Alunos maiatos expõem desafios da aprendizagem durante pandemia

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Fonte: Canva
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Numa altura em que o país se viu obrigado a fechar, os alunos também foram bastante afetados pela pandemia. Entre as distrações proporcionadas pelo ensino em casa e as faltas de motivação criadas pela insuficiência de contacto presencial, os estudantes viram-se confrontados com uma situação de desconforto e insegurança académica.

Para compreender melhor as preocupações dos alunos, o Primeira Mão falou com alguns universitários, finalistas do curso de Ciências da Comunicação no Instituto Universitário da Maia (ISMAI), que mencionaram os seus principais desafios ao longo do último ano.

A procura exaustiva por um estágio 

Inês Mota tem 24 anos e no último ano da sua licenciatura descobriu uma grande paixão pela rádio. Aquando da procura de uma estágio curricular para completar o curso, o processo para a estudante foi “muito complicado, porque eu não queria fazer qualquer coisa, ou seja, eu queria mesmo muito estagiar em rádio e não queria limitar-me àquilo que o ISMAI me dava”. Apesar das complicações, Inês confessa que “a ajuda da minha professora de Jornalismo de Rádio” foi um empurrão para conseguir um estágio onde desejava. “Ela disse-me para eu enviar currículo para uma rádio e foi assim que me chamaram”.

Ainda assim, Inês explica que o tempo de resposta “demorou um bocado”, porque de certa forma, apesar de “ter limitado a minha procura” à rádio, “querer um estágio no meio de uma pandemia também foi limitante”. A estudante acrescenta que “muitos dos meus colegas nem sequer têm estágio” e outros, “nem sequer o estão a fazer de forma presencial”, coisa que a aluna acredita ser “fundamental quando estamos a terminar um curso e queremos exercer numa área”.

É o caso de Sara Quintela, que após diversas tentativas se viu obrigada a escolher outro caminho para terminar a licenciatura. “Eu enviei muitos currículos, mas devido à pandemia” as respostas eram sempre “muito inconclusivas”. No fim, a finalista acabou por escolher realizar um projeto curricular em alternativa ao estágio.

Para Sara, que tem apenas 20 anos, o facto de não ter conseguido um estágio este ano não foi fator de desmotivação. “Se eu fizer o projeto académico posso fazer mais tarde um estágio profissional e fico com os dois no currículo”. “Acho que acaba por ser uma mais-valia”, acrescenta.

Como Sara, também Carlos Gomes, de 22 anos, não conseguiu arranjar um local para estagiar. Apesar de ter determinado deixar essa opção de lado até ao próximo ano letivo, Carlos explica que enviou alguns currículos e que a única resposta que recebeu veio com bastante atraso. À semelhança de Sara e Carlos, muitos outros também ficaram sem respostas. Mas ficar sem estágio, foi apenas um dos obstáculos que estes finalistas tiveram de ultrapassar ao longo do último ano.

Desafios da aprendizagem virtual

Sara Oliveira tem 20 anos e o seu sonho é integrar o mundo da televisão. A aluna refere que nos meses de confinamento sentiu falta do “contacto presencial” com os docentes. “Quando estávamos em ensino presencial tudo parecia mais fácil, o contacto com os professores e com os colegas era outro. O nível de aprendizagem também era diferente, porque na minha opinião, com o sistema EAD (online), muitas das aprendizagens ficam para trás e há matérias que não ficam tão bem consolidadas”.

Sara refere que uma das grandes frustrações que sentiu em relação ao ensino online foi o facto de não poder partilhar “dúvidas e comentários” com os colegas do lado. “Estava sentada na minha sala e à volta só tinha paredes”, lembra. “Enquanto estudante, depositei muita expectativa na criação de relações interpessoais e nas memórias que iria guardar” da experiência académica “e com a chegada da pandemia acabou por ficar tudo em suspenso”.

