Cruz Vermelha vai avançar com Unidade de Cuidados Continuados e comprar nova ambulância

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Um ano de pandemia foi pretexto para abordar com o representante da delegação da Maia da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) o trabalho incessante desta instituição, que está em todo o lado no combate à pandemia. José Ferreira fala, nesta entrevista ao primeira Mão, em união por entre a comunidade e também entre instituições para ultrapassar problemas como esta pandemia.
A CVP da Maia prepara-se nos próximos dias para começar a construção da nova Unidade de Cuidados Continuados no concelho e para comprar uma nova ambulância com o apoio do município. Por enquanto vai apoiando na vacinação, nos transportes e emergências Covid e não Covid e sempre realizando muitos testes colaborando no rastreio da infeção pelo coronavírus.

A CVP foi designada desde início para transporte de utentes Covid19 nesta região. Houve necessidade de adaptações na Delegação?

Sim, iniciámos em março de 2020 com uma viatura dedicada ao transporte de doentes Covid. No dia 3, fizemos o primeiro transporte. Tivemos que alocar uma ambulância e equipas devidamente preparadas, ainda que com algumas dificuldades porque pouco se sabia sobre este vírus. Mas conseguimos resolver o problema com algum êxito, sendo que, num mês e meio, transportámos quase 200 pessoas com Covid. Os nossos operacionais fizeram um trabalho de qualidade sem serem infetados, protegendo-se a eles, a quem transportaram e também as famílias. Houve um grande sentido de responsabilidade na nossa equipa.

Que meios foram necessários?

Tínhamos cerca de 20 pessoas e 2 viaturas, uma exclusiva para Covid e outra para emergências. Por vezes, a de emergência tinha que fazer transportes Covid, cumprindo todos os cuidados de proteção. Não recusámos nenhum serviço, tivemos sempre equipas muito disponíveis, algumas fizeram até 12 horas de trabalho.

Como evoluiu o trabalho?

No ano passado, desde março até meados do ano, aumentou. Daí para cá, tem diminuído a todos os níveis, pois as pessoas têm que ficar isoladas, e até na própria emergência baixou, por as pessoas terem receio de ir para os hospitais. De maio a dezembro, o nosso transporte de emergências e não Covid reduziu cerca de 20%. E este ano, em janeiro e fevereiro, tivemos uma diminuição de cerca de 40%.

Depois através do protocolo da Cruz Vermelha nacional com o Estado, a delegação da Maia passou a integrar as equipas dos centros de testagem…

Sim, aqui na Maia temos estado sempre em movimento. Em parceria com o município, estivemos no Hospital de Campanha instalado em Gueifães, onde tivemos alguns socorristas, dando apoio aos internados. Também começamos a fazer alguns transportes de retorno de pessoas com Covid.
Perto do final do ano, instalou-se o Posto fixo de testagem, em parceria com o município e a Junta de Freguesia de Moreira.

Qual o número de testes realizados?

Em dezembro e janeiro fizemos 10 mil testes. Em fevereiro, com o confinamento e fecho de fronteiras e aeroportos, o número diminuiu gradualmente e fivemos 2.500 testes. Vamos continuar com o posto enquanto for necessário fazendo os testes antigénicos e os moleculares.

E quanto aos testes nas escolas?

Colaborámos inicialmente a fazer a testagem nas escolas, com uma abrangência de mais de 4 mil pessoas. E atualmente há um protocolo com o Ministério da Saúde, através do qual estamos a testar alguns dos funcionários que estão ao serviço nas escolas. Ainda hoje (dia 2 de março), no Posto da Maia e na Escola de Águas Santas, fizemos testes a funcionários e a alguns alunos dos agrupamentos escolares, num total de 2 mil pessoas.
E quando começarem as aulas, os testes aumentarão exponencialmente. Estamos desde já preparados para trabalhar nessa tarefa.
Houve três testagens sistemáticas nas últimas três semanas: dias 16 e 23 de fevereiro e 2 de março. De 7 em 7 dias estamos a fazer testes ao pessoal, que se disponibilizoum nas escolas, para fazer uma avaliação e também despistagem nestas equipas.
Assim que as escolas abrirem, os testes irão aumentar. Espera-se que abram até abril.

