Carlos Teixeira em entrevista: “Estamos a preparar-nos para debelar um bocadinho esta crise”

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Carlos Teixeira é presidente da Junta de Freguesia da Maia há várias décadas. Tantas que até já perdeu a conta ao número de mandatos que cumpriu. Está no oitavo ou nono mandato, e de acordo com a lei, este será o último. A PRIMEIRA MÃO dá conta das prioridades para os próximos anos.

PRIMEIRA MÃO – Vamos começar por uma questão que provocou alguma polémica nas semanas que se seguiram ao arranque do novo ano lectivo. O Centro Escolar da Estação.
Pais e encarregados de educação têm manifestado a sua indignação pelo facto de ainda não estarem concluídos os arranjos exteriores da escola, e pela dimensão do recreio. Qual é a posição da junta sobre este assunto?
CARLOS TEIXEIRA – Aquele local foi sugerido pela junta de freguesia. A câmara entendeu, e muito bem, aproveitar aquelas instalações para criar uma escola modelar. Neste momento, isso não está acontecer. Penso que o empreiteiro não cumpriu aquilo que tinha assumido, e houve um atraso. Mesmo com obras por acabar, a câmara preferiu abrir a escola. Mas a evolução tem sido muito morosa. Eu entendo, e já falei aos responsáveis da câmara, que se podia atenuar um bocadinho os problemas de trânsito. Aquilo é uma rua sem saída e a escola não tem os acessos convenientes. A entrada e saída de viaturas é absolutamente insuportável, e em dias de chuva é inacreditável. Como autarca e como encarregado de educação, porque vou lá levar o meu neto, apercebo-me dessas anomalias. Já falei com vários técnicos, já insisti e persisti. São questões muito simples. O trânsito melhorava em cerca de 50 por cento.

E como é que o problema poderia ser resolvido?
Aproveitar a antiga via férrea, a futura ciclovia. Com a colocação de escória, a rua passava a ser transitável, como já esteve. As pessoas desciam a Rua da Estação e continuavam até à Rua do Outeiro. Os que vêm do lado de Moreira e do Outeiro, vinham pela futura ciclovia e subiam a Rua da Estação e continuavam. É fácil.

Neste momento, a rua de acesso à escola ainda não está concluída. Com o tempo de chuva, a situação tem-se complicado?
Quanto o tempo está bom, há poeira. Quando chove há lama. Está muito mau. E aproveitava para pedir aos pais para serem tolerantes, porque a escola vai ter muita qualidade. Vai ser uma escola de excelência, quando estiver concluída.

Os pais queixam-se também das dimensões do recreio. É demasiado pequeno e “perigoso”. Várias crianças já se magoaram nos paralelos.
Sim. Também há uma solução pacífica e rápida. O recreio é pequenino. A solução, na minha opinião, passava por aumentar o recreio para a zona ajardinada. Passava para o dobro. A situação que existe, a relva, é muito bonita, mas era se tivesse um espaço que comportasse o número existente de meninos. A relva tem de sair. Eu até sugeria dar lugar a uma quinta pedagógica, para as crianças aprenderem a cultivar, possibilitando até uma melhor ocupação dos meninos. O piso é um bocado complicado. O asfalto é pior ainda. Se fizermos uma sondagem, as opiniões divergem. Penso que a câmara vai implementar uma medida que, certamente, irá melhorar as condições.
Resumindo, neste momento, as questões que podem ser rapidamente colmatadas, são o alargamento do recreio, e a transformação da futura ciclovia num acesso temporário à escola. Quando a Rua da Estação esteve em arranjos essa via foi utilizada, e serviu perfeitamente. É uma solução pacífica, económica e rápida. Se a câmara confiar em mim, eu faço essa obra. Peço que abreviem isso, porque basta de sermos criticados por uma obra que tão carinhosamente foi assumida pela câmara para resolver um problema que não posso deixar de referir. Durante vários anos lutei para que os nossos meninos ficassem colocados na sua freguesia.

