Entrevista a Hélder Ribeiro: “A acção futura adequada passa por termos um PS coeso, unido, interventivo e com uma liderança presente”

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Hélder Ribeiro é secretário coordenador da secção de Gueifães do PS e candidato à Comissão Política Concelhia da Maia. Diz querer refundar o PS local, com base numa reorganização, requalificação e revitalização.

Primeira Mão – Porque é que quer refundar o PS da Maia?
Hélder Ribeiro – O que pretendemos é refundar e abrir uma nova esperança para o PS Maia e isso traduzido para os maiatos. O que queremos dizer é que queremos que o PS seja uma alternativa credível e consistente, capaz de liderar os destinos da Maia. Portanto, trabalhar, apresentar um PS credível, sério, com propostas alternativas e com propostas em que os maiatos acreditem, para nos darem uma oportunidade, a médio prazo, de governar os destinos da Maia, é esse o nosso objectivo.

Não acha que o PS já teria obrigação de ser uma alternativa há bem mais anos?
O Partido Socialista, pela sua história e por aquilo que representa na sociedade portuguesa e na Maia também, não esqueçamos que já tivemos um presidente de câmara socialista, é efectivamente um partido que almeja ser poder. Mas nem sempre as circunstâncias o permitem e não podemos também esquecer que temos outras forças políticas, que naturalmente apresentam as suas propostas e nem todas as suas acções no exercício do poder serão negativas. Algumas são positivas, como temos que reconhecer, e o povo não se engana. Portanto, se têm dado oportunidade a outro partido político é porque naturalmente ele tem feito algum trabalho que as pessoas reconhecem. No entanto, o Partido Socialista pode fazer melhor do que tem feito, principalmente nos últimos anos.

É Secretário Coordenador do PS da secção de Gueifães, está dentro daquilo que se passa no PS local, tem a sua quota-parte da responsabilidade no desempenho do Partido Socialista da Maia ao longo dos últimos anos. Não acha que poderia ter sido feito mais?
Penso que é sempre feito um esforço grande por parte das pessoas que se empenham e que militam, mas podia ter sido feito melhor. É para isso que nos propomos, é para isso que me candidato, para tentar fazer melhor. Acredito que posso fazer melhor, com mais qualidade, de maneira a que os maiatos vejam em nós uma alternativa e uma capacidade efectiva de ser uma alternância ao actual poder na Câmara Municipal da Maia.

E como é que pretende fazer isso?
Pretendo fazer isso começando pela própria casa, pelo Partido Socialista, organizando, requalificando e revitalizando. É nisso que eu traduzo a refundação. Apresentar um partido credível, sério, assente nos valores modernos do socialismo democrático. É a primeira etapa desse caminho que me proponho percorrer, apresentar aos maiatos uma instituição no concelho, um Partido Socialista capaz de mobilizar e de se misturar naturalmente com a sociedade civil. Portanto, sendo parte dessa sociedade civil, estando atento aos seus anseios, às suas necessidades, sendo um parceiro, sendo alguém que não é visto como um estranho ou como alguém que não persegue os objectivos que um partido político deve perseguir, o bem público e o bem da colectividade onde está inserido.

No fundo isso é o que todos os partidos também defendem. Não vejo nenhum partido que queira o mal da comunidade, que não queira misturar-se com a população. A concretização é que é sempre mais complicada. Como é que pretende fazer isso?
A diferença nas várias áreas de intervenção política e cívica está na coerência entre o discurso e a prática. Eu não me candidato a presidente da concelhia para fazer discursos, eu candidato-me para realizar, para concretizar, para que o discurso seja coerente com a prática. Daí a proposta de refundação e de um novo começo, abrir uma nova esperança em cima de valores do socialismo moderno e democrático, como a ética, a liberdade como autonomia, os direitos responsáveis, a autoridade democrática na intervenção cívica e política dos nossos militantes. Naturalmente que depois terá que ter associado uma acção e uma intervenção política adequada a estes princípios. Não podemos ficar só pelas palavras. A acção adequada passa por termos um PS coeso, unido, interventivo e com uma liderança presente. Este PS novo e equilibrado não pode esquecer aqueles que o construíram, deverá ser um PS próximo dos militantes, das estruturas locais e dos autarcas que muitas vezes são negligenciados e esquecidos nos períodos que medeiam os processos eleitorais, que mostre ser consciente da grande herança que é a história do nosso partido no concelho. Este é um partido que quero operativo e operacional.

