Especial: Gemunde entre a modernidade e a ruralidade

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Gemunde é uma freguesia multifacetada e que tem crescido com a cidade. No entanto, ainda preserva alguma ruralidade. Algumas partes da freguesia ainda são caracterizadas pelos verdes e extensos campos de cultivo, que vivem a par de pequenas casas de traça antiga, habitadas por população mais envelhecida. Já à face da estrada nacional Porto-Braga, o cenário é diferente. Ali proliferam os prédios em altura. A urbanidade está presente e foi a zona de Gemunde que mais cresceu nos últimos anos. Há também a dificuldade de lidar com uma freguesia de contrastes e que é a maior da vila do Castelo da Maia, tanto em área como em número de eleitores, com diferentes tipos de população e realidades. Essa tarefa cabe ao executivo liderado por Eugénio Teixeira, reeleito como presidente da junta em Outubro de 2009.
Gemunde está agora dotada de um moderno centro cívico, inaugurado no ano passado, mas que ainda não se encontra concluído. Como tal, essa é uma das prioridades do actual executivo, que quer o edifício completamente pronto e a servir de forma eficaz a população. Mesmo assim, a infra-estrutura inaugurada em Agosto de 2009 já permitiu ao executivo dotar a junta “de um espaço muito mais digno e onde nos foi possível encetar vários eventos culturais”, diz Eugénio Teixeira. Foi o pontapé de saída “para uma série de situações que foram criadas e desenvolvidas dentro da área cultural e social”.

Agora restam a Eugénio Teixeira três anos de mandato até às próximas autárquicas, tempo em que as dificuldades das juntas de freguesia são acrescidas. “Estamos um pouco condicionados e não podemos fazer muito. No entanto temos planeado o final das obras na envolvente à sede de junta actual e temos também que licenciar todas as estruturas que temos neste momento em funcionamento”. Uma tarefa que se tornou mais difícil depois da falência da empresa que estava a levar a cabo esses trabalhos, a Domingos Carvalho. Mas garante Eugénio Teixeira que “tudo está a ser feito” para que as obras cheguem a bom porto. “Temos vindo a fazer contactos com as várias especialidades em falta e penso que durante o próximo ano fica tudo resolvido. E a partir daí sim, podemos encetar outro tipo de diligências para melhorar a oferta da freguesia. Mas mesmo assim temos vindo a fazer muita coisa”.

Muita coisa. O programa da junta é extenso e não pode ser aqui reproduzido na totalidade. No entanto, Eugénio Teixeira destaca os cursos de RVCC, que dão equivalência ao 12º ano, e também um protocolo assinado com a Câmara Municipal para uma acção de formação que visou diminuir o analfabetismo, dirigido a pessoas que não possuíam a quarta classe de escolaridade. Sem esquecer os já bastante participados campeonatos de karaoke, actividades lúdicas com ranchos folclóricos, provas de cariz desportivo como passeios de BTT. “As actividades são tantas que até temos dificuldade em enunciá-las”, confessa Eugénio Teixeira.

Muita coisa que dá muito trabalho a fazer. O problema é o “eterno” dinheiro. Problemas financeiros que, nesta altura da história da sociedade, afectam mais as juntas de freguesia, já de si “postas de parte” na distribuição de capitais, uma queixa comum a muitos presidentes de junta por este país fora. “O enquadramento legal das juntas de freguesia, tendo em conta o papel que desempenham perante a população e até mesmo perante o governo, está completamente desajustado”, na opinião de Eugénio Teixeira. “Quer em termos financeiros, quer em termos legais, porque a junta de freguesia neste momento faz muito mais do que aquilo que está enquadrado na legislação vigente”, acrescenta. Ainda para mais numa freguesia como Gemunde, que se vê obrigada a substituir, muitas vezes, a autarquia, fruto do envelhecimento da população e da relativa distância ao centro da Maia.

