“A primeira coisa com que me hipotequei foi com o pagamento da dívida do anterior executivo e já cumpri”

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Um ano de adaptação à vida autárquica. Foi assim o ano de 2010 para Vítor Fontes à frente da Junta de Freguesia de Milheirós. Foi também um ano para cumprir um compromisso que assumiu com a população: pagar a dívida o anterior executivo. Agora, para além de apostar nas questões sociais, assume que gostaria de concretizar o alargamento da rua das escolas e construir um centro de saúde para a freguesia.

PRIMEIRA MÃO – Cumpre o primeiro mandato à frente da Junta de Freguesia de Milheirós, não estava habituado à vida autárquica, como é que correu a adaptação e este primeiro ano?
VÍTOR FONTES – Por um lado, foi complicado porque, como lhe disse, não estava habilitado. E fácil porque sou uma pessoa que conhece todos os habitantes de Milheirós e as relações que tinha, continuam.

Isso são as relações com a população. Mas como é que foi a sua “relação” com as questões autárquicas?
Também foi fácil. No meu acto de posse, a primeira coisa com que me hipotequei foi com o pagamento da dívida do anterior executivo e já cumpri essa meta. Ao fim do ano temos a dívida paga. A primeira medida está cumprida com o sacrifício do executivo que prescindiu da sua remuneração e com o sacrifício, se calhar, de algumas actividades que poderíamos ter oferecido à população e que não o fizemos.

Por exemplo?
Mais alguma animação. Se calhar, poderíamos ter muito mais qualidade no passeio da terceira idade, se calhar, ainda mais qualidade na colónia balnear, que segundo as pessoas foi uma colónia fantástica, se calhar das melhores da Maia porque aderiram muitos miúdos de fora da freguesia e de uma colónia que levava 50 miúdos, no máximo, conseguimos reunir 162 e tivemos que fechar as inscrições porque senão as freguesias vizinhas tinham vindo cá inscrever os miúdos todos.

O que é que levou a esse sucesso da colónia balnear?
Foi uma colónia muito bem preparada. De manhã, os meninos tinham praia, de tarde, entretenimento. Foram ao cinema, foram visitar alguns parques, nomeadamente o Jardim Zoológico, o Parque Biológico de Gaia, tiveram insufláveis. E depois, o preço. Cada um pagava 35 euros, por 15 dias de colónia, com direito a almoço, lanche a meio da manhã e lanche à tarde.

E é uma actividade que pretende manter no seu plano de actividades?
Sim, sim. Aliás, no orçamento para 2011 coloquei uma verba para a colónia que a oposição perguntou porque é que era tão alta. Mas nós estávamos já a pensar que, se calhar, no ano que se avizinha, os miúdos não vão poder pagar 35 euros e o papel das juntas e de quem está ao serviço do seu povo é ver as dificuldades e, se calhar, baixar ao preço e aumentar à qualidade.

Mas quando fala em baixar refere-se para as crianças da sua freguesia?
Exactamente. Manter o preço às que vêm de fora e, se calhar, baixar às da freguesia porque cada vez há mais dificuldades. Por exemplo, tive uma mãe, viúva, que me deu os parabéns, no fim da colónia, e me disse que o menino dela, se não fosse a junta a fazer a colónia, não podia ter umas férias como teve.

Há pouco falou na dívida que teve que pagar do executivo anterior, podemos saber o valor?
Eram 21 mil euros de despesas correntes.

Um valor que está saldado?
Está saldado. Não devemos dinheiro nenhum do executivo anterior, nem deste executivo.

Era uma situação que não estava à espera, presumo?
Eu não posso dizer que não estava à espera. Quem vai para uma eleição vai preparado para tudo, para o deve e para o haver. E isto não serve de crítica ao anterior executivo. Aliás, foi uma das coisas que eu disse sempre, tomamos posse, a partir daqui, temos que levar o barco. Não podemos estar sempre a retaliar porque somos de partidos diferentes, eu acho que isso é o menos importante, o mais importante é cumprir-se aquilo que se disse.

Centro de Saúde precisa-se

Disse que o mais importante é cumprir aquilo com que se comprometeu, diz que o primeiro passo está dado, com as dívidas saldadas, o que é que se segue?
Comprometi-me com duas coisas que é o alargamento da rua das Escolas e um centro de saúde. No centro de saúde há um ponto de interrogação porque não dependemos só de nós, dependemos de terceiros, que é aprovarem-nos ou não o centro de saúde em Milheirós.

