“A segurança aqui é precisa, como o pão para a boca”

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Das juntas de freguesia de Moreira e de Vila Nova da Telha para a Câmara Municipal da Maia e dos três órgãos autárquicos para a administração central. Têm sido estes os movimentos a reivindicar a instalação de uma força de segurança – seja GNR ou PSP – num local que possa servir as duas freguesias. É apenas disso que ouve falar a população, confessando-se cansada de promessas. E desejosa de estar em casa ou no estabelecimento comercial um pouco mais segura.

Na semana em que o presidente da Câmara Municipal da Maia foi a Lisboa reunir com o Secretário de Estado da Administração Interna, PRIMEIRA MÃO foi ouvir a população das freguesias de Moreira e Vila Nova da Telha sobre a necessidade, ou não, de um policiamento mais próximo. Na reunião de 27 de Janeiro, Bragança Fernandes foi comunicar a Conde Rodrigues que a câmara está disposta a ceder ao Ministério da Administração Interna um espaço na Rua Dr. Farinhote – onde em tempos funcionou a Cooperativa Popular de Moreira da Maia – com vista à “instalação de uma unidade de polícia (PSP ou GNR) na vila de Moreira da Maia, abarcando não só esta freguesia, como também a freguesia de Vila Nova da Telha e parte substancial da Zona Industrial”, lê-se na nota de imprensa enviada pela autarquia no dia seguinte ao encontro em Lisboa.

No mesmo documento, a Câmara da Maia reitera que esta é uma “necessidade fundamental e urgente”, inclusive reconhecida pelos comandos distritais e concelhios das forças de segurança. O mesmo dizem os fregueses de Moreira e Vila Nova da Telha.

Já vítima de um disparo durante um assalto ao estabelecimento de que é proprietário na Rua da Estação desde 1988, Manuel Maia conclui que Moreira “é uma terra sem lei”. Apesar de ouvir falar sobre um edifício que a Câmara da Maia está disposta a ceder ao Ministério da Administração Interna, admite que isso possa não ter passado ainda à prática pelas diferenças de cor política entre o poder central e o poder local. Assim como não se concretizou outra hipótese de que ouviu falar e que apontava para a instalação de alguns militares da GNR no edifício da estação de Pedras Rubras. “Mesmo isso era bom”, admite Manuel Maia, embora defendendo para a freguesia “um espaço físico com muita gente, porque cada dia que passa a insegurança é maior”. Porque, entende, “é preciso que venha alguém para impor respeito e para cuidar da segurança da população”, seja PSP ou GNR, força a que os fregueses de Moreira já estão mais habituados.

“Medo de tudo”

Ali bem perto, mas já à face da Rua Dr. Farinhote, trabalha Alice Ribeiro. Há mais de duas décadas. Durante este tempo, também já ouviu dizer que as forças de segurança poderiam ficar instaladas na zona da Feira de Pedras Rubras. Mas é apenas algo que “está prometido há muito tempo”, lamenta a comerciante, consciente que com uma passagem mais frequente dos agentes, a pé, “as pessoas ficavam mais seguras”. Mas ainda mais com uma esquadra na freguesia, fosse em que localização fosse.

Este é um tema de que “toda a gente” fala quando vai às compras. O que mais preocupa, e intimida, Alice Ribeiro na sua actividade quotidiana são as pessoas “que não são daqui e que aparecem por acaso”. E dá como exemplo a frequência de passagem de “pessoas de outras etnias”, sendo que “até deles temos medo”.

Entre os cidadãos cansados de ouvir falar apenas de hipóteses está também Maria Aurélia, há quase 37 anos a viver na freguesia. E não com mais medo do que quando veio do Porto, mas mais desconfiada sobre quem se aproxima. A PRIMEIRA MÃO admitiu que a patrulha da GNR “às vezes” passa em Moreira, mas já é insuficiente porque “aqui, agora, mora muita gente”. Daí partilhar da opinião de que uma esquadra na zona “dava mais confiança às pessoas, mais segurança, até porque há muitas escolas e muitos miúdos”.

Este é também um dos argumentos usados por Deolinda Ferreira, que confessa “medo de tudo e de todos” quando circula na freguesia onde vive. A mesma onde tem ouvido falar de vários assaltos, apesar de não ter sido vítima de nenhum. Como se não bastasse, “quando há uma asneira qualquer, a gente chama a polícia e eles já têm fugido”, lamenta para argumentar que “era bem precisa” uma esquadra mais próxima da população. Até porque diz ter sido “muito pior” para Moreira a transferência do posto da GNR da Maia para o Castelo.

“Vivo preocupado”

Ao instalar uma esquadra da PSP ou um posto da GNR em Moreira, a estrutura serviria também a freguesia vizinha de Vila Nova da Telha. É isso que entende também António Marinho, residente na Rua 1 da Urbanização do Lidador há 30 anos, recordando a luta que a população trava “há anos”, nesse sentido. E “a câmara já nos enganou uma vez a dizer que tinha um espaço disponível e foi tudo mentira”, conclui tendo em conta que não se passou das promessas à prática.

Diz ainda António Marinho que “a segurança aqui é precisa, como o pão para a boca”, olhando ao número de assaltos. E a diversos alvos. Só em Vila Nova da Telha, já foram invadidos pelos “amigos do alheio” habitações, estabelecimentos comerciais e de restauração e até o edifício sede da junta de freguesia. “Estamos mesmo mal, mal, mal, mal”, lamenta, acrescentando que é “pouco” o número de militares da GNR disponíveis no posto territorial do Castelo.

Adelino Teixeira Soares sabe bem do que se trata. Desde 1991 num café no centro de Vila Nova da Telha, já foi duas vezes assaltado, de madrugada. Da primeira vez, levaram a máquina do tabaco e na segunda algumas bebidas que tinha no estabelecimento de restauração. Por isso, e além de ouvir as lamentações dos clientes e de outros comerciantes, “vivo preocupado eu mesmo”, confessou a PRIMEIRA MÃO. Até porque, se há momentos em que “é comum” o policiamento na zona, também “há semanas em que a gente tão pouco os vê”.

Sobre a hipótese de ganhar uma esquadra mais próxima da freguesia, duvida de quando será uma realidade. Mas reconhecendo Adelino Teixeira Soares que “era muito importante” de forma a que “a gente se sentisse mais protegida”.

Só nesta zona de Vila Nova da Telha, PRIMEIRA MÃO apurou que, pelo menos, mais dois cafés e um cabeleireiro também já tinham sido alvos de assaltos, mas mais ninguém se mostrou disponível para prestar declarações sobre a (in) segurança na freguesia.

Marta Costa