Comunidade cigana foi despejada da Urbanização do Lidador (vídeo)

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Despejados da um terreno que ocupavam há mais de 40 anos, na Rua 4 da Urbanização do Lidador, em Moreira da Maia, um grupo de elementos da comunidade cigana, manifestou-se esta quarta-feira, em frente à Câmara Municipal da Maia. Exigem à autarquia uma solução para o problema da falta de alojamento, da falta de comida e da falta de roupa porque também são maiatos.

Nuno Rossio, porta-voz dos moradores, lamenta ainda o facto de, nesta altura, ninguém falar com a comunidade. “A Câmara não deu a cara, a junta não deu a cara, a protecção civil nem sequer se preocupou em montar umas tendas para as crianças que estão sem comer desde ontem (terça-feira) e que dormiram ao relento, isto é lamentável num país como o nosso, principalmente pelas crianças. Nós somos maiatos criados aqui mesmo, não há palavras”.
A comunidade, entre 50 a 70 pessoas, maioritariamente composta por crianças, foi despejada na terça-feira do terreno que ocupada ilegalmente. O despejo já tinha sido determinado no ano passado pelo Tribunal Judicial da Comarca da Maia mas só esta semana foi efectuado pela GNR.

E durante o despejo “tudo ficou” destruído. Na altura, conta José Mário, morador no local há 40 anos, não lhes deram tempo para salvar nada do que tinham. “Vieram aqui de surpresa, às 07h00, com a GNR, não respeitaram nada, nem as dezenas de crianças, entraram aqui com as máquinas, levaram os homens algemados e começaram a destruir tudo. Isto é uma grande calamidade e é preciso uma solução”, conta o morador. “Onde vamos viver com tantas crianças”, pergunta José Mário. “Isto é uma grande calamidade. O nosso Presidente da República tem que ver isto porque isto não se faz. Isto é racismo. Não estamos no tempo do Salazar”.

Nos destroços, por baixo da madeira das casas improvisadas e do espaço agora vedado com arame, viam-se alguns dos pertences da comunidade, que ficou praticamente “com a roupa do corpo” e com alguns cobertores que conseguiram resgatar do meio da confusão. “Não somos bichos, somos humanos”, desabafava José Mário, que centrou a sua preocupação nas crianças, entre elas uma com cinco dias de vida e outra com paralisia, e nas mulheres. “Não há explicação para isto”.

Entre as mulheres está Carla Moura, cuja gravidez termina na próxima semana e que, com falta de casa, teme ter o filho na rua. “Isto é uma pouca vergonha. O estado não presta mesmo nada”, desabafa.
José Mário adianta ainda que nunca causaram problemas na zona habitacional em que estão inseridos e que sempre houve um bom relacionamento com os vizinhos.

Recorde-se que no passado mês de Março, em entrevista a PRIMEIRA MÃO, o presidente da Junta de Freguesia de Moreira da Maia lamentava mesmo não ver um fim à vista para o problema da comunidade cigana. Albino Maia lamentava também a falta de humanidade do tribunal que decretou o despejo sem tomar providências. “Não tem que tomar”, afirmava. No entanto, recordava que “estamos a falar de humanos que vão ser despejados e não existe nenhuma protecção. Será que não têm direito por serem ciganos? Mas para não ter, nunca o Governo e as nossas instituições os deveriam reconhecer como cidadãos portugueses. Ao dar-lhes assistência médica, rendimento mínimo, estão a dar-lhes as mesmas condições que dão às outras pessoas. Não há protecção em termos de habitação, crie-se algo que os defenda”, defendia, relembrando que as competências e os meios da junta de freguesia também são parcos.

Isabel Fernandes Moreira