Em que é pé é que está? Tem feito diligências para tentar desbloquear a situação?
Temos falado com a médica que está em Milheirós para ela diligenciar esforços junto do Poder Central.

Actualmente quais são as condições da população no que toca à saúde?
Temos um posto médico com duas médicas, que cobrem menos de metade da população. O resto da população tem que se deslocar à Unidade de Saúde de Gueifães. A Junta de Freguesia disponibiliza a carrinha para o transporte das pessoas para tentar minimizar a situação.

Apesar de se tratar de um investimento da Administração Central, a Câmara Municipal da Maia tem disponibilizado espaços e até terrenos em várias freguesias para a criação de Unidades de Saúde Familiares, já abordou essa possibilidade com o presidente da autarquia?
Já falei com o presidente e em Milheirós existe um espaço municipal que eu acho óptimo, que é o Parque de Calvilhe, com estacionamento e com as acessibilidades para esse fim. De um lado tem uma cafetaria e do outro lado, que foi sede de um rancho folclórico, está desocupado. Agora, a câmara já resolveu o problema com a senhora que era presidente do rancho e o local está desocupado e era um bom local para o centro de saúde.

E quanto ao alargamento da rua das Escolas de que falou, faz parte do orçamento para 2011?
Depende das negociações. Está num impasse porque foi preciso partir para um processo de expropriação.

Não houve acordo com os proprietários?
Isso já é um caminho tortuoso que vem de trás, do tempo do senhor Alfredo. Nunca chegaram a bom porto as negociações e agora a câmara vai mesmo para expropriação.

Falamos de obras de maior relevo, presumo que já tenha aprovado o plano de actividades e orçamento para 2011, quais são as principais ideias?
A acção social é o ponto forte. Nós abrimos há cerca de três meses um gabinete de psicologia que está a trabalhar em grande. Temos uma psicóloga e estamos a trabalhar com estagiárias. Neste momento, estamos a atender perto de 50 crianças que frequentam as escolas de Milheirós. Estamos já a atender também adultos e idosos e estamos a pensar abrir o gabinete a outras pessoas de fora da freguesia, com um custo. Todas as pessoas que são da freguesia não pagam rigorosamente nada, extra freguesia terá um valor que poderá ir aos 20 euros. Ainda não está 100 por cento definido. Outras das grandes obras deste plano será a abertura de um instituto sénior, onde tentaremos manter ocupadas as pessoas com mais idade. Neste momento, já temos a funcionar na junta de freguesia a ginástica sénior, em que juntamos, duas vezes por semana, da parte da tarde, um grupo de 20 seniores e notamos que eles chegam sempre mais cedo porque têm necessidade de conversar um bocadinho e conviver antes da ginástica. Daí termos decidido abrir este instituto, em que vamos juntar as pessoas para fazer um atelier de cozinha, de bordados, mas ainda está em estudo. Vamos também continuar com o centro de formação e como adquirimos computadores vamos, para além dos cursos certificados, ter cursos nossos destinados a reformados, a pessoas que não saibam trabalhar com computadores.

Mas a formação que têm agora resulta em algum lucro para a junta de freguesia?
Claro. Aqui a ideia é contemplar as pessoas que mais precisam, indo buscar àquelas que podem pagar. É também uma forma de termos algum lucro para fazer face à redução das verbas que recebemos do Estado e da Câmara Municipal.

A palavra crise é a que mais se tem ouvido nos últimos tempos. Têm surgido pedidos de ajuda na junta de freguesia?
Têm.

Que tipo de apoio é que pedem?
Habitação, comida. Nós avaliamos cada situação e ajudamos quem realmente precisa. Dentro daquilo que podemos temos encaminhado os casos para o GAIL. Temos um posto de atendimento a funcionar em Milheirós duas vezes por semana e vai conseguindo dar respostas, dentro do possível. E nestes casos, os Vicentinos têm tido um papel fundamental. Agora, ainda é preciso habitação social em Milheirós. Ainda é uma carência, ainda há casos de famílias que precisam de casa, mas nós não podemos fazer muito porque hoje também não se constrói.

Tomou posse há pouco mais de um ano, alguma vez se arrependeu de ter decidido candidatar-se?
Não. Eu tenho respeito pelos outros e nunca poderia ser ingrato com as pessoas que me elegeram.

Isabel Fernandes Moreira