Fotografias que contam histórias escondidas

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Mário Cruz conquistou o prémio em Temas Contemporâneos
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O Fórum da Maia recebeu a exposição de fotojornalismo World Press Photo (WPP), que reuniu dezenas de fotografias premiadas. Na sua maioria as imagens captam momentos dramáticos de refugiados. É o exemplo da fotografia vencedora do concurso da autoria de Warren Richardson.

O português Mário Cruz conquistou o prémio em Temas Contemporâneos. O jovem fotógrafo lisboeta tem 29 anos e trabalha na agência Lusa. Foi premiado com um ensaio fotográfico sobre a escravatura de crianças no Senegal e junta-se assim ao conjunto de profissionais portugueses já premiados pelo World Press Photo: Eduardo Gageiro, Carlos Guarita, Miguel Barreira e Daniel Rodrigues.

O conjunto de fotos de Mário Cruz está inserido no lote de 82 mil imagens recebidas pela 59ª edição de WPP, inscritas por perto de 6 mil fotógrafos de 128 países.

Oito meses de investigação no Senegal

Mário Cruz explicou ao Primeira Mão que, tendo tido contacto com a realidade senegalesa de tráfico e escravidão de crianças talibés (ou estudantes), onde estão perto de 50 mil menores, sob o jugo de “falsos professores de escolas corânicas”, sentiu que tinha que “ir até lá” realizar este projeto. Assim, precisou de seis meses de investigação no terreno e ainda de uma nova viagem de dois meses, “em que tive que me ausentar da Lusa para realizar este projeto a nível individual, no sentido de reunir contactos e estabelecer uma rede que me possibilitasse entrar nessas falsas escolas e retratar a vida dessas crianças”.

Mário Cruz presenciou e registou com a sua câmara momentos de sofrimento e horror vividos pelas crianças no Senegal. “Essas cerca de 50 mil crianças deveriam ser estudantes nessas escolas corânicas, mas de há cerca de dez anos para cá, um conjunto de falsos professores têm usado as escolas para escravizar os menores em proveito próprio. Assim, as crianças não estudam e são forçadas a mendigar nas ruas oito horas diárias e têm de voltar com 3 a 4 dólares, todos os dias. É uma quantia quase impossível para todas elas, o que significa punições – são agredidas, violadas e chicoteadas pelos seus falsos professores”, relatou Mário Cruz.

Tráfico de crianças da Guiné-Bissau

Tem havido uma falta de controlo nas escolas e torna-se impossível atualmente dizer com toda a certeza o número de estabelecimentos de “ensino” existentes, que foram criados, no passado, com a intenção de solidariamente acolherem os filhos de famílias pobres para lhes darem educação e estadia. Mas a ganância e crueldade chegou a tal ponto, que as famílias senegalesas já não são provedoras em quantidade suficiente de crianças para este “professores” que desenvolvem uma rede de tráfico de crianças noutros países, como é o caso da Guiné-Bissau, que tem vindo a reforçar as patrulhas na fronteira, como o próprio Mário Cruz fotografou.

Através do apoio que organizações não governamentais (ONG) prestam junto das crianças dessas falsas escolas, onde os traficantes consentem que entrem para fornecer roupas e alimentos aos escravizados, foi possível a Mário Cruz entrar como membro integrante de uma dessas equipas solidárias.

Livro com as fotografias da prova

Uma vez dentro, o jovem fotógrafo português foi registando com todo o cuidado e “desprendimento necessário” os cenários de horror e cenas de sofrimento vividos pelas crianças e que agora todo o mundo pode testemunhar.

Graças à notoriedade conseguida com o Prémio WPP também publicou um livro com as cerca de 70 fotografias deste projeto no Senegal.

Mário Cruz conseguiu finalmente as provas dos abusos sobre as crianças, o elemento que faltava para denunciar ao mundo este drama. Chamar a atenção para este drama humano foi o prémio mais importante que conseguiu. Com uma aliciante, as fotografias foram solicitadas pelo governo senegalês, que resolveu olhar “as fotografias que contam histórias escondidas” e praticamente à vista de todos para iniciar uma fiscalização sobre as escolas corânicas no país.

Temas Contemporâneos Mário Cruz

Crianças já estão a ser resgatadas, o maior prémio

“As coisas começaram a mudar, felizmente. Muitas crianças foram resgatadas e, graças a este prémio, o trabalho ficou facilitado para a atuação do governo senegalês, que está a ajudar as crianças e a obrigar as escolas que sejam ilegais a fechar e a acabar com esta prática da mendicidade”, salientou Mário Cruz, que considerou que o fotojornalismo “tem um papel preponderante na intervenção na sociedade” e nunca poderá “deixar de ter o seu papel muito próprio, muito único a servir de testemunho e de prova e para ajudar as pessoas a compreenderem melhor o mundo que as rodeia”.

Risco físico e emocional

A situação para o fotógrafo foi muito difícil. Correu um risco físico muito grande, já não falando ao nível emocional, onde as coisas também não estiveram facilitadas. Mário confessa que, quando decidiu realizar este projeto, nunca pensou “testemunhar tantos abusos, o que emocionalmente foi difícil de gerir”. Para não perder o controlo na altura em que visitou as escolas, Mário Cruz tomou a decisão consciente de que o comportamento tinha que ser distante e apenas “registar, documentar, sem pensar muito no que estava a ver”. Só assim seria possível não “haver alterações no comportamento”, que o denunciassem e aí correr em risco a vida e o trabalho.

Câmara da Maia assegura WPP para os próximos três anos

O vereador das Relações Internacionais, Paulo Ramalho, congratula-se pelo valor cultural que a exposição WPP acrescenta ao município e adiantou que, por este motivo, e por ser um evento muito apetecível para qualquer município, o executivo da Maia assegurou o contrato com a organização por três anos. Ao longo dos últimos 16 anos consecutivos, o município assinava o contrato de aluguer da exposição com a organização apenas por um ano.

“É um evento cultural importante, mas também fundamental porque apela muito à reflexão sobre um conjunto de realidades que aconteceram no ano anterior e que vemos na televisão, que sucedem pelo mundo fora, mas nem sempre captamos com atenção. Depois aqui temos imagens que valem mais do que mil palavras”, afirmou o vereador.

Há um público fiel oriundo de toda a região Norte, mas também da Galiza, estimando-se que cerca de 5 mil pessoas visitam todos os anos a mostra no Fórum da Maia. Além desse público há visitas que são agendadas por escolas para dar oportunidade aos mais novos de verem a exposição. “Há um dia estabelecido por semana reservado apenas a visitas das escolas do município e de fora”, sublinhou Paulo Ramalho.

Todos os anos é associada a esta mostra de WPP, uma conferência internacional “em que falamos de realidade da atualidade internacional, como este ano, em que iremos abordar a questão dos refugiados e da nova arquitetura do mundo”, anunciou. A conferência está prevista para 6 de dezembro.

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