Entrevista ao presidente António Silva Tiago

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António Silva Tiago
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“É do equilíbrio entre o pensar e planear, ouvindo as pessoas no local, que a minha ação política enquanto líder da comunidade, se vai consolidando”

O presidente da Câmara, António Silva Tiago concede ao Primeira Mão a sua primeira entrevista do ano. Completos que estão quase seis meses das eleições autárquicas em que foi eleito, Silva Tiago continua a ter como espelho de governação o modelo de Bragança Fernandes, na medida em que considera que o seu antecessor “é uma pessoa que sabe, como poucos, interpretar corretamente as exigências que se colocam quotidianamente ao presidente de Câmara.”

Que prioridades tem para o ano em curso?

Não é uma pergunta fácil, mas um presidente de Câmara tem que ter sempre presente as prioridades do quotidiano, como por exemplo, a educação, a habitação, o apoio social, a segurança e a proteção da comunidade concelhia, enfim, tudo aquilo que é essencial para que as pessoas vivam bem e felizes.

Depois, para além do básico e essencial, tenho nas prioridades da minha agenda, o ambiente, a sustentabilidade integral da comunidade e a gestão do território. Mas reconheço que a educação, pilar fundamental no qual radica o nosso futuro coletivo é um desígnio estratégico que a todos mobiliza e estimula.

Entendo que proporcionar às nossas crianças e jovens uma educação de excelência é um desígnio comunitário, que pertence a todos prosseguir, famílias, escola e naturalmente à autarquia. Tenho plena consciência que não se pode descurar nenhuma das linhas estruturantes da nossa ação política diária, razão pela qual é fundamental agir com assertividade, olhando o território de uma forma integrada, planeando e executando todas as medidas de modo muito bem coordenado e articulando as diversas intervenções necessárias.

É por isso que hoje, além do trabalho que faço na quietude do gabinete, complemento esse trabalho com muitas idas ao terreno para ver com os meus próprios olhos como é que as coisas se estão a concretizar. É deste equilíbrio entre o pensar e planear, com o fazer e acompanhar, ouvindo as pessoas no local, que a minha ação política enquanto líder da comunidade, se vai consolidando.

Na tomada de posse apresentou-se como presidente de todos os maiatos. Essa afirmação tinha como objetivo serenar os ânimos depois de ter havido queixas da oposição aos resultados e até acusações de fraude eleitoral a favor de Maia Em Primeiro?

Creio que com o tempo as pessoas acabarão por compreender que a Democracia funciona assim, quer dizer, se uns ganham é porque outros não ganharam, é normal, faz parte do processo democrático.

Devo dizer-lhe que tudo tenho feito para que as pessoas que corporizam a oposição na Câmara Municipal se integrem e exerçam os seus mandatos cumprindo a sua missão democrática de harmonia com o seu estatuto e em coerência com os compromissos que assumiram a 1 de Outubro de 2017. Claro está, que embora possamos estar recetivos a propostas oriundas da oposição, só as poderemos considerar se elas se enquadrarem minimamente no nosso programa político, por forma a não defraudarmos a maioria que nos elegeu.

Procuro conduzir o órgão colegial a que presido mantendo, tanto quanto possível, um diálogo franco, aberto e muito democrático, posicionamento que estendo ao relacionamento institucional com todos os outros órgãos e instituições políticas, assim como com as entidades públicas e privadas.

Penso que temos dado passos muito seguros na estabilização do diálogo institucional democrático e até nas relações interpessoais no seio dos órgãos políticos, ao ponto de termos hoje um clima de Paz social, que reputo de saudavelmente normal, onde cada um assume as responsabilidades que lhe são próprias e respeita as regras democráticas com elevação e cordialidade, o que me apraz particularmente.

Quem me conhece sabe que procuro afastar-me da crispação e da agressividade. Entendo que quem tem responsabilidades políticas, deve ter sempre presente a noção de que tudo quanto diz, tal como os seus comportamentos e atitudes, têm uma leitura e uma interpretação pública.

