Como num conto de fadas…

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Quem vê televisão, ouve rádio e lê jornais pode pensar que vive num reino feliz onde, como nos contos de fadas, os bons se defrontam com os maus, o bem se digladiam com o mal e onde, à partida, já se sabe que são aqueles quem vence. Mas será que é sempre assim?

Em Portugal, os governantes e os dirigentes dos partidos políticos que atualmente o apoiam – com o Primeiro-Ministro António Costa à frente de todos – passam os dias a apregoar que tudo corre bem no País e que, no final do ano, as contas públicas, o défice do Estado, a macro e a pequena Economia, o estado do Sistema Nacional de Saúde, as coisas da Educação e da Justiça, os indicadores do Desemprego e da Segurança Social, e tudo o mais que venha a colação, estarão bem. Em resumo: afirmam, sempre com um rasgado e triunfante sorriso nos lábios, que tudo estará seguramente melhor do que quando tomaram as rédeas do Poder. Estes devem ser os bons do conto de fadas português.

Contra este discurso otimista estão, inevitavelmente, os atuais partidos da oposição e os seus líderes – com Pedro Passos Coelho à frente de todos – que não param de vociferar, sempre que têm um microfone, um jornalista ou uma plateia de militantes fiéis à sua frente, contra o descalabro que, nas suas bocas, está a tomar conta do Pais e a arrastar os portugueses para um ameaçador segundo resgate, para a inevitável presença de uma nova Troika e de um tempo de austeridade ainda pior do que o que foi vivido em Portugal, depois de 2011. Estes devem ser os maus desse conto de fadas português.

Como vai terminar a história?

Mas será que a história vai terminar, como é da praxe nos contos de fadas, com a vitória destes bons sobre estes maus, ou as coisas se passarão ao contrário?

Para responder a esta inquietante questão talvez seja bom espreitar os números do Instituto Nacional de Estatística que – tal como o algodão de um famoso detergente – não enganam.

Comecemos pelo crescimento da economia. É certo que, há poucos dias, o INE corrigiu em ligeira alta, de 0,8% para 0,9%, o crescimento da economia no segundo trimestre de 2016, mas o consumo, que estava a crescer 2,6% no primeiro trimestre, só aumentou 1,7% em igual período.

No que toca ao comércio externo há a registar que o ritmo de crescimento das exportações desacelerou para menos de metade (de 3,1% para 1,5%), ao mesmo tempo que o crescimento das importações caiu de 4,6% para 0,9% no segundo trimestre.

O indicador relativo ao investimento também dá sinais preocupantes, pois continuou a abrandar, passando de uma queda de 1,7% no 1º trimestre para 3,1% no segundo. Exemplo expressivo dessa quebra é o que se relaciona com o investimento em carros e equipamentos de transporte que estava a crescer 20,5% no primeiro trimestre e que no segundo se expandiu apenas 4,9%.

Dívida pública

Também a dívida pública dá sinais inquietantes: os mais recentes números divulgados pelo Banco de Portugal dizem que, em Julho de 2016, o seu montante se elevou a uns estratosféricos 241 mil milhões de euros, tendo aumentado 8oo milhões quando comparado com o mês de Junho anterior.

Esta evolução – que ainda não inclui a dívida a contrair para resolver a capitalização da Caixa Geral de Depósitos – só pode querer dizer que o País está a endividar-se mais para fazer face a mais (e novos…) encargos.

Esta enumeração poderia continuar quase infinitamente, mostrando que o sorriso triunfalista que os bons desta história afivelam no rosto parece ter muito pouco a ver com a realidade concreta do País, e é triste ver que eles têm sempre alguém a quem imputar as culpas pelas contradições que são visíveis entre essa realidade e as previsões que, eufóricos, fizeram há ainda poucos meses.

Os bons e os maus

Também as predições catastróficas a que se entregam os maus desta história ganham, frequentemente, contornos algo surreais. E as caras sérias e compungidas com que se apresentam a quem os ouve, quando prognosticam os terríficos males que nos espreitam no horizonte, eles são exímios em escamotear a sua participação neste processo e em apontar aos bons desta história a responsabilidade pela sua ocorrência, atitude que, vale dizer, pouca credibilidade lhes confere.

No meio de tudo isto é difícil prever com um mínimo de segurança quem vai, afinal, vencer a disputa entre os bons e os maus desta história.

Quem, com certeza, a vai perder são certamente os portugueses.

Vítimas indefesas das divergências que opõem os bons aos maus; vítimas indefesas dos jogos florais em que se confrontam os partidos da Geringonça e aqueles que esta apeou do Governo; vítimas da irresponsabilidade com que uns e outros gerem a coisa pública, como se esta fosse um brinquedo que apenas serve para animar o incrível conto de fadas de que são personagens; e vítimas, por fim, da irresponsável incapacidade que os políticos portugueses revelam para se entenderem nas coisas essenciais – a bem do presente e do futuro de Portugal.

 

Joaquim de Matos Pinheiro

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