Área Social

No ano passado, referia que este mandato seria de consolidação. Entre as suas prioridades estava a conclusão das obras de alargamento do Zoo da Maia e respectivo licenciamento, e a área social. Mantêm-se?
A conjuntura do país alterou. Eu penso que não há nenhum autarca que não tenha de fazer uma inflexão ao seu programa. Acho que nos devemos concentrar na situação difícil em que nos encontramos e procurar cada um, com as suas posses, minimizar a situação dramática que algumas famílias vivem. Uma das prioridades passará pelo apoio mais persistente e com melhor qualidade aos necessitados. Para isso, a câmara colaborou de forma extraordinária, cedendo duas salas nas antigas instalações da Madrimaia, na Rua Padre António, adquiridas pela autarquia. A própria junta de freguesia começa a ser incapaz de responder aos anseios das populações. A freguesia cresceu e o edifício manteve. Não estamos em tempo que permita a câmara construir uma junta nova. Então, sugeri que se fizesse um pequeno arranjo na junta, e que fossem criadas alternativas até que haja condições de construir um novo edifício. Assim, vamos melhorar as instalações existentes e criar uma secção da junta na Rua Padre António para servir as pessoas a Nascente. Vai ter também o Gabinete de Apoio ao Residente (GAR), gabinetes de psicologia e acção social, o GAIL de Vermoim e Maia. E ainda um pequeno armazém para os alimentos. Estamos a preparar-nos para debelar um bocadinho esta crise. O projecto está feito e vamos arrancar já com as obras. Nós e a câmara. Penso que vamos entrar em funcionamento em Janeiro ou Fevereiro. Isto na área social.

Alargamento do Zoo da Maia – “Nós temos aqui um filão de ouro”

Vamos agora falar das obras de alargamento do Jardim Zoológico da Maia. Qual é o ponto de situação?
Será outra obra fundamental. O Zoo, que foi durante tantos anos atacado, vexado, em que eu próprio engoli tantos batráquios que um dia os hei-de repelir, identificando-os. Vai servir como um apoio incondicional à crise que estamos a viver. O Zoo da Maia é a principal fonte de receitas da junta e se calhar até do concelho. Nós temos aqui um filão de ouro. Vai passar de oito para 80. As obras que estão a decorrer são de alta qualidade, onde temos tido o apoio da câmara. Não é um donativo que estão a dar à junta. É um investimento rentável a curto prazo. Vai ajudar a freguesia e o concelho. Vai manter os postos de trabalho existentes, que já são bastantes. Estão dependentes do Zoo, 120 pessoas. O alargamento vai, provavelmente, obrigar à admissão de mais funcionários. E vamos criar uma fonte de receita que vem de fora. A promoção de um jardim com uma maior dimensão e bem referenciado vai atrair muita gente de fora, o turismo vai ser implementado fortemente, e para além disso, vamos ajudar a parte do comércio. Para isso, tenho intenções de colocar o comboio turístico a funcionar permanentemente, com paragens no centro da cidade. As pessoas compram o bilhete no jardim, entram no comboio, dão a volta pela cidade e saem lá para almoçar ou fazer compras, e regressam ao jardim quando entenderem. Principalmente nos meses de Junho, Julho e Agosto temos cá muitos turistas, sobretudo espanhóis e franceses. Seria uma forma eficiente de ajudar a atenuar os efeitos da crise com que nos vamos confrontar.

Todas as obras têm sido apoiadas pela câmara?
Sim. A câmara assumiu a construção da quarentena, que está quase concluída. A junta vai também investindo naquilo que é necessário para o licenciamento. Em Dezembro estará concluído tudo aquilo que assumimos com a Direcção Geral de Veterinária.