Tendo consciência disso, procuro relacionar-me com todas as pessoas, tendo o máximo de respeito pela individualidade de cada um, mas também cuido de usar uma linguagem assertiva mas cordata e que se pauta pelas boas maneiras com que os meus pais me educaram. É um jeito de ser e de estar na vida, que é o meu e eu dou-me bem assim…(sorriso).

Como é trabalhar com um Presidente da Assembleia Municipal que foi o seu antecessor?

É excelente. E é excelente em primeiro porque estou a trabalhar com um amigo, a quem por diversas vezes me refiro como se fosse um irmão mais velho, que acompanhei numa caminhada de 27 anos na vida autárquica, tempo ao longo do qual selamos uma amizade muito própria.

Por outro lado, o facto do Engº Bragança Fernandes ter sido presidente de Câmara dá-lhe uma experiência e um conhecimento muito profundo dos problemas e das dificuldades que por vezes surgem e que carecem da compreensão e da solidariedade pessoal e política do presidente da Assembleia Municipal e dos senhores deputados.

Ora, tendo como interlocutor institucional um amigo e um político com o seu capital de experiência pessoal e pública, creio que tenho as melhores condições para exercer um mandato sereno, tranquilo e francamente cooperante, considerando que tenho a presidir à Assembleia Municipal uma pessoa que sabe como poucos, interpretar corretamente as exigências que se colocam quotidianamente ao presidente de Câmara.

Ter o meu amigo António Bragança Fernandes naquele lugar é claramente uma vantagem e um benefício para toda a comunidade concelhia, porque ambos queremos o mesmo, ou seja, quer eu quer ele queremos que a Maia seja uma família feliz…

No final do primeiro semestre do seu primeiro mandato como presidente da Câmara da Maia pode perguntar-se que marca gostaria de imprimir a este seu mandato inaugural?

Neste mandato além de consolidarmos todos os patamares de qualidade de vida e bem-estar que já alcançamos e que figuram em vários indicadores tornados públicos por entidades independentes, iremos incrementar a concretização da sustentabilidade integral do nosso território, quer do ponto de vista humano e social, como no que respeita à sustentabilidade ambiental e económica.

Esta visão estratégica para o futuro implica naturalmente um pensamento estruturado e uma grande capacidade de planear, mas só terá sucesso se nos dedicarmos quotidianamente à execução dos nossos projetos que visam esse desiderato e nos focarmos na gestão inteligente e eficiente dos recursos, tendo sempre presente na nossa consciência de que eles são cada vez mais escassos.

A par da nossa ação, é preciso desenvolver uma pedagogia pública muito eficaz, no sentido de conquistarmos a cidadania, para uma participação proativa e socialmente responsável, que nos ajude a difundir os valores da sustentabilidade integral e a alertar as pessoas para os impactos de um uso perdulário, desregrado e até doloso dos recursos naturais e económicos.

Esta era a marca que eu gostaria de deixar na comunidade concelhia da Maia no final deste meu primeiro mandato. Era a marca de ter sido suficientemente capaz de motivar os maiatos a envolverem-se e a comprometerem-se com o objetivo coletivo de construirmos uma comunidade social e economicamente coesa, firme nos seus princípios e valores e unida no essencial, em prol do progresso e do desenvolvimento humano.

Sou uma pessoa com espírito de equipa e valorizo imenso as virtudes do trabalho e da cooperação em equipa, se quiser, em comunidade. Como sabemos, hoje, as grandes organizações apostam claramente mais em pessoas com estas competências de integração e colaboração em equipa, do que em talentos individualistas. Se eu conseguir que a comunidade concelhia interiorize este espírito e se una para abraçar os grandes projetos que podem fazer a diferença, sentir-me-ei realizado.

Como concilia o facto de ser presidente de Câmara e presidente da Comissão Política concelhia de secção do PSD?

Creio que consigo compaginar os dois cargos de forma muito pacífica e serena. Quando falo na qualidade de presidente de Câmara sou o presidente de todos os maiatos, de todos sem exceção, qualquer que seja o seu credo, a sua filiação partidária, classe social, poder económico ou quaisquer outro tipo de orientações. Nada disso me importa, apenas me interessa a sua condição de maiatos, as suas necessidades, anseios e os assuntos em que eu, enquanto presidente de Câmara possa ser-lhes útil.

