“Ambiciono que o PCP consiga eleger aqui na Maia mais um vereador”

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Ana Virgínia Pereira
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Ana Virgínia Pereira é professora, formada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, mas a política é a sua nova ocupação. Ocupa um dos lugares da bancada do PCP na Assembleia da República e é a única vereadora do partido na Câmara Municipal da Maia. Sensível aos problemas dos portugueses, considera que estaríamos melhor fora da zona Euro, mas não defende um referendo no nosso país nesta altura.

Como analisa estes sete meses de mandato na Assembleia da República?
Esta solução governativa que decorreu das eleições de 4 de outubro tem a intervenção decisiva do PCP. Nesse dia, Jerónimo de Sousa afirmou que Costa só não fazia governo se não quisesse, portanto ofereceu-lhe o lugar. O partido percebeu muito bem que, com a continuidade das políticas do PSD e CDS, iria tudo piorar, haveria mais cortes, mais desemprego. Pelo que urgia encontrar uma política que revertesse aquelas maldades, algumas medidas até criminosas, que tinham sido feitas ao povo português.
Portanto, se fossemos medir com o PS aquilo que nos separava não íamos a lado nenhum. Restava comparar os pontos de convergência. Fez-se ali uma listagem do que poderia reverter de imediato com soluções positivas para o povo. Foi possível afastar a Direita do poder, um dos primeiros objetivos do PCP. Depois, foi possível destruir mitos, como o mito de que andamos aqui a eleger o primeiro-ministro, quando o que elegemos nas Legislativas é uma assembleia da República…
Para além de destruir o mito de que o PCP nunca se aliava a ninguém. As eleições tiveram um grande valor político, por abrir uma nova janela de esperança.

Nestes sete meses houve sinais claros de esperança de mudança para os portugueses?
Claramente, foi-se fazendo caminho e apresentando trabalho: 35 horas na Função Pública; quatro feriados que foram repostos; vencimentos aos funcionários públicos que estão a ser repostos (não era ao nosso ritmo, mas está a ser feito); gratuitidade dos manuais escolares, entre muitas outras medidas. Claro que nós iríamos mais longe, mas foi necessário avançar no âmbito de um compromisso. Ainda assim estamos a avançar num caminho de reversão do que foi feito pelos governos anteriores.

Há condições para a ‘geringonça’ funcionar até ao final da legislatura?
A Direita rancorosa ainda não conseguiu engolir derrota que tiveram e a ‘geringonça’ e está sempre a vaticinar o seu fim. Não me incomoda o termo ‘geringonça’, porque o acordo com o PS vai durar até quando o Partido Socialista quiser… esperamos conseguir que se respeitem os pontos de convergência entre os partidos.

“Devemos preparar a saída do Euro”

Mas a União Europeia ameaça com sanções e há o perigo do não cumprimento do défice?
A UE não deve aplicar sanções a Portugal, nem nesta nem em nenhuma altura. Até porque não aplica as regras de forma igualitária. Veja-se o caso da França…
Eles andam numa pressão, numa situação de chantagem tremenda perante os países.

Compreende, por isso, os motivos para os ingleses terem votado pela saída da UE?
Sim, claro. Apesar de a extrema direita se aproveitar destas decisões, sabemos que aqui houve uma intenção de penalizar aquilo que têm sido as políticas de empobrecimento das pessoas, estas políticas miseráveis implementadas pela UE, uma união do grande capital. Uma Europa que vai dando passos larguíssimos em direção à militarização na Ásia, por exemplo, e que está profundamente implicada no problema dos refugiados…a UE está ligada à raiz deste problema, aos motivos que conduziram as pessoas a abandonarem as suas casas.

Poderá haver um referendo em Portugal também?
Saudamos os britânicos pela opção que tiveram, sem dúvida, mas não podemos estigmatizar este povo, como certas pessoas já estão a fazer.
Nós o que devemos fazer, em primeiro lugar, é preparar a saída do Euro, que foi a razão de muitos dos nossos problemas. É uma questão de tempo, podemos até nem ser nós a decidir. O certo é que se não estivermos preparados, podemos vir a ser empurrados pela UE. Pode ser até que a questão não se coloque. Mas não perdemos nada se estivermos preparados, devemos ter um plano B. Um referendo assim saído do nada não faz sentido.

