As crianças de hoje têm os mesmos gostos das crianças de ontem?

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Podem ser mais activas, mais faladoras e até mais atrevidas. Podem brincar menos na rua e gostar mais dos jogos de computador. Mas são crianças, tal como os adultos de hoje o foram um dia. Haverá alterações em termos de comportamento e de gostos nas crianças de hoje, comparativamente com as crianças de ontem? “As crianças de hoje são mais materialistas”. É pelo menos esta a opinião da pediatra, Micaela Guardiano, e da educadora de infância, Sónia Raimundo.

Sónia Raimundo, educadora há oito anos, nota que as crianças de hoje “são muito mais materialistas e fazem muitas birras por aquilo que não têm e querem”, e isto acontece porque “os pais preocupam-se muito com o facto de terem de trabalhar, pôr a comida na mesa, dar coisas boas aos filhos e para isso têm de obrigatoriamente trabalhar e não é isso que traz a felicidade”.

Para Micaela Guardiano, os pais “preocupam-se sempre em saber qual é o melhor brinquedo que podem comprar para a estimulação da sua criança”. Mas o melhor brinquedo, afirma a pediatra, “não se compra”. “As crianças preferem sempre ouvir os pais a cantar ou a contar uma boa história, dar cambalhotas no jardim ou uma boa guerra de almofadas”. A médica prefere salientar a importância dos afectos que as crianças procuram nos pais.

A falta de tempo dos progenitores ditou as mudanças que hoje se verificam nos mais pequenos. E a conclusão é que o comportamento das crianças de hoje sofreu grandes alterações quando comparado com as crianças de ontem. A educadora, que lida com os mais novos todos os dias, acredita que as regras não estão bem delineadas. Regras vêm de casa, e quando é enviado um recado para os pais “eles devem repreender o filho, porque para viver em sociedade é preciso ter regras e hoje em dia está um bocado em esquecimento”.

Sónia Raimundo acrescenta ainda que “se as crianças não respeitarem os pais não vão respeitar mais ninguém”. Ainda assim, diz com um sorriso, que “as crianças são o meu mundo… iluminam-me o dia”. A educadora de infância acredita que quando a criança comete um erro a melhor solução não é bater mas sim “falar com ela e explicar-lhe o que está errado”. No seu entender deve incutir-se à criança o que está bem e o que está mal e “dar uma razão viável, porque é que aquilo está mal, porque senão eles não vão compreender nem interiorizar esse conhecimento”, justifica.

Uns interiorizam o certo e o errado, outros não. Vê-se com mais frequência nos dias de hoje filhos com mais permissividade parental, crianças que não sabem respeitar outras crianças. No entanto, Micaela Guardiano não concorda, afirmando que “já tivemos pior em termos de permissividade parental”. “Hoje em dia, os pais concordam com a importância dos limites bem definidos e de estabelecer regras na educação das crianças e adolescentes”, afirma.

Já Sónia Raimundo vê crianças “mal-formadas” todos os dias. Como por exemplo uma criança “ter gosto em partir brinquedos”. “Muitas das vezes não sabem o que é brincar e isso também vem dos pais porque eles têm de ensinar os filhos a brincar, têm de brincar com eles, é preciso ensinar ao filho que depois de brincar é preciso arrumar os brinquedos… ensinar as regras, como aguardar pela vez, saber perder num jogo porque são crianças e é normal que num jogo existam crianças que fazem uma birra por perder, mas se ela for habituada a jogar em grupo, ela sabe perfeitamente que pode perder”, ressalva.

Desenvolvimento Cognitivo

Mais grave do que simples comportamentos irreverentes, quase naturais nos mais novos, são vários quadros clínicos com que se deparam alguns médicos pediatras. Nos dias de hoje, o diagnóstico de crianças portadoras de Perturbação de Défice de Atenção com Hiperactividade tem vindo a aumentar e Micaela Guardiano, médica pediatra, salienta a importância de médicos, educadores e professores estarem mais “atentos ao diagnóstico”. No entanto, acredita que os profissionais estão a “cair no risco do sobre-diagnóstico e é importante pensar nesta entidade clínica para a poder diagnosticar. Mas atenção, que criança mexida não é sinónimo de criança hiperactiva”. É necessário, portanto, avaliar bem o problema da hiperactividade, com recurso a diagnósticos precisos. “Estamos a falar de uma doença cujas bases neurobioquímicas e neuroestruturais são cada vez melhor conhecidas e após o diagnóstico, estas crianças devem ser sempre alvo de terapias multimodais que passam pela terapia comportamental, apoio psicopedagógico individualizado no seu estabelecimento de ensino, com envolvimento dos professores e, muitas vezes, recurso a terapêutica farmacológica, de forma a melhorarmos a qualidade de vida destas crianças e suas famílias”, enumera.