Uma distância que pode não parecer muita, mas que se torna longa para os mais idosos. Nesses casos, entram “em cena” as juntas de freguesia. Gemunde não é excepção. “O papel da junta de freguesia é um bocado esse, é ajudar a população no que for necessário, porque nós existimos para isso. E também para desenvolver a freguesia”, acrescenta Eugénio Teixeira. Papéis que não cabem, muitas vezes, à junta de freguesia, mas que têm de ser levados pelo executivo de proximidade. “Nós somos a primeira instituição a quem as populações recorrem”, recorda o presidente da junta de Gemunde. “As pessoas não vão ter com nenhum deputado nem com nenhum ministro nem tão pouco com o presidente da câmara porque ele não tem tempo para as atender. Por isso nós somos a cara da Câmara Municipal e isso dá-nos uma maior responsabilidade”, diz o autarca.

A junta de freguesia faz o que pode. Mas tem a sorte de estar bem servida em termos de educação. “A nível escolar, temos duas escolas EB1, temos três jardins-de-infância, dois integrados nas EB1 e um que funciona à parte. As escolas em termos de arquitectura são impecáveis graças à preocupação da Câmara Municipal”, diz Eugénio Teixeira. E neste momento, apesar de estar programada a construção de um pólo escolar (Barca-Gemunde), o presidente da junta não sente que haja necessidade para a freguesia de levar a cabo essa obra, uma vez que, no plano educativo, a resposta que é dada de momento cumpre todos os requisitos da freguesia. “Neste momento, a nível de EB1, está tudo cumprido. Em termos de jardins-de-infância, se calhar necessitávamos de mais uma sala ou outra. Neste momento a selecção é feita pelas crianças mais velhas e há algumas que ficam de fora. Se conseguíssemos arranjar um espaço para essas crianças era óptimo”.

Na junta de freguesia de Gemunde também há uma preocupação crescente com a saúde. Periodicamente, são levados a cabo vários rastreios oferecidos à população que, como já foi dito, é de elevado intervalo etário. Gemunde está também integrada na área do centro de saúde do Castelo da Maia, por isso pode-se dizer “que a freguesia está bem servida nesse campo”, diz Eugénio Teixeira. “A resposta que é dada neste momento é satisfatória”, acrescenta. E quando não é, a própria junta trata de encaminhar os utentes à especialidade de saúde que seja necessária, revela também o presidente da junta.

E já que falamos em encaminhar, vamos falar de caminhos. Ou de transportes. Mais um sector onde Gemunde “sofre” com os contrastes da ruralidade “versus” urbanidade. Como seria de esperar, os transportes na zona mais rural da freguesia são escassos. O mesmo não acontece com a zona que é ladeada pela estrada nacional e pelo metro. “Na parte urbana, com a chegada do metro e todas aquelas empresas de transportes que operam na Nacional 14, o nosso núcleo da vila ficou bem servido de transportes”. Como já foi dito, o panorama na ruralidade não é igual. “Tive uma luta de legalização há mais de um ano para que a Maiatransportes pudesse operar na zona da Rua da Igreja e na Rua do Outeiro. Conseguiu-se e neste momento temos a empresa a operar lá. Não nas condições que esperaríamos mas não podemos pedir mais, tendo em conta o número de utentes que viajam nos autocarros. Neste momento pode dizer-se que está um pouco ajustado, mas era bom termos mais transportes com uma frequência melhor”.

Para terminar, voltamos ao centro cívico, para o qual está previsto um Centro de Dia que parece não querer ver a luz do dia, mas não por vontade da junta de freguesia. Já devia estar pronto, mas falta a legalização exigida pela Segurança Social. “O Centro de Dia tem sido um problema. O edifício quando foi feito contemplava um Centro de Dia”. O problema é que o projecto foi feito há dez anos. Nessa altura, as regras impostas pela Segurança Social eram diferentes das de hoje. “Fizemos uma primeira vistoria, foi chumbada por falta de chuveiros para utentes e funcionários, assim como questões relacionadas com outros espaços”. São estas as contrariedades encontradas pela Segurança Social, que estão a ser contornadas pelo executivo com mais obras de adaptação. Na passada semana, o Centro Cívico recebeu nova visita da Segurança Social, da qual Eugénio Teixeira desconhece o resultado, à data deste especial sobre Gemunde.
Uma freguesia que vive bem, com contrastes, população algo envelhecida, mas que continua a crescer, apesar de todas as dificuldades enunciadas.

Pedro Póvoas