João Torres deve ser o candidato do PS à Maia, afirma Marco Martins

0
369
Marco Martins
Marco Martins

O vereador socialista Marco Martins diz que a sua consciência o impede de continuar em silêncio e declara que o PS deixou-se ficar para trás na preparação das autárquicas. Entrevistado pelo Primeira Mão defende que João Torres deve ser o candidato socialista, a personalidade que ainda tem alguma hipótese de agarrar a Câmara em 2017.

Marco Martins presidiu à Concelhia do PS durante nove meses. Foi eleito depois das Autárquicas de 2013, mas saiu da liderança do partido em agosto de 2014. Voltou ao trabalho político no executivo camarário alguns meses depois com a saída de Ricardo Bexiga, substituindo-o como vereador.

Quando se demitiu da Comissão Política da Concelhia da Maia, Marco Martins alegou compromissos profissionais, mas a verdade é que se sentiu manietado por alguns líderes históricos, “forças de bloqueio internas” do partido a que prefere não atribuir nomes.

Manteve-se calado e o PS também optou pela mesma postura para não dar azo a intrigas políticas. Mesmo quando, em abril deste ano, foi lançado um comunicado público de militantes descontentes com o líder da concelhia, exigindo a sua demissão, Marco Martins não se pronunciou. Mas agora vem admitir a Primeira Mão que concorda com o teor das críticas daquele comunicado subscrito por mais de 100 militantes.

É que passados três anos, em que o PS não aproveitou para se aproximar da população nem para criar uma rede de ligações em volta de uma personalidade maiata que produzisse valor eleitoral, e estando a um ano das próximas eleições Autárquicas, que marcam uma mudança de presidente no município, o vereador socialista entendeu que estava na hora de dizer o que pensava. E que basicamente é – o PS perdeu tempo e arrisca-se a não conseguir vencer a oportunidade de presidir ao município.

Vi que não ia ter “liberdade para as escolhas” necessárias

Saiu da liderança do PS porque sentiu que não ia conseguir tomar decisões, não ia ter a “liberdade para as escolhas que conduziriam a uma verdadeira alternativa” ao poder na Maia, referiu Marco Martins. E continua a não gostar da forma como o partido está organizado. Não aponta o dedo a ninguém em particular, não atribui culpas exclusivamente ao presidente da Concelhia, Jorge Catarino, pelo estado de coisas no PS, porque “ele tem uma equipa”. Digamos que “é toda a estrutura do partido” que não está a funcionar bem, referindo que teme que se caia “na mediocridade”.

Uma das queixas do vereador é sentir-se praticamente abandonado no executivo, pois, como o partido não apresenta as suas ideias alternativas à maioria, explica, “torna-se difícil de o fazer individualmente, posso estar a dizer algo numa reunião de câmara e, amanhã, ter o PS a dizer que tem uma visão completamente diferente da que defendi”.

“O PS já devia estar dois passos à frente do PSD”

Dentro deste quadro, “senti a necessidade moral, enquanto militante ativo que desempenha um cargo autárquico e algumas funções a nível distrital, de mostrar o meu descontentamento da forma como o partido tem vivido estes últimos anos e, principalmente, a forma como vive hoje, num momento tão crucial de preparação para as Autárquicas de 2017”, afirmou Marco Martins ao Primeira Mão.

Questionado sobre se o PS já deveria estar mais adiantado neste processo eleitoral, Marco Martins é categórico: “O PS já devia estar dois passos à frente do PSD, pois o PSD é poder e faz campanha todos os dias com o trabalho na câmara, algo que o PS não tem possibilidade de fazer. Também toda a gente já percebeu que o António Tiago será o próximo candidato do PSD às Autárquicas e já se encontra a fazer a sua campanha nas ações em que aparece ou sozinho ou ao lado do presidente da Câmara. E o PS que deveria estar à frente, encontra-se atrás do PSD em termos de preparação do projeto autárquico. O PS tem um problema grande, que é o eleitorado maiato não confiar no partido para liderar a Câmara. Isso já nos foi dito em todas as eleições e o partido já devia estar no terreno a criar uma relação de confiança. Mas para isso tem que dialogar com os agentes locais e levar debaixo do braço o projeto autárquico. O contacto com a população também é preciso fazer, pois as pessoas estão cada vez mais afastadas dos partidos e dos políticos. Mas acima de tudo é preciso não esquecer que os agentes locais têm na Maia uma teia catalizadora do voto. O PS tem que convencer estes agentes, algo que não conseguiu fazer até agora. Neste momento, o partido já devia estar no terreno acompanhado do candidato. Temo que o partido acabe por apresentar um candidato com o qual os maiatos não se identifiquem, por ser indicado pelos órgãos superiores, nacionais ou distritais”.

