decifrar a informação e verificarmos se é verdadeira ou não, do que propriamente absorvê-la e depois despejá-la num exame e a seguir nos esquecermos dela. Em vez de dar a informação, dão-se as ferramentas para chegar ao conhecimento.

Mas para a concretização desta ideia, tem de existir também um processo de literacia para decifrar e desconstruir a informação, além do telemóvel?

Certo e esse processo passa pelas escolas, nas disciplinas de tecnologia da informação. O que era dado nestas disciplinas era o mais básico, mexer em programas, como um Word ou um Excel, que é importante, mas não suficiente. A educação não precisa só desta reforma estrutural. Olho para sistemas educativos como o norte-americano e são as pessoas que escolhem o seu curso, ou seja, as cadeiras. Sei que tenho algumas cadeiras obrigatórias, mas as outras deveriam ser a minha opção de acordo com o que considero que me capacitaria melhor para o futuro. Em Portugal, é tudo muito rígido. Temos algumas cadeiras que até são possíveis de escolher, mas sempre de modo obrigatório. Existe A ou B, não existe uma lista. Saímos do ensino quase como um produto vindo de uma linha de produção, temos todos as mesmas competências, as mínimas, pelo menos. Os alunos do ensino superior têm 17 ou 18 anos e são maiores de idade. Se até a nossa educação, enquanto maiores de idade, nos é desta forma imposta, como é possível nos pedirem responsabilidade?
E é necessário reformar outras coisas. Por exemplo, os auxiliares nas escolas: estamos a falar de profissões sem carreiras. Como é suposto trabalharem motivados assim?
Também é necessário arranjar uma estratégia para a própria avaliação dos professores, para dar algum mérito àqueles que são um pouco fora da caixa. Aqueles que, efetivamente, se preocupam a fazer com o que os alunos aprendam…que recompensa têm? A escola não tem de ser vista como aquela obrigação ou bicho papão para os alunos. De todo.

Mas, atualmente, existem famílias que ainda não têm acesso a computadores, por exemplo…

Sim, durante a Pandemia essa realidade ainda se tornou mais consciente. E quanto a isso, a Câmara da Maia, por exemplo, tomou uma iniciativa de fazer uma recolha de equipamentos para distribuição e isso é de louvar. Mas há necessidade de criar incentivos e facilitar o acesso a estes equipamentos. Antes eram necessários, agora são praticamente obrigatórios. Aproveito para falar numa medida que foi proposta pelo CDS, a redução do IVA nos equipamentos eletrónicos essenciais para a taxa mínima dos 6%. Não estou a falar num Magalhães 2.0, mas de facto, pode haver ajudas do Estado, porque têm sido as Câmaras a arranjar remendos para esta situação. A educação sofrerá um grande impacto com tudo isto e, como sempre, serão as classes mais baixas a sentir o maior impacto desta situação. Por isso, estes apoios são essenciais.

A JP defende a educação como um pilar fundamental para a nova geração, de forma a possibilitar a mobilidade social e uma maior participação dos jovens na política. Como incutir estes valores aos jovens de hoje?

É complicado. Não digo que os responsáveis sejam os órgãos de comunicação social, mas compreende-se que quando há problemas, é mais apetecível ao público ver as notícias negativas. E são essas situações que descredibilizam esta nobre profissão. Eu vejo a política, como muitas pessoas veem o voluntariado. O nosso saldo é tudo menos positivo, a nível de custos monetários e até custo pessoal. Há políticos que são profissionais e que fazem da política a sua vida e o foco é aquilo, mas estes políticos representam uma pequena percentagem de todos os atores envolvidos. No nosso caso, temos de nos dedicar à política no final do trabalho ou dos estudos. Este lado de toda a gente que trabalha em prol da comunidade e acaba por não trazer nada mais do que satisfação pessoal é o lado menos mostrado. É necessário desconstruir a ideia da política obscura e construir a ideia de que o político é como um voluntário que pretende ajudar. A política não está com uma cara lavada e precisa de a lavar o mais depressa possível.


Quais as suas considerações acerca do Orçamento Participativo Jovem (OPJ) na Maia? Concorda com os moldes estabelecidos? Vai acompanhar a evolução deste projeto?

Vamos fazer os possíveis por estar atentos. De momento, estamos numa fase prematura na JP, fase de produção de imagem e a pensar na forma como vamos desenvolver o que temos planeado para um futuro próximo, assim como as eleições autárquicas, que exigirão muita formação. Mas vamos estar atentos, e sempre que acharmos necessário, estaremos em contacto com o CDS Maia para manifestar as nossas opiniões.