António Carneiro: uma vida a ensinar (vídeo)

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“34 anos, mais mês menos mês”. É o tempo de vida que António Carneiro dedicou ao ensino. O professor, que chegou à Maia em finais dos anos 90, despediu-se dos alunos este ano. Está aposentado, mas não desligado da educação. A paixão continua. Garante nunca se ter afastado das escolas e hoje é assessor do presidente da Câmara da Maia, Bragança Fernandes, para assuntos relacionados com a educação. Um cenário diferente do que habituou António Carneiro durante mais de três décadas: dos corredores das escolas passou para os corredores da Torre Lidador. Um percurso de vida para conhecer.

Facto curioso: do gabinete que António Carneiro hoje ocupa, no 19.º piso da Torre Lidador, na Maia, é possível ver, lá do alto, a escola que o recebeu quando chegou à Maia. Ou melhor, a ex-escola. Trata-se da antiga escola primária do Bairro do Sobreiro, hoje transformada em centro comunitário, a funcionar sob a alçada da Santa Casa da Misericórdia da Maia. Mas antes de chegar a terras do Lidador, António Carneiro calcorreou outras terras, outras gentes, outros alunos.

António Carneiro é transmontano, da cidade de Bragança. No interior norte, o leque de oportunidades oferecidas de há cerca de meio século não era muito diversificado. As famílias mais modestas viam-se a braços com a falta de possibilidades para colocar filhos a estudar nas universidades. Seguia-se, desta forma, o magistério primário. Alberto Carneiro é oriundo de uma família modesta. “Os meus pais entenderam que eu ia para o magistério primário e assim foi”, conta o professor. Mesmo apesar das parcas oportunidades, António Carneiro garante que nunca, em altura alguma, condenou a decisão dos pais. “Se me tivessem dado a escolher, poderia ser outra coisa, mas não calhou assim, comecei a dar aulas e gostei. Empenhei-me naquilo que fiz, estive uns anos por Trás-os-Montes, vim para o Porto e a minha vida como professor foi uma vida cheia!”.

António Carneiro terminou o curso em 1975, em pleno tempo do PREC, período de tensão que se viveu em solo nacional. Em ano de Verão Quente, “os professores da altura tinham os mesmos problemas que têm os de agora”, conta António Carneiro. Já depois, no distrito do Porto, “a luta como resultado de querer melhores condições não só para mim como para todos os colegas levou com que eu tivesse direito a um processo disciplinar”. Mas foi uma luta justa, como acrescenta, e que não acarretou consequências graves. “Na altura, os meus colegas souberam-me compensar. Perdi 75 dias e compensaram-me monetariamente. Porque a luta foi minha, por mim e por eles”. E como depois da tempestade vem a bonança, a vida de António Carneiro é disso exemplo. Logo a seguir ao período mais conturbado da história do país, instalou-se a paz. E também “o carinho que sinto pelos meus colegas e que eles sentem por mim”, adianta.

Experiências

O percurso do ex-docente conta uma história de vida. No início da carreira, manteve-se por terras do interior norte, onde começou a dar aulas em Alfândega da Fé. Depois, uma reviravolta: veio para o Douro Litoral pela mão da esposa. Transitou depois para Paredes, Matosinhos e chegou à Maia, mais precisamente ao agrupamento horizontal de Vermoim-Sobreiro em 1997. Assumiu a presidência desse agrupamento no ano seguinte, antes de transitar para o Agrupamento Vertical Gonçalo Mendes da Maia.

Dos 34 anos como docente, António Carneiro confessa ter dificuldade em apontar casos que o tenham marcado. No entanto, houve um que veio imediatamente à memória do professor e que despertou bastante comoção. “Uma criança deficiente, aqui no Sobreiro, apareceu-nos com graves problemas. Não tinha mãe. Tinha um pai muito ausente, e tinha uma irmã que fazia tudo por ela. Nós tratamos essa aluna como nossa filha. Infelizmente depois morreu-nos nas mãos”. Depois do relato, seguiu-se o silêncio. Silêncio pesado, carregado de sentimento. Olhos a tentar reter lágrimas. “São coisas que nos tocam”, confessa António Carneiro. Porque, no fundo, a criança era elemento de uma família que o docente criou ao longo de 34 anos e com quem ainda hoje se cruza, seja na rua, no supermercado, por aí. “Muitos deles vêm ter comigo, já crescidos, e lembram-se, e dão-me beijos. O carinho que me manifestam é recíproco porque sem as crianças era muito difícil ter aguentado a carreira de professor”.

Aguentar a carreira de professor. Esta frase, fora do contexto, poderia, à primeira leitura, fazer o leitor viajar até à indisciplina dos alunos. Mas António Carneiro garante que “os alunos de hoje, desta geração, não terão regras impostas pelos pais e pelos professores, regras que antigamente eram dadas. Mas não tenho dúvidas que são extremamente meigas e carinhosas, e com essas regras seriam bem melhores do que aquilo que éramos no nosso tempo de alunos”.

A reforma

Vieram de todo o país, de escolas por onde António Carneiro já passou. “Os meus colegas resolveram fazer-me uma pequena festa de homenagem. Foi uma festa muito simpática, onde revi muitos amigos que já não via há muito tempo. Vieram de Matosinhos, de Paredes, de Trás-os-Montes… mais de 200 professores”. Garante António Carneiro que se sentiu “muito acarinhado” por todos. De consciência limpa, diz o docente que “se por acaso alguma coisa de mal me aconteceu ou eu fiz, tenho a certeza absoluta que fui perdoado e também tenho a certeza que perdoei”.

Agora, uma nova etapa. Como já foi dito, hoje António Carneiro está na Câmara Municipal da Maia, onde ingressou a convite de Bragança Fernandes. “Como já não lecciono, o presidente da câmara teve a bondade de me convidar para o ajudar nalgumas tarefas ligadas à educação. Sem falsas modéstias, acho que o contributo que posso dar na educação não é de desprezar, e o presidente não o desprezou”. E a promessa está feita: “garanto dar sempre o meu melhor, mas sempre em prol das crianças”.

Crianças que marcaram a vida de António Carneiro. Hoje, já não partilha com elas as salas de aula maiatas. A saudade não vai surgir, pois já existe. “Já tenho saudades. São coisas que parecem muito fáceis ao princípio. A seguir, quando nos começa a faltar aquele envolvimento que as escolas nos conseguem dar, isso é terrível”, queixa-se António Carneiro. Saudades das crianças, saudades dos professores. Professores que, garante o docente aposentado, sempre tratou com justiça e respeito, enquanto director. “Eu não me esqueço que era professor e entreguei a avaliação dos professores aos próprios professores. Eles faziam exactamente aquilo que achavam que deviam fazer. Se eles queriam que fosse o director a propor os objectivos, era o director que entregava os objectivos. Se eles não queriam fazer avaliação, era um problema que estava nas mãos deles. Aceitei-o sempre. Todos os professores que chegaram ao fim do ciclo tiveram a nota ‘bom’. Porque os professores, quer queiramos quer não, são bons”, reitera, com veemência, António Carneiro. “É uma coisa que tem de ser feita, é um acto de justiça”, justifica. Justiça e reconhecimento: “Há uma coisa que eu fazia em cada ciclo da minha vida como director. Quando acabavam os meus mandatos, de quatro em quatro anos, mandava um voto de louvor para o Diário da República a todos os professores e a todos os funcionários.”, confessa António Carneiro. “Em 14 anos que tive como professor e director, fiz isso no mínimo quatro vezes”, remata.

Pedro Póvoas