Conviver com estas crianças é “complicado porque às vezes as crianças hiperactivas são postas de lado pelas outras”, refere Sónia Raimundo. E dá um exemplo: “tive um menino na minha sala que era hiperactivo, ele batia nas outras crianças, não conseguia estar atento por dois segundos, era extremamente inseguro (é uma das características de uma criança hiperactiva) e eu notava que as outras crianças punham-no de parte e é muito complicado”. Para os colegas de sala acabava também por ser “esgotante”, uma vez que o acompanhamento não se restringia apenas àquele menino, mas também ao grupo de 22 crianças e “um grupo de 23 crianças, incluindo esse menino, era muito complicado”, porque uma “criança hiperactiva tem imensa dificuldade de integração, é preciso dar um acompanhamento devido porque senão as coisas poderão piorar”, conclui.

Além da hiperactividade, outro assunto que também tem tido cada vez mais mediatismo são as crianças sobredotadas, que chegam a ser quase que “exploradas nas suas capacidades”, reconhece Micaela Guardiano. Contudo, acredita que “não tem que existir nenhuma conotação negativa aliada ao facto de numa criança se verificarem capacidades cognitivas acima (ou muito acima) da média esperada para a idade”. Estas crianças terão de ter algumas adaptações, nomeadamente em termos de ensino. Sublinha ainda que “o importante é que as famílias e educadores destas crianças não se esqueçam que são crianças” e que devem fazer tudo o que uma criança faz como sujar-se ao brincar, socializar, esfolar os joelhos e ter muito tempo para brincar e “se for assim, estas crianças sendo de alguma forma especiais serão crianças felizes e bem integradas na sua escola e na sua comunidade” acrescenta.

Para Sónia Raimundo, conviver com estas crianças era “frustrante, porque quando fazia uma actividade ela já sabia à primeira vez o seguimento da actividade, atingia logo os objectivos”. No entanto, a educadora sentia que era uma “criança frustrada no sentido de querer fazer mais e não podia uma vez que o grupo não acompanhava”.

Os gostos das crianças de hoje também se alteraram. Agora têm uma paixão por computadores, pelos videojogos e por navegar na internet. Sinais dos tempos de uma sociedade cada vez mais dependente das novas tecnologias. As crianças, ao contrário dos mais velhos, não tiveram de se adaptar à era digital. Já nasceram nela. São fruto da mediatização da sociedade e têm uma extrema facilidade em lidar com as novas tecnologias. A acrescentar ao actual cenário de hegemonia das novas redes de comunicação, meios mais antigos continuam ainda a dominar a atenção das crianças. Os mais pequenos são cada vez mais entregues, pelos pais, a uma “babysitter” chamada televisão. Programas como o Ruca e o Noddy, durante meia-hora/quarenta e cinco minutos “não fazem mal nenhum pois são desenhos animados que ensinam regras de convivência” relata a educadora, mas os pais devem controlar o tempo uma vez que tanta exposição à televisão pode “influenciar negativamente a vida da criança, que não vai saber o que é socializar”.

A pediatra concorda com a educadora mas acredita que não é preciso encarar as novas tecnologias como uma “calamidade”. Para isso, é preciso que as crianças convivam, pratiquem desporto, desenvolvam o prazer de dançar ou cantar ou simplesmente brincar livremente e de preferência façam também algumas destas actividades em família. Micaela Guardiano acredita que, independentemente do modelo de cada família, “se houver muito afecto e respeito pelas crianças, haverá com certeza um ambiente adequado ao seu crescimento saudável e harmonioso”.

Em jeito de conclusão, a educadora de infância, acredita que muitos pais têm uma noção errada da tarefa duma educadora, pois “a nossa função é acima de tudo colaborar com os pais a promover o desenvolvimento da criança”. “Estou lá para ajudar os pais na educação dos filhos, dar a conhecer diferentes tipos de materiais, diferentes tipos de regras, também estou lá para aprender porque eles também me ensinam imenso”.

Sónia Raimundo considera que o papel de uma educadora de infância é complementar à educação que é recebida em casa. “Acho que muitas vezes somos vistas como sendo as responsáveis principais na educação dos mais pequenos. Nós é que temos de chamar a atenção à criança, nós é que temos de educar… mas não é isso, somos uma componente que esta lá para ajudar os pais, que são os primordiais na educação, a seguir vem tudo o que envolve, nós, a escola, os amigos, a sociedade… mas o papel essencial é dos pais”.