Estabeleceu três parâmetros daquilo que disse ser a refundação do PS da Maia: organizar, revitalizar e requalificar. O que é que propõe?
O que eu pretendo é uma clara ruptura com as práticas que existiram no passado recente.

Que práticas são essas?
Nem sempre foram as mais defensáveis e aquelas que deveríamos mostrar para o exterior. Nós tivemos um partido dividido, um partido que não soube aproveitar as oportunidades que o contexto político oferecia na altura. Foi um partido que se apresentou ao eleitorado extremamente fragilizado e dividido, sem liderança nem projecto político e sem ter sido capaz uma única vez de assumir publicamente críticas ou reparos consistentes à gestão do PSD. Foi um partido que em contrapartida, infelizmente, digo com mágoa, foi fértil em oportunismo, em projectos pessoais, em ilegalidades até, e em traições.

Quando me fala em organização, presumo que não seja só uma organização de iniciativas e de actividades, presumo que seja também uma organização interna do próprio partido.
Gosto de usar as palavras com critério e a palavra correcta é reorganizar. Requalificar em primeiro lugar, depois reorganizar e revitalizar. Requalificar, a primeira palavra caberá aos militantes, no sentido de se entenderem requalificar os órgãos dirigentes nas próximas eleições, têm agora oportunidade no dia 17 de Abril de requalificar a qualidade dos dirigentes do PS Maia. Desde aí teremos diferenças na actuação dos novos dirigentes e eu acredito que os militantes me vão dar a responsabilidade de liderar o partido nos próximos dois anos.
A segunda vertente é a reorganização, que tem várias dimensões, entre elas a dimensão de imagem e de funcionamento interno, porque hoje temos um partido que não tem uma imagem externa, não tem um gabinete de comunicação, não tem uma ligação forte, informativa e comunicativa com os militantes. Está fracturado em termos de proximidade das estruturas locais e concelhia. É um partido que neste momento não tem norte, não está consistente no seu funcionamento, encontra-se a funcionar em vários tempos e quase de uma forma caótica.

No processo de preparação das últimas eleições autárquicas, como Coordenador do Secretariado da Secção de Gueifães, assumiu uma postura de ruptura com a actual Comissão Política Concelhia e que na altura organizava o processo eleitoral. Apresentou-se contra o então presidente da Junta, depois reeleito, para ser candidato do PS à Junta de Freguesia de Gueifães. Não foi uma deslealdade?
No interior do PS da Maia, tenho tido um percurso coerente e que põe o enfoque mais nas práticas e nas ideias do que nas pessoas. Tendo em conta essa premissa, gosto de privilegiar a primeira pessoa do plural em detrimento da primeira pessoa do singular. Para nós, o mais importante são as ideias e as práticas, aquilo que cada um deu provas que é capaz de fazer, aquilo que cada um exibiu no seu comportamento efectivo do dia-a-dia e não dar tanto relevo à retórica e à verborreia.
Nessa medida, depois das eleições de há dois anos, em que integrei e fui um dos principais impulsionadores da candidatura da minha camarada e amiga Maria Luísa Barreto, decidimos que a nossa postura não devia ser de reivindicação e protesto, mas sim de parceria e de colaboração crítica com o Secretariado e o presidente eleito. Os actos vistos isoladamente adquirem uma importância que, às vezes é necessário perceber ou tentar que se percebam os pressupostos, para depois se concluir desta ou daquela acção ou comportamento. Em relação a Gueifães adoptamos essa postura de colaboração sem alienarmos a nossa liberdade de crítica e de auto-crítica. Participamos activamente em todos os processos em que fomos incluídos e penso que fomos incluídos em todos, em termos da concelhia e da secção da qual faço parte e ainda lidero. Acontece que a partir de certa altura o partido tem de fazer meia culpa, onde eu me incluo. Percebemos, a partir de certa altura, que o partido tinha dado oportunidade e tinha endossado a responsabilidade a determinadas pessoas que não estavam ainda aptas a essa elevada responsabilidade, ainda não teriam tempo suficiente para perceber e para saber o que é um partido político e em especial o Partido Socialista, como funciona, que regulamentos e estatutos tem e que cultura subsiste ao nosso Partido Socialista na Maia.