João Torres é o candidato capaz de unir o PS

Para Marco Martins é muito claro o perfil do candidato socialista à Câmara da Maia e até já tem um nome que encaixa perfeitamente nessa personalidade, o deputado na Assembleia da República e líder da JS, João Torres (recentemente entrevistado pelo Primeira Mão). “Pelo perfil que tem, pela história que o liga ao PS, uma vez que ele ingressou no partido com 15 anos, fez um percurso aqui na Maia e um percurso de crescimento que todos lhe reconhecemos, é uma pessoa consensual e com maior aceitabilidade no seio do PS”, justifica Marco Martins.

Acrescentando que, neste momento, “será a única pessoa capaz de unir o que de melhor o PS tem, a juntar a algum apoio que conseguiria reunir junto dos órgãos nacionais e distritais para poder ter alguma independência na construção do seu projeto, indo ainda a tempo de mostrar aos maiatos que o PS tem ideias e que é possível ter uma Maia melhor”.

Na sua análise ao concelho, o vereador socialista considera que a Maia vive “esgotada em termos de ideias de desenvolvimento”. Reconhece que no passado e no presente se vai fazendo um bom trabalho, depois de se ter colocado uma “máquina a funcionar” de que é exemplo “os indicadores ambientais”. É algo normal na conclusão de um ciclo, às vezes “é preciso vir alguém de fora lembrar que a vida não se centra apenas naquele quadrado e que há mais à volta”, sublinha Marco Martins, acrescentando que a Maia precisa “de uma ideia mobilizadora e de ser reconhecida como referência nalguma vertente de desenvolvimento na Área Metropolitana do Porto”.

Marco Martins lembra que o presidente da Câmara costuma dizer “que à Maia só falta o mar para ser excecional”, mas, frisa, “se calhar, prendemo-nos nestas ideias fixas e acabamos por não valorizar aquilo que temos”.

João Torres, líder JS nacional
João Torres

Maia tem recursos turísticos por aproveitar

A verdade é que, adianta, “a Maia tem recursos que já poderia ter aproveitado e está a perder a carruagem, por exemplo, ao nível turístico”. E explica: “o Norte teve um boom muito grande e que a Maia não está a aproveitar, tendo condições particulares que poderiam servir para uma plataforma de ligação ao Turismo regional do Norte do país. Temos o Aeródromo de Vilar de Luz, que tem meia dúzia de atividades. Existem paisagens fenomenais aqui ao lado, no vale do Douro, que poderiam ser um atrativo para promover viagens aéreas a partir do aeródromo”. São ofertas que estamos se deixam escapar em detrimento de outras que são colocadas em frente dos olhos dos turistas, “que fogem para outros destinos fortes como são os casos do Porto e de Matosinhos”.

Outra marca importante para o município seria “o concelho ser socialmente mais justo”. Marco Martins entende que a Maia ainda tem “diferenças sociais grandes. Apesar de um centro bem desenvolvido e contemporâneo, depois temos outras áreas onde isso não acontece. A Maia, sendo um concelho que se desenvolveu mais recentemente e tendo sido proativa nalgumas áreas, deveria ter um papel mais forte na AMP e afirmar o seu relevo, procurando também que a AMP começasse a ter políticas únicas, como acho que deveria ser no caso da política fiscal. O IMI, por exemplo, devia ser estudado a nível metropolitano”.