Hipermercados abertos ao domingo até à meia-noite

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A partir deste domingo, as grandes superfícies comerciais podem estar abertas até à meia-noite. O decreto-lei 111/2010 que modifica o regime dos horários de funcionamento dos hipermercados foi publicado em Diário da República na sexta-feira da semana passada. As portas podem então estar abertas, desde que os estabelecimentos comuniquem à câmara municipal da sua área com um dia útil de antecedência.
Diz o decreto que as autarquias poderão restringir os limites de horário ao domingo depois de ouvidos os sindicatos, as associações patronais e as associações de consumidores. Contudo, só o podem fazer em “casos devidamente justificados” e que se prendam com “razões de segurança ou de protecção da qualidade de vida dos cidadãos”.

A Maia já decidiu permitir que as grandes superfícies de venda abram aos domingos. Mas afinal quem fica a ganhar? PRIMERA MÃO foi à rua e ouviu comerciantes de pequenos estabelecimentos, que se queixam e clientes, que se mostram pouco receptivos à ideia.

Alguns comerciantes abordados por PRIMEIRA MÃO preferiram não tecer comentários ou mostraram não ter uma opinião muito formada sobre o assunto. Outros foram mais “corajosos” e consideram a medida “muito prejudicial” para o negócio que nos dias que correm já não é fácil por si só. Como disse um comerciante que preferiu não se identificar, “quem se lixa são sempre os pequeninos”.

Os clientes, esses, mostram-se pouco receptivos à ideia. Um dos argumentos para a abertura dos “hipers” ao domingo seria a maior comodidade para clientes poderem efectuar as suas compras, “longe” da azáfama dos dias úteis. Mas numa terra ainda com fortes raízes religiosas a resposta é pronta: “domingo é para descansar”… e até para fazer passar a mensagem do criador que, de acordo com Laura Silva, “domingo é um dia para ser dedicado à família”. “Está na bíblia”, remata.

A “confissão” foi feita à porta do Mercadinho, na zona antiga de Vermoim. Este pequeno estabelecimento comercial, de espaço muito reduzido, vive a meio caminho do Jumbo e do novo Maia Jardim. O negócio ressente-se, confessa a responsável pelo estabelecimento, Rosa Costa. “Estou aqui há 10 anos e no princípio até se estava bem, mas agora à medida que o tempo passa o negócio está cada vez pior”, lamenta. No balanço financeiro deste estabelecimento também pesa o tão tradicional “fiado” e Rosa Costa queixa-se da falta de pagamento dos clientes ao fim do mês. “Antigamente iam pagando, agora nem por isso”, confessa.

As mesmas dificuldades sente o OK Supermercado, em Barca. O proprietário, Luís Leitão, também tem a mesma opinião de alguns populares sondados e diz que o domingo foi feito para descansar. Embora abra de manhã no “dia de descanso”, confessa não achar “correcto” que os “hipers” abram ao domingo. “O domingo é para ir à missa e para descansar”, considera Luís Leitão. As dificuldades agravam-se com as grandes superfícies, as quais acusa de concorrência desleal. Ainda assim, confessa que o negócio “vai dando para a tigelinha da sopa” e garante continuar a gerir o supermercado “enquanto me deixarem. Se não deixarem vamos todos cavar terra, que há muita aí para cavar”, remata o responsável pelo “OK”, entre risos.

Para a tigelinha da sopa de Luís Leitão e não só também pode ser precisa alguma carne. Carne que parece ser um negócio que passa ao lado da crise comercial. Nem o Maia Jardim está a afectar um dos principais talhos de Nogueira da Maia, o Central. “Sentimos alguma coisa, mas não sentimos muito a abertura do Maia Jardim”, diz o responsável pelo estabelecimento, Rui Moura, acrescentando que a abertura de alguns espaços comerciais “pode ser útil a algumas pessoas que não têm oportunidade de fazer compras durante a semana, devido a um estilo de vida cada vez mais ocupado”. Mas é agora em Setembro que a “prova dos nove” vai ser tirada. “Esperemos que depois dessa data continuemos a não sentir o efeito da abertura das grandes superfícies”, desabafa.

Às compras no Talho Central de Nogueira, a opinião de Maria José Teixeira vai de encontro à maior parte dos populares ouvidos. Ou seja, domingo é domingo e mais nada. Maria José Teixeira vai mais longe e diz que “só não vai fazer compras à semana quem não quer” e considera que a medida “é uma exploração ao pessoal”. De resto, é peremptória, em consonância com os restantes: “Domingo é mesmo para descansar e mais nada”.
Uns descansam, outros lutam para colocar o pão na mesa. As grandes superfícies vão mesmo abrir aos domingos. Embora seja considerado um dia de descanso, alguns comerciantes já adiantaram que apesar de muitos preferirem o descanso, os “hipers” vão encher.

Pedro Póvoas e Isabel Fernandes Moreira