O que era preciso fazer, o que já foi feito e o que ainda falta?
Era preciso fazer uns habitats novos para os felinos. Ou então, tirá-los da visão do público. As áreas de recolha já estão construídas – posso garantir que são as melhores do país. Agora, estamos a construir os habitats – os felinos que estão na parte antiga vão para lá. Esse projecto já foi apresentado às autoridades, que aprovaram. Outra coisa que estamos a fazer é um novo reptilário. Vamos apresentá-lo em Dezembro, uma surpresa para a Direcção Geral de Veterinária. Não foi nada que eles exigiram para o licenciamento, mas não gostaram. Quando eles vierem cá fazer a fiscalização, vamos surpreendê-los com um novo reptilário. A parte onde está o reptilário actual vai ficar uma floresta tropical, e na parte de cima onde estava a Arca de Noé está a ser criado o novo reptilário, com muito nível, com muita qualidade.
Quanto às focas, vai ser construída uma piscina nova no exterior, para um espectáculo com mais dignidade, com melhores condições. Não vai estar pronto em Dezembro. Lá para Fevereiro ou Março estará pronta. Vai ser construída nas traseiras do jardim.
A quarentena deverá ficar concluída em finais de Novembro.

E pronto, estará tudo em condições de obter o licenciamento?
Sim. A Direcção Geral de Veterinária deu-nos um voto de confiança, para estar tudo concluído em Dezembro. Numa altura de crise, o jardim zoológico vai ressurgir para ajudar a debelar as dificuldades que se adivinham. Nós já temos o cartão de residente, que permite a visita gratuita ao Zoo a todos os residentes da freguesia. E se a câmara concordar, vamos disponibilizar o jardim, gratuitamente, a todas as escolas do concelho para que possam conhecer um espaço novo, diferente do que conheciam anteriormente. Será uma alternativa às visitas escolares, fazendo com que poupem alguns milhares de euros. E eventualmente, quando for constituída a fundação, em que os parceiros, serão a junta de freguesia, a câmara e possivelmente um privado, poderemos alargar o cartão de residente a todos os maiatos.

Associação Enigma

Há pouco tempo atrás falou-se que o futuro da associação Enigma, que ocupa as instalações da antiga estação, estava em risco. É um projecto para continuar na freguesia?
As instalações da estação foram uma concessão feita pela Refer, através de uma renda que não é barata. Foram feitas obras, onde foram gastos vários milhares de euros, com o objectivo de criar ali um OTL para as crianças da freguesia da Maia. Como a Enigma liderava um bocadinho a situação foi também criada uma sala para os autistas. Portanto, tínhamos uma sala, gratuitas para as crianças da Maia e outra para os autistas, com todas as condições extraordinárias. De repente, fomos confrontados com uma situação completamente absurda: a utilização das instalações com os objectivos totalmente adulterados. Qualquer indivíduo tinha acesso ao OTL, sendo ou não da freguesia. A junta ficou desmotivada e desmarcou-se do projecto.

Portanto, a associação desvirtuou o objectivo inicial do projecto?
Completamente. Tem lá contentores que estão a ser utilizados como salas de aula e cantina, num terreno que não é nosso. Não está bem inserido no ambiente que se pretende aqui na Maia. Apresentamos a questão à câmara, comunicando a entrega das instalações à Refer, porque foi desvirtuado tudo aquilo para que foram negociadas. Desistimos do apoio no pagamento da renda. Então, a câmara decidiu assumir o pagamento da renda a partir de Abril. Consta que a câmara está a preparar umas condições extraordinárias para a Enigma, algures no concelho. Queria dizer que não estou contra a Enigma. Admiro muito os seus fundadores e o seu trabalho, mas penso que eles entenderão a minha posição.

Para finalizar, adivinham-se anos difíceis?
Sim, muito difíceis. Justamente por isso é que tive de rever o meu programa para este mandato, e avançar com medidas para minimizar os efeitos da crise. Com o investimento da câmara e o retorno a curto prazo do jardim, vamos conseguir apoiar todos os indivíduos com carências. Como sabe, temos um protocolo com o Banco Alimentar Contra a Fome e concorremos ao apoio comunitário, que permite arranjar alimentos para que na Maia não haja fome. Apoiamos cerca de 220 famílias, e estamos em condições de aumentar esse apoio em número de famílias e géneros. Para além de criarmos condições para intervir em determinadas situações, como no apoio na aquisição de livros e ou situações pontuais, como cortes de electricidade. Com este investimento no Zoo e na área social, vamos estar preparados para enfrentar os tempos difíceis que se aproximam.

Fernanda Alves