Está a falar da Direcção da Concelhia?
Sim, exactamente. Essa situação menos conseguida, por parte do partido, esse erro que foi cometido redundou em alguns incidentes lamentáveis que ocorreram e que prejudicaram a imagem do partido em termos externos, não permitiu que as listas apresentadas fossem as listas que genuinamente o partido devia apresentar e que nalguns locais, pontualmente, tivessem acontecido crises que de facto poderiam não ter acontecido, poderiam ter sido prevenidas, mas nem tudo é possível.

A questão de Gueifães

A questão de Gueifães é fundamental. Menos de um ano antes das eleições autárquicas, a sua secção, por si liderada anunciava um apoio claro ao então presidente da Junta de Freguesia para uma recandidatura. Alguns meses depois quer a secção destituir Alberto Monteiro de uma possível recandidatura, para o surgimento de outro candidato, que seria você. Isto surge como algo de estranho. Não acha que dá a ideia de uma certa postura de projecto pessoal, que há pouco criticava?
Entendo que quando se milita num partido, e falo em causa própria no Partido Socialista, devemos militar na certeza de que estamos para servir e que estamos referenciados a um colectivo, a órgãos, a desígnios que vão bem mais longe do que os nossos próprios interesses pessoais. Naturalmente que é legítimo que cada um tenha os seus próprios objectivos, que lute por eles e essa sã competição que deve existir em todas as organizações é positiva, torna-a viva e competitiva também como um todo, mas cada um deve ter plena consciência de que mais do que os seus próprios interesses, estão os interesses daqueles que ambicionamos servir e do partido que representamos. Por isso, como militante de base, como dirigente, como secretário coordenador e, como espero, como presidente da concelhia, porei sempre à frente dos interesses individuais de quem quer que seja, os interesses da Maia e os interesses do Partido Socialista. E foi assim que também agi como secretário coordenador da secção de Gueifães e como membro eleito da Comissão Política da Concelhia do PS Maia. A todo o tempo não alienei em minha liberdade de agir em conformidade com a responsabilidade que todo o militante tem, pôr à frente de qualquer interesse pessoal o interesse do Partido e o interesse da Maia.

Se bem entendo, Alberto Monteiro já não servia naquela altura para ser candidato à Junta de Freguesia de Gueifães?
A questão é mais larga, quando alguém que tem responsabilidades numa organização e em particular num partido, entende que não estão reunidas as condições para que os interlocutores A, B ou C sejam apresentados como representantes do partido a umas eleições, o que deve fazer é assumir essa responsabilidade frontalmente, sem medo das consequências, assumindo por inteiro e avançar naquilo que acha necessário fazer no momento. Foi isso que foi feito em Gueifães. Eu e os meus camaradas da direcção da secção de Gueifães do partido assumimos todas as nossas responsabilidades. Assumo as minhas, o que foi feito foi feito, fá-lo-ia de novo na certeza de que hoje viramos uma página e outros que deverão assumir as suas responsabilidades a seu tempo as assumirão, penso eu. Assumi as minhas e os meus camaradas que me acompanham no secretariado da secção também as assumiram. As decisões foram tomadas, o caso está entregue a órgãos federativos, jurisdicionais. Eu, como secretário coordenador o que tenho que fazer, por um lado, é olhar em frente e fazer o que um secretário coordenador de um partido político como o Partido Socialista deve fazer: fazer tudo o que pode e tem ao seu alcance para que o partido sirva a população.