Quando estou na pele de presidente da Comissão Política do PSD da Maia, cargo do qual me sinto muito honrado em exercer, a minha preocupação é defender os valores políticos em que acredito, procurar manter a coerência do ideário e das linhas programáticas do partido e ser consequente na ação. Mas nunca deixo que uma função possa ser confundida com a outra. Em todo o caso, deixe-me que lhe diga, que é porque tenho consciência de que o facto de ser hoje presidente da Câmara Municipal da Maia pode conferir às minhas opiniões e posições políticas partidárias um carácter de alguma pressão pública que me leva a ser muito discreto e cuidadoso nas opções que tomo e no que digo.

Faço-o por uma questão de sensatez. Não porque me sinta condicionado ou limitado na minha Liberdade, bem pelo contrário, faço-o precisamente para respeitar a liberdade de todos os meus concidadãos.

A extensão do eco caminho será uma realidade ao serviço da população ainda neste mandato?

Na verdade, essa obra já se encontra em plena execução, com os trabalhos a decorrerem no terreno a bom ritmo, apenas pontualmente condicionados pelas circunstâncias atmosféricas que não nos é dado senão prever e constatar. Penso que iremos concluir esse alargamento dentro dos prazos previstos e proporcionar à comunidade a fruição desse importantíssimo equipamento público que tem um nível de fruição muito animador, revelando bem o quanto os maiatos apreciam caminhar ou correr ao ar livre.

Em concreto, o prolongamento a que a sua pergunta alude, tem uma extensão de 1500 metros, e vai desde as Vias Paralelas até à Estação de Metro de Mandim. Esse acréscimo de mais 1,5km, no espaço canal da antiga linha de caminho de ferro Porto/Guimarães, prolonga o percurso pedonal e ciclável já existente com uma extensão de mais 1,8km, perfazendo 3,3 Km de extensão total que o ecocaminho terá ainda antes do final de 2018, para oferecer à comunidade.

Pretendemos com esta ação promover uma mobilidade urbana ambiental e energeticamente mais sustentável, num quadro mais amplo de descarbonização das atividades sociais e económicas e de reforço do espaço urbano, enquanto espaço privilegiado de integração e promoção da coesão social. Estou convicto que esta obra, vai também incentivar o uso dos transportes públicos, melhorando as condições de intermodalidade entre o transporte coletivo urbano e os modos, pedonal e ciclável, contribuindo para eliminar pontos de conflito na interligação destes modos suaves com a circulação viária.

A próxima etapa, já em estudo para elaboração do projeto, será a continuação desse percurso, para o estender até ao ISMAI, na esteira do canal do Metro, num trilho paralelo e devidamente segregado para garantir a segurança de todos os utilizadores. Acalento a esperança de poder anunciar à comunidade concelhia esse projeto tão cedo quanto possível. Para já, o que posso afirmar, é que temos a anuência da Metro do Porto, que tem tido nesta matéria uma postura institucional muito cooperante.

O investimento em novos espaços para a prática desportiva é avultado, os benefícios justificam esse investimento?

Na Maia a nossa aposta prioritária é no desporto para todos. Desporto para todas as idades, crianças, jovens, adultos e seniores, todos na Maia têm possibilidades de fazer exercício físico e praticar desporto livremente ou praticar a modalidade da sua preferência, devidamente acompanhados por técnicos habilitados e a preços muito módicos de pendor genuinamente social.

Entendemos o Desporto como um fenómeno com fortíssimo impacto na coesão social e concedemos toda a atenção a esse facto. É claro que também apoiamos, de diversas formas e por vários meios, o Desporto federado e a alta competição, razão pela qual a Maia é hoje uma geografia onde se destacam muitos campeões.

Procuramos conciliar de forma harmoniosa estas duas realidades desportivas que convivem lado-a-lado de forma muito interessante e positiva para a afirmação da nossa marca identitária. Investir no desporto é investir nas pessoas, na sua saúde e bem-estar, mas também na coesão social. Neste sentido, cada cêntimo investido com esses fins e com esses benefícios para a vida das pessoas, é bem investido, porque é investir na qualidade de vida da nossa comunidade.