Também no Centro de Vacinação da Maia a CVP colabora?

Estamos sempre prontos a colaborar e no Centro de Vacinação da Maia (CVM), como é do conhecimento geral, fizemos também a parceria com o município e com todas as Juntas de Freguesia para transporte dos mais idosos e com problemas de mobilidade. Temos uma viatura e dois socorristas que têm sido suficientes para acudir a estas necessidades.
O nosso trabalho é mais para quem precisa de cadeiras de rodas, pois sabemos que as autarquias têm também transporte para levar as pessoas ao Centro de Vacinação com viaturas próprias.
Além disso, temos uma ambulância de emergências à porta do CVM de prevenção e que está lá várias horas diariamente.

Houve necessidade de investimentos e remodelação de equipamentos?

Tivemos que nos ajustar. A começar pela desinfeção das viaturas, pois cada vez que íamos fazer um transporte suspeito de Covid19, tudo tinha que ser desinfetado. Conseguimos adquirir os equipamentos para esse fim, a par dos EPI’s, os equipamentos de proteção individual, que têm um custo bastante elevado.
Estamos a ter algumas dificuldades neste âmbito, apesar de, algo que já foi divulgado publicamente, tivemos o apoio de uma empresa, a Ferrovial, que contribuiu com 25 mil euros para a aquisição de equipamentos e de material de consumo diário para a desinfeção de viaturas.
Até ao momento temos conseguido ultrapassar as dificuldades com que nos vamos deparando.
Uma outra preocupação que temos este ano e que vai afetar a nossa receita nos próximos tempos é a diminuição bastante grande dos transportes, quer ao nível da emergência como ao nível dos transportes de doentes não urgentes.
Estamos a calcular que iremos ter uma baixa nas receitas entre 5 a 6 mil euros relativamente ao que era habitual todos os meses. São valores consideráveis que irão afetar a nossa organização, mas vamos contar com toda a comunidade para continuar a dar-nos apoio e assim possibilitando continuar a servi-la.

Nesta altura de pandemia, a Cruz Vermelha não tem tido mais apoio do Estado?

A nível de equipamentos tivemos poucos apoios. Tivemos alguns da Segurança Social e do município da Maia.
Posso realçar que no apoio alimentar que damos a famílias que se encontram em situações de emergência devido a desemprego, e dado que temos mais dificuldade em angariar alimentos, o município concedeu-nos no ano passado um donativo de 15 mil euros para adquirirmos os bens e podermos servir cerca de 500 famílias. O número de pessoas que recorreram a nós para esta ajuda teve um aumento de quase 30%, são famílias que recorreram a nós pela primeira vez. Conseguimos sempre ajudar todas as pessoas, nenhuma ficou para trás.
Toda esta situação é mais uma consequência da Covid19, como é lógico, mas tentamos sempre cumprir a nossa missão de ajudar o próximo. Sentimo-nos honrados pela confiança que o município nos tem dado com apoios para cumprir este desígnio.

Já tem indicação de quando será entregue o subsídio de 50 mil euros pela Câmara da Maia, prometido pelo presidente, aquando da inauguração do Centro de Testes da Maia?

Sim, tenho indicações que a aprovação do subsídio será por estes dias. Propusemos ao município adquirir com essa verba mais uma ambulância para a emergência e transformar uma outra das que temos para o transporte de doentes não urgentes, porque é uma grande necessidade, tendo em conta que nas altas hospitalares não poderão ser as ambulâncias de emergência a fazer esse serviço. E temos sentido essa falha, principalmente quando o transporte é para pessoas acamadas.
Este subsídio vem colmatar aqui uma lacuna, que ainda não tínhamos conseguido resolver. Iremos ter três ambulâncias para a emergência, como até aqui, e mais uma para o transportes de doentes não urgentes. Sabemos que há pessoas acamadas que, por vezes, estão 6 ou 7 horas à espera nos hospitais por falta de transporte adequado para os levar de novo a casa.
Iremos gastar cerca de 65 mil euros na compra de uma ambulância e transformação de uma outra. Pelo que o subsídio de 50 mil euros do município será encaixado neste investimento.