As relações com os vereadores

As suas relações pessoais e políticas com os actuais vereadores do Partido Socialista da Câmara Municipal da Maia, em particular com o ainda presidente da concelhia Mário Gouveia, ficaram fortemente afectadas. Como é que sendo presidente da concelhia, se for eleito no dia 17, vai resolver este conflito?
Mais do que eu resolver alguma coisa, é mais do que um dever, é obrigação de todo o militante do Partido Socialista obrigar-se e ter a consciência de que quando milita e quando é colocada sobre si a responsabilidade de representar um partido, deve subjugar todos os interesses a essa realidade. Se todos no Partido Socialista, aqueles que somos hoje militantes e aqueles que continuarem a ser amanhã militantes, tiverem bem presente essa responsabilidade que o seu dever é estarem referenciados ao partido e quanto mais alta é a sua responsabilidade, mais humildade terão que ter no sentido de reportar às bases. Não há problema que seja intransponível, desde que todos os que fazem parte do Partido Socialista tenham a consciência e saibam das suas obrigações.

Está à espera que os actuais três vereadores do PS coloquem a possibilidade de renunciar ao mandato, se for eleito presidente da concelhia?
Comporto-me na vida política como me comporto na minha vida pessoal, familiar, laboral. Naturalmente sou igual em todas essas áreas de intervenção e portanto preocupo-me mais com a minha responsabilidade que é servir o Partido Socialista, no caso da concelhia da Maia, servir a Maia. Aquilo que eu espero de todos os militantes, estejam eleitos na vereação, na assembleia, nas assembleias de freguesia é que tenham a mesma consciência. É isso que se exige a militantes do Partido Socialista, é terem a consciência que estão em representação de um partido político e isso deve ser o mais importante. Agora o que cada um em consciência deve ou não fazer, só a ele cabe e ao presidente da Comissão Política Concelhia caberá a todo o momento agir em conformidade com a sua própria consciência.

O projecto que tem para o PS da Maia é para conduzir o PS da Maia o poder na Câmara Municipal da Maia nas próximas eleições autárquicas?
Em teoria assim deverá ser, no entanto todos sabemos que quem detém o poder nas autarquias locais tem sempre uma facilidade acrescida para continuar a ganhar. O Partido Socialista, que é um Partido que está talhado para ser alternativa e para exercer o poder terá que fazer um esforço suplementar, um esforço muito grande no sentido de conseguir ganhar, a curto, a médio prazo a Câmara Municipal da Maia. Não me candidato prometendo impossíveis. Eu prometo trabalho e credibilizar e referenciar o Partido aos princípios do Socialismo, fazendo tudo para que o Partido tenha condições de ser visto como uma alternativa. Hoje não é visto como uma alternativa e eu quero pelo menos começar a criar condições para que ele seja visto como uma alternativa capaz de liderar a Câmara da Maia. Se é nas próximas eleições que o vamos conseguir, ou noutras mais à frente, só o povo da Maia o poderá dizer. Eu vou trabalhar para que seja já e acredito que poderá ser já mas não afirmo, não depende só de mim. Eu vou fazer tudo o que posso fazer, tudo aquilo que sabem que eu posso fazer para mobilizar o Partido, para o congregar Mara o unir, mas também para o responsabilizar. É necessário que cada um de nós seja responsável e seja responsabilizado pelos seus comportamentos, pela forma como actua referenciado ao Partido, aos princípios do Partido e referenciado à linha política que o Partido entender que é a adequada, que os militantes devem referenciar. É esse o desígnio que eu quero para o Partido e que quero apresentar aos Maiatos.

Entrevista na Rádio Lidador

Toda a entrevista pode ser escutada domingo, 11 de Abril, às 13h00, na Rádio Lidador