Lucidez, responsabilidade e sentido de Estado

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Estamos de novo mergulhados num ambiente de campanha eleitoral, com os líderes políticos a dizerem coisas, em que eles próprios, às vezes, não acreditam.

Vem aí a correria de norte a sul e ilhas, vem aí o folclore eleitoral do costume e os “sound bits” habituais, que preenchem o espaço mediático, animando as edições dos periódicos, bem como dos telejornais e rádio.

Quando chegar a hora de irmos para a cabine de voto, o mais provável é que o sentido da decisão que levamos no nosso espírito, nada tenha a ver com tudo isso. E se tiver, talvez a nossa escolha não seja a mais acertada…

Alguns serão fiéis à militância da sua consciência patriótica, outros serão leais a um indefectível militantismo partidário de contornos quase “religiosos” ou clubistas, quer dizer, que transcende a racionalidade. E outros haverá, porventura aqueles que acabarão por decidir tudo, arrebatados pela paixão momentânea, porque serão seduzidos pelo marketing eleitoral e pelo chorrilho de promessas tentadoras, e em muitos casos mesmo populistas.

Pese embora a minha condição de social-democrata, imponho a mim próprio, por imperativo de consciência, analisar cuidadosamente os programas eleitorais e de governo, que os partidos com possibilidades efectivas de chegar ao poder vão apresentar aos cidadãos. E a minha decisão de voto, só será tomada mediante esse meu juízo. Recuso-me a passar cheques em branco e a entregar procurações sem critério e com poderes ilimitados.

Lucidez

Estou cada vez mais firmemente convencido que Portugal só terá futuro se nós, todos juntos, formos capazes de fazer compreender aos partidos e aos seus líderes, que é absolutamente imprescindível celebrar um pacto patriótico que consolide bases políticas de compromisso, sobre matérias essenciais, como a Educação, a Saúde, a Justiça, a Economia e o Emprego.

Responsabilidade

Celebrar esse pacto é uma responsabilidade, em primeiríssimo lugar, dos maiores partidos do sistema democrático português.

Enquanto cidadão, invocando precisamente o mesmo sentido de responsabilidade, não posso permitir que as minhas convicções pessoais de social-democrata, sejam um impedimento para expressar a minha opinião e apoio claro, a um entendimento sério e comprometido, entre o PSD e o PS.

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Bem sei que os ventos, de momento, não estão de feição, para que um pacto com esta profundidade política possa ser assinado. Do mesmo modo que compreendo que primeiro teremos de ir a votos, para saber quem vale o quê? E essa clarificação faz a diferença, toda a diferença. Será com base nessa clarificação que a negociação ganhará substância e solidez, sem a qual aliás, as tensões e divergências naturais, podem fazer emperrar o processo e lançar o país numa instabilidade política, por maioria de razão, inteiramente indesejável.

Mas tem de haver muita responsabilidade, por parte de quem vai dar a cara na campanha eleitoral em curso, por forma a que não coloque estes dois partidos, numa posição de tal rigidez e confronto “Kamikaze”, que inviabilize um pacto político estrutural, ou mesmo acordos pontuais.

Para além das eleições, que todos os partidos e dirigentes querem ganhar, há um país suspenso por um fio muito ténue, que se for esticado, pela falta de lucidez e pela irresponsabilidade, pode rebentar a qualquer momento. Vale a pena perguntar, o que importam as maiorias, as vitórias relativas, ou de Pirro, se no fim de tudo, Portugal estiver sempre a perder?…

A minha esperança, e creio que a esperança da maioria dos portugueses, é que haja sentido de Estado, para que se faça da campanha eleitoral, um tempo de afirmação dos projectos e programas políticos de cada força partidária, facilitando aos cidadãos eleitores, a compreensão das diferenças essenciais que verdadeiramente as distinguem, afastando o cenário de arena política, onde os actores da campanha se comportam como verdadeiros gladiadores.

Há uma base fundamental que é preciso preservar, a cultura democrática, sobre cujos alicerces se eleva o respeito e os pilares estruturantes, para o diálogo entre as pessoas que a seu tempo, terão de tratar do devir da nossa História.

Se me é permitido, recomendo ponderação, temperança, decência e tento na língua.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de Paz Social, de lucidez, de responsabilidade, compromisso e sentido de Estado…
Victor Dias

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