Como encara o facto de a Maia estar em contraciclo ao nível da população escolar que frequenta os estabelecimentos de ensino do concelho face a outros territórios?

É uma pergunta muito inteligente e dotada da maior acuidade pública, considerando que o problema da demografia é hoje um quebra-cabeças para os governantes. Realmente a Maia está em contraciclo, apresentando uma comunidade educativa pujante e com resultados que a todos nos enchem de orgulho.

Os nossos jovens fazem o ensino secundário com performances em termos de resultados muito acima da média e a percentagem dos que acedem ao ensino superior e concluem a sua formação é notável. Creio que esta realidade se explica por um lado devido às boas condições económicas que o nosso território apresenta, com um dinamismo da economia local que se afirma categoricamente, mas não será certamente alheio o facto de termos condições de excelência para que as nossas crianças e jovens aprendam os saberes essenciais e adquiram conhecimento que as habilita com uma escolaridade de alto nível. E isso é um excelente estímulo para que prossigamos a nossa estratégia de pugnar por uma educação de excelência.

E este objetivo da excelência não é uma utopia, mas sim uma ambição possível que só depende do nosso trabalho e empenho, de todos na comunidade, a autarquia, a escola, os pais e encarregados de educação e, obviamente, os alunos. Educar é um desígnio de todos para todos, razão pela qual queremos na Maia uma escola inclusiva que não desiste de ninguém, que não deixa ninguém para trás, por maiores que sejam as dificuldades de cada criança, jovem ou família.

Recentemente, numa intervenção pública que teve a propósito da assinatura de um protocolo com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, afirmou, embora por outras palavras, que não se devia assinalar o dia internacional da Mulher, isso não é uma contradição, para quem acabara de assinar um documento daquela natureza?

(sorrisos) Compreendo muito bem o objetivo da sua pergunta. Em bom rigor não foi isso que eu afirmei. Mas onde porventura vê uma contradição, eu encontro uma convicção firme. Se pensarmos que uma sociedade evoluída e civilizada não precisa de discriminar positivamente as pessoas porque reconhece a todas uma igualdade de direitos e oportunidades que não depende do género, será necessário assinalar um dia no ano para chamar à atenção da condição da mulher?

Enquanto cidadão, entendo que toda a pessoa humana, tem direito à sua dignidade, independentemente do sexo, da cor da pele, das suas raízes culturais, das suas opções ideológicas, crenças religiosas ou condição social e económica. Gostava que nesta matéria, se passasse a um nível da ação política, menos teórico e mais prático, mais concretizador, como por exemplo já acontece no universo constituído pelo Município da Maia que é hoje uma comunidade de trabalho onde há até uma hegemonia das mulheres, seja em lugares de chefia, como em quadros técnicos superiores e no quadro de pessoal em geral.

Na Câmara Municipal da Maia o que verdadeiramente conta é o mérito, a capacitação e a competência, a condição feminina ou masculina é uma distinção que decorre da Natureza humana, mas não influi na afirmação pessoal e profissional das pessoas, como também acontece nos órgãos políticos, Câmara e Assembleia Municipal.

Creio que nesse sentido somos um farol inspirador que envia sinais muito positivos à comunidade concelhia e à sociedade portuguesa. Sinto-me, devo dizer-lhe, muito orgulhoso de pertencer a uma instituição que pela sua prática evidencia nesta matéria um grau de evolução que também aqui nos coloca nos lugares cimeiros.

Quanto ao dia internacional da Mulher, considerando que ainda há muito caminho até termos uma sociedade onde a igualdade de direitos e oportunidades não encontre no género uma razão para discriminar, ponde em crise a dignidade intrínseca a toda a pessoa humana, claro que sim, sou a favor que a 8 de Março de cada ano, se assinale esse dia como uma jornada para abanar consciências e dar passos seguros que robusteçam a civilização humana.

Espero, contudo, que possamos acabar com esse dia logo que possível, pois isso significará que a Mulher e o Homem serão ambos cidadãos de pleno direito e igualdade na sua dignidade humana.

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