Aluimentos de estradas como o da Maia e Alfena “podem repetir-se” segundo especialista

0
382
aluimento Av Dom Mendo

Os aluimentos de pavimentos como o que aconteceu na Maia em janeiro ou em Alfena, Valongo, em 2016, “podem repetir-se” se os responsáveis “não despertarem rapidamente para o risco real de segurança existente nas estradas portuguesas”, alerta um especialista.

O coordenador do Colégio de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros – Região Norte, Bento Aires, afirmou à Agência Lusa que “temos estradas espalhadas pelo país com passagens hidráulicas feitas em ‘armco’ [chapas metálicas usadas há cerca de 20/30 anos] e que podem começar a colapsar quando há chuvas, quando há estradas com mais tráfego. É urgente que todas as entidades despertem para o risco real de segurança que esta solução antiga representa”.

No domingo, dia 19 de janeiro, a antiga Estrada Nacional 13 (EN13), concelho da Maia, aluiu sem causar vítimas estando atualmente cortada ao trânsito nos dois sentidos, previsivelmente durante um mês para reparação, conforme indicou a câmara municipal local.
Uma situação semelhante à que ocorreu em fevereiro de 2016 na própria autoestrada 41 (A41), em Alfena, concelho de Valongo, altura em que o piso também sofreu um abatimento que só ficou resolvido em maio seguinte.

Convidado a comentar estas situações, Bento Aires disse à Lusa que “Maia ou Alfena, ou o Norte do país, não são casos únicos”, alertando que os aluimentos “podem repetir-se” porque, explicou, “em Portugal foi frequente há 20/30 anos fazer tubagens de passagens hidráulicas em ‘armco’, uma solução que está a chegar ao fim da sua vida útil”.

“Na prática são chapas que estão a sofrer fenómenos de corrosão, que estão danificadas. O próprio solo, quando a chapa começa a ficar comprometida, começa a ceder, o que leva ao colapso”, disse o especialista.

Bento Aires, engenheiro civil e especialista em reabilitação urbana notou que os aluimentos na Maia e em Alfena “não são normais”, mas “existe risco de que comecem a ser mais frequentes”.
De acordo com o engenheiro, “uma infraestrutura rodoviária tem vários componentes que vão muito para lá do que o comum dos utilizadores utiliza, que é o piso por onde as viaturas passam”, sendo que, para que a estrada tenha segurança, “são necessários taludes, muros de suporte, passagens hidráulicas, passagens inferiores”, entre outros elementos.

E continua a explicação: “Mas estas chapas metálicas [o ‘armco’] não são uma solução estrutural para casos de condutas [de água]. No fundo, funcionam como uma cofragem de forma a que a própria terra, que tem de ser compactada, é que dá a forma e a resistência. Naquela altura, a solução foi dada como boa. Era económica, era eficiente e de fácil aplicação, mas, ao fim de 20/30 anos notamos que se está a transformar-se num risco de segurança”.

De acordo com o especialista, “poderá revelar-se desnecessário intervir em todas as estradas” que foram feitas com esse tipo de material, mas é “absolutamente fundamental inspecionar e controlar”, cabendo “às câmaras municipais, à Infraestruturas de Portugal e às concessionárias efetuar as inspeções regulares”.

“Estas infraestruturas têm de estar cadastradas, identificadas e localizadas e devem ser feitas inspeções. Uma frequência anual [para inspeções] parece-me razoável ou, se não existirem sinais de alarme, poderá ser uma frequência mais alargada, mas tem de existir fiscalização”, frisou, à Lusa, Bento Aires.

Questionado sobre se tem conhecimento de que essas inspeções são frequentes em Portugal, o coordenador do Colégio de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros – Região Norte foi direto: “Se temos casos de risco e problemas, é porque não estão a ser feitas. Ou se estão a ser feitas, não estão a ser tomadas as medidas reativas para evitar que os aluimentos aconteçam”, sublinhou.

Bento Aires explicou, ainda, que, caso se identifique – por meio de inspeção visual e/ou robotizada – que uma conduta está a começar a ficar obstruída, existe “a solução mais radical que envolve o corte da via para manutenção, bem como soluções tecnológicas que permitem uma reparação sem abertura de vala”.

Recorde-se que no comunicado emitido pela câmara da Maia, o executivo garantiu que ia optar por uma solução “resistente e duradoura”, prevendo que esta passasse por canalizar a linha de água por uma conduta de betão armado reforçado com cerca de dois metros de diâmetro.
No mesmo dia, a autarquia fechou a antiga EN13 ao trânsito, desviando-o no sentido norte/sul pela rua da Ponte de Moreira até à Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) da Ponte de Moreira, enquanto no sentido sul/norte os condutores têm a A41 como alternativa.