“Igualdade no ensino”

O corte dos contratos de associação com os colégios privados que impacto terá na Escola Pública?
Se pegarmos na Constituição, vemos que quem tem que dar resposta à Educação das crianças e jovens é o Estado, para que haja igualdade num ensino democrático e inclusivo, que eleve o grau de cultura das pessoas. Naturalmente, que depois do 25 de abril, altura em que não havia muitas escolas, houve necessidade de pagar onde não existia oferta pública. Ao longo dos anos, foi-se construindo escolas e deixando de ser necessárias estas associações a colégios. Não quero ser injusta, porque há situações e situações, mas houve muitos casos de promiscuidade. E as coisas foram avançando desta forma, até assistirmos a casos como em Lamas em que há uma escola pública e um colégio privado mesmo ao lado…

O seu trabalho tem contribuído para a evolução do papel da mulher na política e na sociedade no âmbito da igualdade de género?
Neste momento, na Assembleia da República a mulher está muito presente em todas as bancadas. Não sou muito a favor de quotas, nem de limitação de mandatos em câmaras municipais, quem deve decidir é o povo. O PCP é o partido que mais mulheres tem a nível de percentagem e não precisamos de quotas para nada.

“Também ajudo a Maia na Assembleia da República”

A Ana Virgínia mantém-se no ativo na Câmara da Maia e na AR – são trabalhos difíceis de conciliar?
Aqui no executivo maiato, estou presente sem pelouro atribuído, pois eles são poucos para a maioria Sempre Pela Maia (PSD/CDS), mas na Assembleia da República não posso faltar. Assim, por vezes, na Câmara da Maia, faço-me por vezes representar pelo meu camarada Júlio Gomes, que é muito competente e com uma formação política fortíssima. Por outro lado, no trabalho autárquico, gostaria de fazer muito mais aquele trabalho de ouvir diretamente os eleitores, no que sou ajudada pelos meus camaradas da concelhia.
Também ajudo a Maia lá na AR. Tenho atribuídos os distritos do Porto e de Viseu, mas quando há situações acerca da Maia, faço questão que me sejam atribuídas e tenho tratado de dossiês como a Escola de Pedrouços, o Centro de Saúde de Milheirós, aluimento e falta de iluminação na A41, as cobranças de portagens que queriam introduzir na A3 e na A4, linha do metro até à Trofa. Sobre este assunto, devo lembrar que o PSD e CDS estiveram no governo quatro anos e nada fizeram e, agora, que estão na oposição fartam-se de erguer bandeiras e parece que o problema nasceu agora.

Que balanço faz da gestão da Câmara nestes três anos em que esteve incluída no executivo?
Em conversa com o atual presidente, com o qual tenho uma relação muito cordial, ele disse que nunca teve em 25 anos um vereador do PCP. No início, o preconceito trabalhou um pouco e penso que houve algum receio. Mas sempre me respeitaram e penso que tenho conseguido alertar para alguns pontos de vista diferentes. Por exemplo, alertei para a contratação de trabalhadores com Contratos de Emprego Inserção (CEI). Acho que são contratos de quase escravatura e disse que só votava a favor dos projetos do PEDU se retirassem os CEI, como não retiraram não votei a favor. Outro exemplo, a grande carga de impostos que constitui a grande parte da receita da autarquia, também estive contra. Também alertei e tenho sido contra a contratação de serviços externos em vez de contratar trabalhadores, pois há serviços que são necessários na câmara e não há necessidade de recorrer sempre a empresas privadas.
Pelo menos, neste executivo, têm-se apercebido que há outras posturas.

Que ambições tem em termos políticos?
Ambiciono que o PCP consiga eleger aqui na Maia mais um vereador, pelo menos. Porque há muito trabalho a fazer. E penso que há condições para o fazer, pois temos novos militantes e gente jovem, que poderá dar um novo impulso.

Ana Virgínia Pereira em Primeira Mão

Idade: 55 anos
Escolas onde estudou: ensino primário em Lordelo, Guimarães; 2º ciclo e secundário em Santo Tirso; Faculdade de Letras no Porto.
Passatempos favoritos: viajar. Tenho viajado muito por países da Europa
Destino de eleição: todos os destinos são bons, mas adorei, por exemplo, Berlim e várias cidades de França. Nos destinos mais exóticos, adorei Marrocos, mas não gosto muito de calor…
Livro preferido: Gosto muito dos clássicos, quer de poesia, quer de prosa…autores portugueses e franceses.
Filme preferido: Um filme inglês “Billy Elliot” de Stephen Daldry. É de uma beleza espantosa…
Música preferida: gosto de concertos intimistas e adoro ouvir música popular brasileira, música francesa. O cantautor de eleição é Sérgio Godinho.
Prato favorito: Sardinhas.
Pessoa que mais admira: Jerónimo de Sousa é de uma profunda humanidade e humildade; um homem que sabe imenso pela experiência da vida, porque sabe ouvir as pessoas. É um grande ser humano.
Animal de estimação: tenho duas gatas e gosto muito de animais.

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