Horta de subsistência nasce na Maia para apoiar famílias carenciadas

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Produtos cultivados podem ser para consumo próprio ou para venda; Maiatos desempregados podem candidatar-se a um dos 50 talhões disponíveis

Se tudo correr como previsto, até ao final do ano, a Maia vai ter a primeira horta de subsistência do Grande Porto. Vai surgir nas imediações do Mercado Municipal do Castelo da Maia, a poucos metros do Complexo de Educação Ambiental da Quinta da Gruta. A iniciativa surge como uma contra medida à actual configuração social do país e pretende suavizar as consequências do fenómeno do desemprego que se vivem nestes dias. A ideia da criação de uma horta de subsistência tem raiz no projecto Horta à Porta, dinamizado pela Lipor e autarquias associadas, mas inclui uma vertente social que permitirá a famílias mais desfavorecidas ter uma ajuda extra.

Para participar no projecto, têm de ser preenchidos alguns requisitos. Marta Moreira adianta que a horta de subsistência vai receber "pessoas desempregadas, ou que tenham um rendimento familiar até 20 mil euros, ou agregados familiares com três ou mais filhos". Mas não é só. Todos os utilizadores têm de ser residentes no concelho da Maia. Para que haja espaço para o maior número de agricultores, os talhões já estão planeados e vão ser cerca de 50

Não é a primeira horta colectiva no município da Maia, mas é diferente daquelas que já estão implantadas em Crestins, na Quinta da Gruta e na freguesia da Maia, frutos de um protocolo entre a Câmara da Maia e a Lipor. Qual é a diferença entre as três hortas que já existem e a nova horta de subsistência, também resultado de um acordo entre a autarquia maiata e a Lipor? Marta Moreira, coordenadora do complexo de educação ambiental, conta que na nova horta de subsistência, os utilizadores do espaço vão poder produzir produtos não apenas para consumo próprio mas também vende-los. "Este é o factor novidade em relação às outras hortas já existentes", explica Marta Moreira. Mas as diferenças não ficam por aqui. Os talhões de horta são maiores, quando comparados com as já existentes no “Horta à Porta”. Segundo Marta Moreira, estes vão ocupar uma área de 100 metros quadrados, "um tamanho que já dá trabalho e que exige que a pessoa vá ao local todos os dias e que trabalhe o espaço", reforça. Como termo de comparação, a responsável adianta que no projecto "Horta à Porta" os talhões têm apenas 25 metros quadrados de área. Desta forma, "a pessoa, além de produzir para si, pode produzir a mais e vender. E através dessa venda, pode obter uma ajuda para o seu dia-a-dia". Ao todo, a nova horta de subsistência vai ocupar 7000 metros quadrados num terreno junto ao mercado do Castelo da Maia. Aliás, este é um factor relevante em todo o processo. O mercado vai receber os produtores e os seus produtos da horta, graças à proximidade com o local de cultivo. E desta maneira, "todas as segundas-feiras, todos os utilizadores da horta podem vender os produtos cultivados numa área que será reservada para o efeito", avança Marta Moreira. É o compromisso assumido pela Câmara Municipal, mas isso não impede estes novos mini-agricultores de vender os resultados do cultivo noutros sítios.

Requisitos

Para participar no projecto, têm de ser preenchidos alguns requisitos. Marta Moreira adianta que a horta de subsistência vai receber "pessoas desempregadas, ou que tenham um rendimento familiar até 20 mil euros, ou agregados familiares com três ou mais filhos". Mas não é só. Todos os utilizadores têm de ser residentes no concelho da Maia. Para que haja espaço para o maior número de agricultores, os talhões já estão planeados e vão ser cerca de 50. Mas nem todo o espaço vai ser ocupado pela área de cultivo. Vão também ser disponibilizados pequenos abrigos para que os utentes da horta possam guardar os materiais agrícolas, além de passadiços e pontos de abastecimento de água. "Tudo isto vai ser gratuito", revela Marta Moreira.

