Facebook reúne diferentes vivências da Páscoa

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O que é a Páscoa? Que significado lhe atribuímos? O que não dissociamos deste período? O que fazer nesta quadra festiva? Aproveitando as mais-valias das redes sociais, PRIMEIRA MÃO foi procurar algumas respostas a uma lista de amigos do Facebook. Uma lista onde estão representadas diferentes faixas etárias, com diferentes crenças e vivências. As opiniões divergem, mas não estão directamente relacionadas com as gerações.

Em Portugal celebra-se a Páscoa Cristã, cuja data foi fixada pela Igreja Católica no ano 325 e acontece sempre no primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia da Primavera, isto é, depois de 21 de Março. Enquanto celebração cristã, representa a Ressurreição de Cristo. Mas não para todos. Das cerca de 30 respostas às perguntas colocadas, apenas seis admitem algum significado religioso. Mas bem menos os que só atribuem valor a esta vertente, destacando a Páscoa como “renascimento, reflexão sobre o caminho a percorrer” ou “a festa da Libertação do Povo de Deus”. Em suma, “a festa do fundamento do Cristão: ‘Cristo Ressuscitou, Aleluia’”.

Para quem destaca a ressurreição, a Páscoa é também um misto de sentimentos. Por um lado, “tempo de alguma tristeza”, ao fazer recordar os familiares já desaparecidos. Por outro, a “esperança, porque entendo a ressurreição como uma espécie de prova de que existe vida para lá da morte”.

Dos restantes que chegam a mencionar a palavra “religião”, há quem admita que já não significa “quase nada”, tendo em conta que “a tradição religiosa se perdeu”. E os que vão mais longe, já descrentes na igreja, por considerar que “até a igreja anda com uma crise de valores”, lamentando que o que “interessa é dinheiro arrecadado”.

Para muitos, a Páscoa não passa de memórias da infância ou até já da idade adulta, mas antes de deixar a casa dos pais. Sobretudo porque “o compasso passava muito cedo e já tínhamos que ter os quartos arrumadinhos e estar vestidas a rigor, pois íamos receber a visita do Senhor”, recorda uma maiata na casa dos 30 anos. Como família católica, e pelos filhos, continua a abrir a porta ao compasso, mas lamenta que “hoje, não há vizinhos, não há erva doce”, aquela que se colocava no chão para receber a cruz. Da infância, outra internauta, já de outra geração, recorda também os tempos em que, com os pais, a cruz ia a casa e esta era benzida.

Religião ou festa?

Também nas palavras associadas à Páscoa se denotam as influências religiosas ou, pelo contrário, o pouco significado que esta origem tem actualmente na comemoração da data. Quaresma, paixão, morte, ressurreição, aleluia, liberdade, libertação e cruz são alguns conceitos mencionados por quem, sendo cristão, considera que a Páscoa “não faz sentido sem vivenciar as cerimónias pascais que começam na quinta-feira e acabam no domingo”.

Há quem acrescente Jesus, a reflexão, o sacrifício e o cheiro a feno à porta de casa onde se esperava a cruz assim que a campainha se aproximava. Bem mais adiantada na idade, outra utilizadora do Facebook recorda as “passadeiras de flores que a avó materna colocava à entrada da casa para receber o compasso / visita pascal”. Sem esquecer a Procissão dos Passos, outro dos momentos deste período.

E se o “jejum” é um dos aspectos referidos quando se atravessa a Quaresma, parece missão impossível falar de Páscoa sem referir aspectos gastronómicos. Por quase todos os que foram questionados. Não faltam as referências aos doces – amêndoas, pão-de-ló, ovos, coelhos, chocolate ou folar, fios de ovos, arroz doce – ao queijo da serra, ao cabrito, ao arroz de forno com miúdos, ao leitão à Bairrada e até ao vinho do Porto. Especificamente sobre dois dos símbolos desta quadra – ovos e coelho da Páscoa – uma das respostas classifica o marketing como “uma força poderosa à qual ninguém escapa”.

Indissociáveis da Páscoa aparecem ainda as referências à Primavera, à chegada do bom tempo e à “altura em que a natureza renasce”, à “oportunidade de estar com a família com um pouco mais de tempo”, à “grande almoçarada”, às madrinhas e afilhados, ao ramo, ao alecrim e a “mais dias de descanso”. Uns em casa, outros fora. E até referências a cores, como o roxo e o amarelo ou às “cabeças gigantes de pedra”.

Se pudesse…

Neste grupo de inquiridos, há várias pessoas para quem a Páscoa “não significa absolutamente nada” além da hipótese de um fim-de-semana prolongado. Quando questionados sobre a possibilidade de férias neste período e como gostariam de as gozar, são muitos os que não podem deixar de trabalhar, mas assumem que, se pudessem, optavam por viajar. Em especial, para locais “com muito sol e água quente”, para ficar “deitado ao sol” e “poder dar uns mergulhos e nadar”. Desde que fosse possível estar “de férias e com dinheiro”.

Juntam-se os que já fazem deslocações, sem sair do país, para visitar a família, “caminhar pelos montes e conviver com os amigos”. Em locais como Bragança, Penafiel, Paredes ou nas freguesias de Vitorino das Donas e Fontão, em Ponte de Lima. Entre os que colocam a ênfase na religião, há quem destaque a “introspecção”, a possibilidade de “reflectir sobre a vida e a morte e a expiação” e quem gostasse de ter férias para fazer uma reflexão sobre si próprio, recorrendo até a “um retiro espiritual”.

Mas porque não basta querer, também nestas respostas é reflectido o actual estado económico-financeiro do país e algum desânimo / pessimismo dos portugueses. Desde os que desejam “ir de férias para bem longe daqui”, “longe dos portugueses”, aos que procuram destinos de praia para ficar “a vegetar”. Ou simplesmente “para descansar de todas as preocupações do dia-a-dia sem gastar demais, claro”. Sempre com a família, sendo muitos os que referem os filhos neste contexto. Os filhos são, aliás, em diversas respostas mencionados como os “culpados” pelo recente interesse por algumas das tradições ou rituais associados à Páscoa. Seja pela necessidade de articular férias com as da escola ou pela “caça aos ovos”.

Raros são os que assumem a possibilidade de fazer aquilo de que gostam. Por exemplo, nestas férias da Páscoa 2011, “a caminhar nas montanhas” dos Picos da Europa. Regra geral, o “se pudesse” aparece nas respostas, sobretudo dos que têm férias, mas não dinheiro para as desfrutar. Alheia a essas preocupações deve estar a Aldeia Temporária da Paz, em Quebrada do Meio, um local onde uma das inquiridas gostaria de passar umas férias de Páscoa.

E só para não ficar em casa a ser bombardeado com “os mesmos filmes religiosos de sempre” na televisão, até há quem admita que “ia ao Egipto ver a revolução que por lá andam a fazer…”.

Marta Costa