Cultivar para consumir pode ser terapia

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Uma ocupação, uma terapia ou apenas uma forma de ter melhor qualidade de vida e melhor alimentação. Para outros, fonte de rendimento adicional. São tudo possibilidades na Horta de Subsistência que existe ali bem perto do Mercado do Castelo da Maia, desde Novembro do ano passado. E de onde já têm saído muitos e variados alimentos que deixam de ter necessidade de comprar.

Desde que começaram a trabalhar os talhões atribuídos pela Lipor – no âmbito de uma parceria com a Câmara Municipal da Maia – há quem se tenha rendido à agricultura biológica e já não se lembre de comprar legumes. É o caso de Fernando Teixeira, que PRIMEIRA MÃO encontrou na horta a tratar o terreno da esposa… Apesar do sol e de algum calor, não fosse final da manhã em pleno mês de Julho. Mas fá-lo pelo “gosto por este tipo de agricultura”, mais do que pela subsistência, confessou este morador de Vermoim. Talvez por isso nunca tenha recorrido à possibilidade de venda dos seus produtos no mercado. Apenas os consome ou oferece.

Aos 60 anos, a agricultura não é novidade. Já tratava do quintal que tinha em Vila Meã, ainda que como hobbie, porque tinha a sua profissão. Agora que está reformado, vem à Horta de Subsistência diariamente, por norma, de manhã sozinho e à tarde já com a esposa. Para regar, tratar a terra e levar alguns produtos para casa. Além dos mais de cem quilos de cebolas que já colheu do seu terreno, ali já nasceram também batatas, ainda que “poucas”, tomates, alface, pepinos, feijão verde, pencas e até flores para embelezar o espaço.

Sem preço

Estes são produtos que se vêem nos talhões vizinhos, mas há outros diferentes. As cenouras, por exemplo, que Beatriz Gonçalves fez questão de comer durante a reportagem, acabada de colher. Ou os tomates cereja, que também assume não conseguir levar para casa porque vão sendo degustados ainda no terreno. A mais nova agricultora do grupo que PRIMEIRA MÃO encontrou na horta tem apenas 36 anos e vive em S. Pedro de Avioso. Conseguiu o seu talhão, “infelizmente”, porque ficou desempregada. E na tentativa de mudar mentalidades, depois de ter ficado escandalizada com uma reportagem em que as crianças diziam que os legumes vinham do supermercado. Como estava grávida, pensou: “Não vou querer isto para o meu bebé, nem pensar!”.

De manhã e ao final do dia, “ou quando o tempo permite tratar, tirar ervas, tirar umas coisas e pôr outras”, regressa ao talhão que lhe atribuíram já depois de ficar no desemprego. Mais do que quantidade, porque também não equaciona vender o fruto do seu trabalho diário, “porque este trabalho não tem preço”, Beatriz Gonçalves aposta na diversidade. Aos alimentos até aqui mencionados, soma a couve-flor e o bróculo, o coração, espinafres, pimentos e feijão. Sem esquecer os girassóis “a enfeitar”. Neste momento, sublinhou, “estou a fazer uma sopa cem por cento daqui da horta, de agricultura biológica”. “E o sabor não tem nada a ver”, acrescentou.

De Moreira da Maia, Manuel Miguel está “satisfeito” com o que tem retirado desta que é uma ocupação, apesar do mais árduo trabalho inicial para preparar a terra de forma a poder cultivar. E assim se torna “independente”, como lhe chamou, referindo-se ao facto de não precisar comprar certos produtos alimentícios. Quando há excedente, “dou aos meus amigos”, revelou a PRIMEIRA MÃO. E até aos vizinhos de horta.

Trabalho gera amizade

Dos talhões adjacentes, Manuel Miguel retira também algumas ideias para o seu trabalho, ao mesmo tempo que todos os agricultores têm por hábito dar sugestões. Foi o que aconteceu, por exemplo, depois de frustrada a tentativa de quase todos na colheita das primeiras batatas, que “saíram muito pequeninas”. Depois de se informar, semeou outras e cedeu algumas ao vizinho Amadeu Pinheiro, daí resultando batatas “lindas”, orgulha-se.
É que não só de trabalho se faz esta Horta de Subsistência. As idas diárias aos seus talhões fazem com que estes pequenos agricultores maiatos tenham cultivado também amizade entre eles. Ao ponto de já estarem a pensar num churrasco mesmo ali no terreno. “E a salada, os acompanhamentos, vai ser tudo aqui da horta”, garantiu de antemão Beatriz Gonçalves.

Alexandre Melo também lá estava na Horta de Subsistência, aquando da visita de PRIMEIRA MÃO. É quem trata de dois talhões, embora sejam da esposa e da filha. Residente em Vila Nova da Telha, encontra neste terreno do Castelo da Maia uma espécie de regresso às origens, já que veio da aldeia. Embora tenha também um pequeno quintal em casa. No talhão vai cultivando os produtos da época, incluindo as favas.
Mas como se não bastassem as alterações climatéricas constantes, Alexandre Melo tem uma hóspede indesejada no seu talhão, mais precisamente por baixo do compostor. Trata-se de uma toupeira “que dá cabo de tudo”, lamenta. Por falar em compostor, e apesar de reaproveitar alguns resíduos orgânicos em casa, foi a propósito da Horta de Subsistência que aprendeu a fazer compostagem, já que é a única forma permitida para fertilizar as culturas.

Se para muitos trabalhar a terra é sinónimo de missão árdua e cansativa, para Amadeu Pinheiro é “uma terapia” para desempregados, como é o caso. Bem melhor, confessa, do que estar em casa “sentados o dia inteiro em frente a um televisor”. Por isso, vai todos os dias à Horta de Subsistência, de manhã e à tarde “e, às vezes, à hora da sesta”. Transmontano, e filho de lavradores, faz questão de regressar todas as férias à terra natal e “sempre na agricultura”. Agora, pode fazê-lo também perto de casa.
Também para Amadeu Pinheiro este projecto “não é um meio de subsistência”, mas apenas um complemento. E que o ajuda a uma vida ainda mais saudável, uma vez que a dieta alimentar enquanto diabético o leva a consumir “muitos, muitos legumes”. Mas ainda vai sobrando para alguns familiares.

Marta Costa