Também gratuita vai ser a formação, fornecida pela Lipor. Será dada a todos os utentes antes de iniciarem o cultivo dos produtos. Os agricultores vão receber acções de formação sobre compostagem, cultivo, doenças agrícolas, entre outras. Estas acções vão decorrer sempre ao sábado, de manhã ou de tarde, consoante o grupo em que os utentes ficarem. Ao todo, a formação ministrada vai durar cerca de um mês. "Quem nunca cultivou nada, quem nunca teve espaço para ter um cultivo próprio, não tem que se inibir a concorrer e ganhar um espaço destes, porque existe essa formação precisamente para quem não percebe nada de agricultura". Apoio certo para os agricultores iniciantes, garante Marta Moreira, em formações que tanto serão anteriores à abertura do espaço como, num período posterior, vão consistir em acções de acompanhamento, já durante o funcionamento da horta de subsistência, "porque as dúvidas surgem sempre no decurso do trabalho", diz Marta Moreira.

Outra questão prende-se com a ocupação do espaço. A resposta também é simples: quem chegar primeiro e preencher os requisitos já enunciados, tem direito a ocupar um dos talhões disponibilizados. A selecção será feita por ordem de chegada. “Correspondendo aos requisitos, quem se inscrever primeiro ficará com o lugar", conta Marta Moreira. Para o projecto "Horta à Porta", existe uma lista de espera com algumas pessoas. Ao todo, são 80. Por uma questão de justiça, a prioridade de selecção para a nova horta de subsistência vai recair nas pessoas que já estão inscritas nessa lista de espera do projecto "Horta à Porta", mas "desde que correspondam aos requisitos exigidos para a horta de subsistência". As inscrições devem ser abertas durante este mês de Agosto.

Produtos

Nasce a horta de subsistência e, dentro da horta, nascem os produtos cultivados. Produtos de época ou as chamadas apostas certeiras. Marta Moreira faz um prognóstico agrícola e adianta que "a hortaliça, a couve… todos esses produtos dos quais as pessoas precisam diariamente, vão ser muito cultivados". Mas com uma regra muito importante: têm de ser inteiramente biológicos. Não poderão ser utilizados químicos e os adubos serão os orgânicos, sendo que a compostagem é essencial para um terreno fértil. Cada agricultur irá receber, por isso, compostores para ajudar ao processo.

Depois de aprovado o projecto, a horta de subsistência já passou do papel e começa a ganhar contornos reais. Já estão a decorrer as obras no terreno e os primeiros agricultores podem começar a ocupar o espaço antes do final deste ano. É esta a previsão da responsável pelo projecto, Marta Moreira. "O investimento no espaço foi feito pela Lipor, e a Câmara Municipal da Maia cedeu o terreno para este projecto".

A gestão das inscrições para a horta de subsistência vai ser gerida pela Lipor, também responsável pelos cursos de formação, que terão lugar no Complexo de Educação Ambiental da Quinta da Gruta.

Depois do Castelo da Maia e se a ideia tiver boa aceitação e desenvolvimento, a horta de subsistência pode chegar a outros pontos do município. No entanto, para já, vai funcionar no Castelo sem "prazo de validade" para a iniciativa. Mas poderá haver prazo para os agricultores. "Todos os contratos assinados permitem a ocupação do espaço na horta por um ano". Mas isso não significa que os agricultores tenham de abandonar o espaço ao fim de 12 meses. "Se não houver impedimento para a continuidade de nenhuma parte, ficará novamente por mais um ano, mas será sempre assinado esse contrato". E, no caso de alguém desempregado que entre no mundo de trabalho, "essa pessoa terá de abandonar a horta e dar lugar a quem precisa", esclarece Marta Moreira.

Já o projecto "Horta à Porta" deverá registar o aparecimento de novos pólos do em vários pontos do concelho.