“Só descansarei quando puder entregar ao meu sucessor um jardim legalizado e com todas as condições”

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PRIMEIRA MÃO – Está a cumprir o seu sétimo mandato como presidente da Junta de Freguesia da Maia. Nestes últimos anos, o Zoo da Maia tem sido a principal prioridade da sua agenda?

CARLOS TEIXEIRA – Eu estou na junta desde 1976. Dois mandatos como tesoureiro, tendo assumido nos mandatos seguintes a presidência da junta. Vou no sétimo mandato.

Eu tinha anunciado, há uns meses, atrás a minha desistência, porque estou aqui para servir e não para ganhar dinheiro. Todavia há questões que assumimos e que não pudemos abandonar. O Zoo ainda não está legalizado e, naturalmente, que eu não podia abandonar uma luta que eu assumi, que travei e pela qual me responsabilizei.

Só descansarei quando puder entregar ao meu sucessor um jardim legalizado e com todas as condições. É uma obra que, eu entendo, emblemática da freguesia, do concelho e até do país. Provavelmente, por ter sido realizado por uma instituição tão pequena é que deu origem a casos tão grandes. Se tivéssemos uma dimensão maior, talvez já tivesse sido licenciado há muito tempo. Somos uma pequena instituição que para se defender teve de recorrer a ajudas, como a comunicação social, juntas de freguesia, instituições, câmara, partidos, para poder conter o desejo generalizado do seu encerramento, que era uma injustiça. Porque para além da divulgação da nossa terra, com a parte turística para nacionais e estrangeiros – o nosso Zoo é visitado por muitos espanhóis e ingleses, através de hotéis que divulgam o nosso jardim. Por outro lado, o que podia sensibilizar as pessoas que discordam, é a parte social envolvente ao jardim. É que estão dependentes do jardim cerca de 150 pessoas. Ora, seria uma catástrofe, principalmente numa altura destas, o encerramento do jardim, porque ia criar mais problemas ao nosso país, ao nosso Governo. Temos admitido mais pessoal, sempre com a teoria de dar trabalho a quem mais precisa e a aqueles que não têm acesso ao mercado de trabalho – temos sete pessoas com deficiência, ex-toxicodependentes.

Mas, apesar de o Zoo ter sido o seu grande cavalo de batalha, nos últimos anos, o seu trabalho como presidente de junta não se tem limitado apenas a esta questão?

Falei do Zoo, na abertura da nossa entrevista, não para me desculpar, mas para esclarecer porque razão não se realizaram, neste mandato, obras que anteriormente se faziam. Como os parques infantis, o Parque das Fontes, escolas de música, de ballet. Obras emblemáticas que tivemos de parar, porque agora o ‘grito do Ipiranga’ é este: Há que nos situarmos na situação actual do país e, em particular, da minha freguesia. Eu parei com obras que pretendia realizar e que estavam incluídas no Plano de Actividades, em defesa das pessoas desempregadas, das pessoas que passam carências alimentares. Se me perguntar qual foi o melhor dos sete mandatos, eu digo que foi este. Porque dediquei-me a obras como o GAR, o Gabinete de Apoio aos Residentes, onde temos o Banco Alimentar com o qual alimentamos cerca de 150 famílias, mensalmente. Não divulgamos isto, porque acho que devemos dar alguma dignidade às pessoas, não as expondo. Temos uma carrinha particular que leva a essas famílias 150 cabazes alimentares, todos os meses. É um esforço financeiro muito grande. Depois, no mesmo gabinete temos também apoios a pessoas que têm ordens de despejo, porque não conseguem pagar as rendas, as contas da luz e de água. Temos ajudado no pagamento dessas despesas, e também na criação de postos de trabalho, no Zoo e fora do Zoo. É uma obra que me tem realizado profundamente.

Tem havido mais pedidos de ajuda no GAR, com o agravamento da situação económica do país e das famílias?

Muito, diariamente. Eu venho todos os dias para a junta de freguesia às 07h30 para ter um espaço até às 09h00 para preparar a minha agenda diária. A partir das 09h00 já não paro mais. São pessoas com questões diversas: com filhos desempregados, aposentados cuja reforma não chega para se alimentarem. Tem sido para estas obras que temos direccionado as verbas que estavam destinadas a outras obras, que são menos necessárias. Por isso é que muitas vezes eu falo no Zoo, porque não pode ser visto apenas do ponto de vista turístico. Há todo um rendimento que é de lá extraído, para socorrer a essas situações – apoio às escolas, colectividades, munícipes. É a nossa principal fonte de receitas da qual não posso abdicar. O meu oitavo mandato, se a população assim quiser, vai dar continuidade a esta actividade, com o objectivo de atenuar os efeitos que a actual situação económica do país está a provocar nas famílias; e regularizar o parque zoológico – como é do conhecimento geral, conseguimos negociar a cedência dos terrenos para o alargamento do jardim. Neste momento, tem todas as condições para ser um dos melhores do país.

Para além do GAR, a freguesia beneficia ainda do GAIL Maia/Vermoim. Tem sido uma mais valia no apoio às carências sociais das famílias da freguesia da Maia?

Sim. Nós críamos um gabinetes que não são tão grandes quanto gostaríamos que fossem, porque felizmente ou infelizmente, a procura excedeu as expectativas. Posso até adiantar que já tive uma conversa com o presidente da câmara, no sentido de propor uma fusão ou parceria com as freguesias da cidade da Maia (Vermoim, Maia e Gueifães), arranjando instalações, por exemplo no Venepor, para instalar lá os gabinetes e outros serviços de apoio social. Nós temos um gabinete de psicologia que neste momento não tem mãos a medir para responder aos pedidos de apoio. Assim como o gabinete de Reinserção Social, que funciona no GAR, em que aceitamos dezenas de jovens que foram condenados pelo Tribunal a cumprir pena comunitária no jardim, como medida alternativa à prisão, proporcionando-lhes a participação em actividades educativas e em prol da junta de freguesia. Eles têm realizado trabalhos muito interessantes. Temos feito muitos protocolos com o Centro de Emprego da Maia através dos Programas Ocupacionais e acções de formação para desempregados. O director é extremamente sensível a estas questões. Temos neste momento, um programa de formação ligado à jardinagem que está a fazer grande sucesso. São 19 formandos que vão valorizar a sua situação profissional e também justificar o subsídio que lhes é atribuído pelo Estado.

Fernanda Alves