Grupo dá a mão para a cura do alcoolismo

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Grupo de Alcoólicos Tratados da Maia
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O álcool é uma droga tão perigosa como outras proibidas, mas como é tolerada socialmente, causa um elevado número de dependentes. Aqui reside o grande perigo para os jovens, cada vez entre o maior número de consumidores. Esta é uma das grandes preocupações do GAT da Maia.

O Grupo de Alcoólicos Tratados da Maia celebrou recentemente o seu 31º aniversário. Desde 1985 que um grupo de alcoólicos recuperados, reunido por iniciativa de um enfermeiro, dá a mão a quem precisa de vencer o vício. E são cada vez mais, como explicaram ao Primeira Mão, o presidente do GAT Maia, José Arsénio, e a porta-voz da associação, Clotilde Carvalho. O primeiro, alcoólico recuperado há 26 anos, a segunda, uma familiar e apoiante de um outro tratado.

Estes são dois exemplos de pessoas que não desistem de ajudar, de estar ao lado de quem tem problemas com a bebida, muita gente que encontra no GAT um ponto de abrigo de quem conhece bem de perto os problemas e as dores de cabeça por que estão a passar.

De acordo com José Arsénio, que começou a beber aos 10 anos, é importante para dar esperança e  a força de vontade para deixar de tocar no álcool, encontrar no GAT, como aconteceu consigo, testemunhos de quem já passou por “experiências dificílimas, algumas terríveis”, e conseguiu recuperar-se para uma vida de sucesso e de harmonia com a família.

Esperança de recuperação vem da experiência dos tratados

No seu caso, recordou José Arsénio, convenceram-no a ir a uma reunião, “mas eu nem sabia muito bem para o que ia, porque não tinha noção de que tinha um problema grave, já que continuava a trabalhar, embora fossem mais os dias que faltava do que os que trabalhava”.

Quando lá chegou, ouviu a série de testemunhos de membros mais antigos e já livres do vício. “Como acontece agora no GAT, os novos elementos ficam para o final, para se sentirem motivados depois de ouvirem histórias de sucesso. Eu ouvi um testemunho de uma senhora, que passou por muito mais do que eu e foi algo que me marcou imenso ao ponto de, no dia seguinte, resolver cortar para metade a quantidade de álcool que ingeria. Quando cheguei à segunda reunião, na semana seguinte, já tinha reduzido muito na bebida. Depois, apesar de me explicarem que poderia fazer um tratamento e ser internado e que a minha família iria ser apoiada enquanto eu não trabalhasse, consegui deixar de beber apenas por minha iniciativa.

Reduzi a quantidade até chegar um dia, em que só tinha uma cerveja em casa para a refeição. A minha mulher estava preocupada e dizia-me que era pouco para dividir pelos dois, mas eu insisti e bebemos os dois uma cerveja a meias. Foi a última. Assim o decidi e consegui cumprir”, contou-nos José Arsénio.

Alcoólicos começam por passar por médico

Clotilde Carvalho explicou que as pessoas chegam ao grupo através da informação que vão distribuindo ou pela palavra de amigos e familiares. Os elementos do GAT analisam o estado em que o aderente se encontra, é feito um teste, e aconselham sempre a uma consulta médica.

O aderente é encaminhado para uma consulta com um especialista do Centro de Alcoologia do Norte, com quem o GAT tem um protocolo de colaboração. O médico vai supervisionar o tratamento ou internamento, conforme os casos.

O GAT funciona como uma base de apoio social à pessoa em tratamento e à sua família. Todas as sextas-feiras, o GAT reúne na Praceta do Sobreiro, Fração X, Torre 3, sala 7, loja 36, na Maia.

“Depois de uma fase problemática de vício, em que o aderente em tratamento ou tratado afastou toda a família e amigos devido ao comportamento anterior, ele precisa de pessoas que o ajudem a voltar à vida normal, que o ensinem que pode estar em sociedade sem beber álcool e pode conviver em festas e ser feliz bebendo outras coisas, como sumos ou água”, afirmou Clotilde Carvalho.

O GAT acaba por ser uma segunda casa até que o tratado consiga recuperar a vida que perdeu. Por outro lado, o GAT é a segurança para quem o frequenta de que não haverá recaídas e que, quando houver essa tentação, “terá alguém que lhe deita a mão e o ajuda a resistir”. José Arsénio admite que, passados dez anos de se ter livrado da bebida, ao atravessar problemas familiares graves, esteve quase a ter uma recaída. “Felizmente, o grupo ajudou-me e não cheguei a esse ponto, porque há gente que quando recai não consegue mais recuperar. Para um alcoólico, uma recaída é muito mais difícil de tratar”, frisou.

Família sofre mais do que o alcoólico

Clotilde Carvalho também deu conta do sofrimento por que passam as famílias de quem bebe: “o alcoólico bebe até perder noção do comportamento inconsequente que está a ter, do desperdício em que está a colocar toda a sua vida e do sofrimento que está a impor à sua volta.

Por isso, quem sofre mais é a família, que quer ajudar e, muitas vezes, não consegue. No meu caso, cheguei a uma altura em que vi todos os meus sonhos ficarem para trás. Então, a família tem que ter para com o alcoólico  uma postura de impor um rumo, que só pode passar pelo tratamento e por largar a bebida. Se mesmo assim, não conseguir convencer a pessoa a tratar-se, acaba por ser até aconselhável a família continuar a sua vida, porque não pode ser submetida àquele sofrimento. Por vezes acontece”.

Mas, o certo é que Clotilde Carvalho diz que “valeu a pena o esforço e apoio” dado ao familiar. A caminhada para a recuperação deve ser feita em conjunto com o marido ou a esposa ou outro familiar. O GAT abre as suas reuniões aos tratados e às famílias. Só assim a recuperação funciona.

O método de apoio não é rígido, refere Clotilde Carvalho, “não seguimos um certo número de passos como outros grupos, porque consideramos que cada caso, cada pessoa deve ter um acompanhamento específico e personalizado. O que fazemos é estabelecer objetivos entre cada reunião”.

GAT quer alertar os mais novos

No GAT o trabalho tem por base três eixos: Informar, Prevenir, Ajudar. Neste âmbito, o grupo está preocupado com a forma como o álcool está cada vez mais inserido na sociedade e, em especial, na juventude. Clotilde Carvalho adianta que uma das próximas iniciativas do GAT deverá passar por ações de sensibilização nas escolas para alertar os jovens dos perigos do consumo excessivo de álcool. “Os jovens bebem muito e não se apercebem que aquela bebida causa dependência. Pensam que por irem para os bares só ao fim de semana e beberem só nessas situações que não se tornam alcoólicos. Não é assim. A dependência vai sendo adquirida ao longo dos anos, sem notarem”.

Para Clotilde Carvalho, “tal como acontece com o tabaco, também devia aparecer inscrito nos rótulos das garrafas mensagens de alerta que explicitassem claramente a quantidade de álcool presente na bebida e avisassem que aquela substância provoca dependência e que pode conduzir a graves doenças”. O grande perigo, de acordo com este elemento do GAT, é que o álcool é uma droga forte e que prejudica muito as pessoas, mas “é aceite socialmente”. E acrescenta: “pouca gente sabe, mas a única ressaca que pode levar à morte é a do álcool”.

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