“A confiança é um bem conquistado, é um bem que no dia-a-dia se merece ou perde-se”

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Carlos da Silva Torres foi o fundador de um dos laboratórios mais inovadores do país. Com mais de 39 anos de experiência em medicina laboratorial, Carlos Torres, licenciado em Medicina Interna e especialista em Patologia Clínica e Hematologia, tem espalhado pelo Grande Porto vários postos de colheita. A Maia, onde tem raízes, é a sua mais recente aposta numa história longa.

PRIMEIRA MÃO – O primeiro laboratório foi criado em 1969 no Porto. Como é que surgiu a ideia de abrir um laboratório de análises?

CARLOS TORRES – A ideia surgiu inesperadamente. Nunca tinha pensado em abrir um laboratório. Foram os meus dois colegas, mais velhos do que eu, que me convidaram para ser sócio de um laboratório, na Rua Sá da Bandeira. Na altura, eu ainda não tinha a especialidade, mas tinha bastante fama no tratamento de tromboses e doenças de sangue em geral. Então, devido a um desaguisado entre nós, porque achavam que eu assumia um prestígio um pouco maior do que o deles ao actuar só na clínica privada, quiseram cessar a sociedade comigo. Então, fiquei sem nada, e na altura já tinha muitos filhos, sete. E disse ‘o que é que vou fazer agora?’. Então, vários colegas começaram a pressionar-me para abrir um laboratório e emprestaram-me dinheiro. E abri um laboratório na Rua Júlio Dinis. Entretanto, tive de encontrar instalações maiores e mudei-me para o prédio ao lado, onde havia, por baixo, o supermercado Invictos.

Em 1985, até por pressão de um banco, passamos para um espaço maior, porque achava que estava muito apertado para tanta gente que lá tinha.

“Eu tenho de ter sempre na minha cabeça que, por detrás de um frasco de sangue ou de urina, tenho um doente. Um propósito muito firme que nunca traí, é que à minha frente está um doente, não está o dinheiro que vou ganhar. Eu dizia muitas vezes, que antes quero falir do que prejudicar um doente. Foi com essa determinação de fazer sempre cada vez melhor, não olhando ao dinheiro, que cheguei até aqui. Mas foi muito difícil”

Na altura que criou o seu primeiro laboratório era relativamente jovem. Tinha acabado de se formar?

Era bastante jovem. Tinha 33 anos. Já estava formado há uns anos, já tinha estado em África. Formei-me em Medicina Interna em 1960, mas por causa de um trabalho de investigação, comecei a despertar um maior interesse pelas coisas que estavam ligadas ao laboratório. Depois, por uma questão de gratidão, um dia convidaram-me para o serviço de sangue do Hospital de São João, o professor Ernesto Morais. E quando dei por ela, estava envolvido só em laboratório. Eu passava lá, não por obrigação mas por dedicação, 12 horas por dia, porque tudo o que havia sobre coagulação era muito incipiente, era tudo preparado por mim. As primeiras hemodiálises, era também eu que tinha de dar a sustentação da base da coagulação sanguínea. Então, é assim que eu me vejo, a dada altura, no meio das análises clínicas, que não era o meu sonho inicial. Depois, passei a interessar-me. E pensei, já que estou nisto, tenho que, dentro do laboratório, trabalhar de modo a que o doente beneficie o máximo com o meu trabalho, porque eu sabia da desconfiança que às vezes havia em relação ao resultado das análises. Eu tenho de ter sempre na minha cabeça que, por detrás de um frasco de sangue ou de urina, tenho um doente. Um propósito muito firme que nunca traí, é que à minha frente está um doente, não está o dinheiro que vou ganhar. Eu dizia muitas vezes, que antes quero falir do que prejudicar um doente. Foi com essa determinação de fazer sempre cada vez melhor, não olhando ao dinheiro, que cheguei até aqui. Mas foi muito difícil.

Em 1985 sentiu a necessidade de se expandir, para instalações com melhores condições. Hoje, tem vários postos de colheitas, espalhados por vários pontos do Grande Porto?

Sim. O laboratório é só um, no Campo Alegre, com cerca de dois mil metros quadrados de área ocupada por serviços técnicos e administrativos. Os outros são centros de colheita periféricos, em que procuro ter as mesmas características de fiabilidade, e o mesmo controle rigoroso que se tem no laboratório central.

Hoje, tem centros de colheita em Leça, Matosinhos, Porto, Gondomar, Paredes, Lourosa, Amarante. A Maia é a mais recente aposta. A questão que se coloca é: quais as razões que o levaram a instalar-se na Maia?

Eu vendi o capital do meu laboratório a uma multinacional e, entretanto, eles tinham comprado outros laboratórios e quiseram que ficassem sob a minha responsabilidade um conjunto de postos de colheita. Um deles foi o da Maia, que eu exigi, porque já andava há muitos anos para construir de raiz um laboratório na Maia. Há vários anos comprei uma área muito grande de terreno na Avenida D. Manuel II, em frente ao Estádio, mas as complicações na câmara têm sido de tal ordem que aquilo que tencionava fazer em edifício próprio acabou por ser feito no edifício onde já estava instalado um laboratório. Naturalmente, que tive de fazer modificações em todos eles, para que se enquadrem no mesmo processamento de rigor que tenho no meu laboratório. O posto de colheita da Maia entrou em funcionamento esta segunda-feira, no centro da Maia, nas traseiras do edifício da câmara municipal.

Que garantias é que este centro de colheita irá oferecer aos utentes que a ele recorrerem para fazer as suas análises?

As garantias que vai oferecer são rigorosamente as mesmas que lhe oferecem se for ao Porto. Não abro nenhum posto de colheita que não obedeça às mesmas condições. O posto daqui, como os outros, vai estar sob o controle directo e permanente, com câmaras de vídeo e controlo informático muito apertado, trabalhamos em online permanente. E sob a presença de uma das pessoas responsáveis do meu laboratório. Sou frontalmente contra a expressão ‘tem a fama deita-te na cama’. A confiança é um bem conquistado, é um bem que no dia-a-dia se merece ou perde-se. Portanto, hei-de morrer assim e não quero aceitar outra hipótese. E como eu me dediquei a isto com uns fins um pouco bastante idealistas, espero não trair o meu nome, mas tenho quase a certeza que nunca trairei. E sobretudo numa terra onde estão as minhas origens. Eu e os meus nove irmãos somos naturais de Vermoim, o meu pai também era natural de Vermoim, e os meus avós de Silva Escura. Eu não quero que a minha terra seja pior servida que os outros. E há ainda o aspecto médico. O meu avô do lado materno era médico, António Vieira de Assunção Cruz e o meu outro avô era lavrador. O meu pai, tendo tantos filhos, viu-se na necessidade de sair daqui e dedicar-se à indústria das conservas, em Matosinhos, mas quando estava para nascer algum filho, a minha mãe vinha para Vermoim.

Foram essas ligações à Maia e também o facto de querer merecer a confiança das pessoas que o levou a aceitar o desafio de tomar conta do posto de colheita da Maia?

Sim, honrar o nome dos meus pais. Do meu pai, fundamentalmente, que tem sido a imagem que me tem guiado. Foi inovador toda a vida. E uma pessoa bastante séria. Também nunca pôs o dinheiro à frente da qualidade, e foi isso que eu aprendi desde pequenino.

Fernanda Alves