Está por dias o arranque das obras da nova Unidade de Cuidados Continuados no concelho da Maia?

Sim, está por dias, estamos a ultimar os últimos pormenores para a obra começar. Temos o espaço e tudo normalizado, existe o financiamento garantido e estamos agora a ultimar os pormenores com os construtores para avançar o mais breve possível com a obra. Já houve atraso com esta pandemia, mas temos que avançar pois faz muita falta, de resto a falta deste tipo de estruturas foi algo que se notou muito nestes últimos tempos.

A pandemia afetou as empresas envolvidas?

Tem havido muitos constrangimentos e que afetam as decisões das empresas, que têm algum receio de assumirem certas responsabilidades e poderem não cumprir, com os constrangimentos que surgem de pessoal e equipamentos, pois alguns têm que ser importados.
Houve um atraso de quase um ano, mas estou convicto de que estamos no caminho certo para a obra começar e não parar até ao seu término.
Vamos todos acreditar que o mais difícil já passou, mas continuando a ter todos os cuidados de proteção de cada um e dos que nos rodeiam.

Foi um dos afetados pela Covid19. Foi difícil para si ultrapassar a doença?

Não, se calhar eu fui um privilegiado. Fiquei inoculado muito cedo, mesmo não havendo vacinas (final de outubro de 2020). Estive quatro dias no Hospital de S. João, fui muito bem tratado, sendo o único sintoma que tive apenas uma pequena tosse. Achei que até nem devia estar a ocupar uma cama, mas os médicos consideraram necessário. Os técnicos dizem que fiquei imunizado e serei dos últimos a tomar a vacina.
Não faço ideia onde apanhei o vírus. Poderá ter sido numa das minhas deslocações fora de casa, para tomar um café ou comprar um jornal.

Quando esteve internado notou, de facto, a grande pressão que existe sobre os profissionais de saúde?

Sim, mas confirmei algo próprio dos portugueses, que quando trabalhamos sob pressão conseguimos fazer bem e muito. Os médicos, enfermeiros, auxiliares e todos os elementos das equipas trataram-nos muito bem, todos por igual e com muito carinho: houve ali uma interligação e cumplicidade, com um grande sentido de responsabilidade, entre as equipas e os doentes.
Penso que é de enaltecer o trabalho notável dos que têm estado na linha da frente, o seu trabalho é muito meritório e deve ser louvado por todos.
Os profissionais de saúde têm feito das tripas coração, são imaginativos. Sei como é difícil trabalhar nestas condições, porque trabalhei em África em condições muito difíceis. Vi médicos, a fazerem milagres em sítios onde, hoje, seria impensável falar.
Portanto, se conseguimos num ambiente hostil fazer bem, nós aqui temos condições muito boas…do que aquelas em que os portugueses têm trabalhado toda a vida e têm feito sempre muito… quando há estes problemas, conseguimos a união, conseguimos a solidariedade. Podemos às vezes pensar que não conseguimos ou não somos capazes, mas em situação dramática, somos capazes de ultrapassar muitos problemas.

Que lições podemos tirar e métodos que, entretanto, experimentamos e inovamos em pandemia poderão ser aproveitados no futuro?

Acho que tiramos daqui a lição de que se formos unidos conseguimos fazer muito. E vemos que a nível de cuidados intensivos, algo que nos afligia muito, duplicamos ou quase triplicamos a nossa capacidade. Podíamos fazer muito mais. Como militar que fui e sou, considero que não utilizamos se calhar toda a capacidade das Forças Armadas para ajudarem neste sentido.
Se houver uma articulação com Misericórdias, Cruz Vermelha, hospitais, estaremos preparados para pandemias, que provavelmente irão afetar-nos mais no futuro. No dia de amanhã, o nosso maior inimigo são precisamente este tipo de vírus.
Se não tirarmos lições disto tudo que nos está a acontecer, então seremos péssimos alunos e não conseguiremos preparar a próxima geração.
Pensamos que somos pobres, mas pobres são os de espírito…mas somos muito ricos quando conseguimos a união e colocar a inteligência a favor da humanidade.
Trabalhar em rede e a disciplina de planeamento e atuação são fundamentais para ultrapassarmos estas e outras catástrofes.

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