Ana Jorge tem 21 anos e para ela, a pandemia também veio “condicionar as relações” entre professores e alunos. A jovem afirma sentir falta de “estar fisicamente com o docente para tirar dúvidas” e que uma das suas maiores preocupações “era não conseguir terminar a licenciatura nos prazos habituais”. Segundo ela, o “atrasar das aulas eventualmente iria atrasar a concretização da licenciatura e o término da mesma”. Porém, isso não aconteceu devido à rápida e eficiente adaptação da universidade às necessidades dos alunos.

A finalista de jornalismo também comentou a adaptação dos docentes às novas tecnologias. “Acho que os professores têm dado o seu melhor, à sua maneira”. Ainda que muitos nunca tivessem tido contacto com os “programas de conferências” como o “Microsoft Teams ou o Zoom”, no geral “tentaram sempre minimizar os estragos causados pela pandemia para que tudo funcionasse bem para os dois lados”.

Mas se Ana tem uma opinião positiva em relação a este assunto, alguns alunos não estão em total concordância. É o caso de Mónica Valente, de 20 anos, que não sente que tenha havido “um bom acompanhamento” por parte dos professores, ainda que não fosse “por culpa deles”. “Muitos nem sabiam mexer no computador, não percebiam de tecnologias e tiveram de se adaptar”, explica.

Aulas em casa proporcionam mais distrações e menos rendimento

O fraco acompanhamento de alguns professores não foi o maior problema para Mónica, pois a ansiedade e a falta de interesse pelas aulas foram mais preponderantes. “Se já na sala nos desconcentrávamos, agora o nível de desconcentração é ainda maior, porque só pelo facto de estarmos em casa, há aquele desleixo, aquele sair da cama e ir diretamente para a secretária, começamos a ficar um pouco mais despreocupados, o que no meu caso, levou a uma falta de empenho”.

Admitindo que sempre foi “uma pessoa de estudar”, a finalista de comunicação viu-se confrontada com um certo “desinteresse” relativo às aulas, admitindo que “dava por mim com a aula ligada e a fazer outras coisas que não eram para se estar a fazer durante a aula”. A par disso, a jovem também comentou que em regime online, “os alunos pouco participam, porque não se sentem muito integrados na aula”.

“O ensino ficou mais distante”

João Santos tem 21 anos e o seu sentimento em relação ao ensino é que este “ficou mais distante”. Segundo ele “o ensino à distância fez com que a relação entre professor e aluno ficasse cada vez pior”. Para somar aos “estragos causados pela pandemia”, João sente “um distanciamento, não só nas relações, mas também da noção da própria realidade dos trabalhos, porque atualmente, os trabalhos são mais pesados”. “Acho que os professores não têm bem a noção de que apesar de estarmos em casa, temos muita coisa para fazer”.

O estudante, apesar de reconhecer algumas vantagens do ensino à distância como por exemplo, “o facto de podermos tirar um curso em qualquer lado”, também prefere o modelo presencial “porque falta o contacto físico e um espaço adaptado para trabalhar”.

E por falar em espaços adaptados para trabalhar, Laura Correia reforçou que muitas vezes, “em casa faltava a internet” de modo a tornar-se mais difícil “os professores passarem a mensagem”. A aluna de 21 anos aborda que o ISMAI tem um estúdio inteiramente dedicado aos alunos de comunicação e que, com a pandemia, ficaram impossibilitados de o utilizar. Assim, “a parte prática acabou por ficar um bocado de lado e, no nosso caso, essa era a coisa mais essencial”, confessa. Apesar dos esforços de todos os alunos e professores, o aproveitamento das aulas práticas, no geral, foi bastante reduzido, já que “acabamos por não fazer quase nada”.

Para estes alunos maiatos, as dificuldades estiveram bastante presentes ao longo do último ano e as debilidades do ensino à distância mostraram-se um desafio por superar. Contudo, os estudantes não perdem a esperança. A vontade de terminar a licenciatura com sucesso manteve-se como um objetivo, durante tempos de incerteza.

 

 

 

 

 

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