Mochila cheia, carteira mais vazia

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Na segunda-feira, já devem estar a funcionar todos os estabelecimentos de ensino pré-escolar, mas também do ensino básico e do ensino secundário. É a data limite definida pelo Ministério da Educação para o arranque do ano lectivo 2010/2011, frequentado por cerca de um milhão e meio de alunos. O regresso às aulas começou, oficialmente, ontem, com o primeiro ministro José Sócrates e a ministra da Educação, Isabel Alçada, a marcarem presença na inauguração do Centro Escolar de Mouriz, em Paredes.

Este é apenas um dos 333 centros escolares que o Ministério da Educação garante terem as obras concluídas e que começam este ano a funcionar, a par de 11 novas escolas dos 2º e 3º ciclos. Ao mesmo tempo que encerram 701 estabelecimentos do primeiro ciclo do ensino básico. Para os alunos deste nível de ensino, a titular da pasta garantiu, também na quarta-feira, que haverá 200 mil computadores MG2 para distribuir. São os portáteis que substituem o Magalhães e que custaram ao Governo 50 milhões de euros.

No caso concreto da Maia, e só no que respeita aos jardins-de-infância e primeiro ciclo – níveis sob a alçada da câmara municipal, o universo de alunos é de 6949. Vão frequentar, entre outros estabelecimentos, as 12 escolas do plano centenário que foram alvo de obras de requalificação e os três novos centros escolares. Só não reabrem as escolas EB 1 de Cavada, Agra e Ardegães, nem os jardins-de-infância do Paço / Guadalupe e Cruzeiro. Na Maia, fruto do reordenamento da rede escolar anunciado pelo Ministério da Educação.

Com este regresso às aulas, regressa o ritmo mais acelerado para pais e encarregados de educação. Assim como as despesas inerentes a mais um ano. Findas as férias, começou a contagem decrescente para o regresso à escola. Ou para o ingresso no ensino, no caso dos mais novos. E se há aqueles cuja tarefa de escolha do material escolar fica a cargo dos pais, são cada vez mais os que fazem questão de ter esta ou aquela mochila em particular, este ou aquele caderno.

Moda ou necessidade?

A oferta é grande. Basta olharmos para as caixas do correio que, desde o início de Setembro, têm sido bombardeadas com catálogos e folhetos com as promoções do “Regresso às aulas”. Na maioria, de grandes superfícies. Ao longo de inúmeras páginas, publicitam produtos para ambos os sexos, para todas as idades, gostos e até carteiras.

Em época de crise, que exige às famílias contenção nas despesas, os catálogos de duas grandes superfícies concorrentes começam por propor um kit escolar composto por artigos que consideram essenciais para a escola. A maioria, da sua marca própria. Um deles é composto por uma mochila, três esferográficas, 12 lápis de cor, uma caneta correctora, um sublinhador, 12 canetas de feltro, uma tesoura, duas borrachas de dupla utilização, um estojo, fita cola com dispensador e um caderno espiral A4 de 120 folhas. Tudo por 7,99 euros. Por 6,98 euros, o hipermercado concorrente tem à venda uma mochila clássica, um estojo e um conjunto composto por 12 lápis de cor, 12 marcadores, 12 lápis de cera, uma borracha, um apara lápis com depósito, uma cola bastão, uma tesoura, uma régua, dois lápis e duas esferográficas.

Mas esta é apenas uma pequena parte da oferta do mercado. E nem sempre a que mais cativa os estudantes. Os pais e encarregados de educação são, cada vez mais , confrontados com os caprichos – exigências, por vezes – dos seus educandos. À semelhança das escolhas que fazem com a roupa e o calçado, alegam a integração no seu grupo de amigos para pedir objectos de uma determinada marca. Seja a mochila que levam diariamente para a escola ou um simples caderno. E é aqui que a despesa começa a subir, apesar de muitos pais verem nestes pedidos uma tentativa de manipulação.

Se a escolha recair sobre material de marca ou alusivo a séries televisivas ou desenhos animados com que os mais novos mais se identifiquem, o valor dos kits acima referidos não chega, sequer, para a mochila, o artigo mais caro do kit. Nos dois catálogos comparados por PRIMEIRA MÃO, há-as a preços que variam entre os 14,99 euros e os 34,99 euros. Somam-se os restantes artigos considerados essenciais e do orçamento familiar terão de sair entre os 27 e os 53 euros, só para este conjunto.

A despesa não fica por aqui. Assim que começam as aulas, a lista aumenta com o material específico de cada disciplina, requisitado por cada um dos professores. Por exemplo, para as áreas de Educação Artística e Tecnológica, Educação Visual e Tecnológica ou Educação Musical.

Livros mais caros

Tudo isto sem contabilizar ainda a despesa com os manuais escolares. E, neste caso, sem escolha possível. A selecção dos livros é feita por cada um dos estabelecimentos de ensino e afixada atempadamente para que os pais os possam ir comprando.

Para quem tem filhos apenas no primeiro ciclo do ensino básico, diz o proprietário de uma papelaria no centro da cidade que a despesa deverá rondar os 30 a 50 euros, por aluno. À medida que se avança no nível de escolaridade, o orçamento vai crescendo. Para o segundo ciclo do ensino básico – 5º e 6º anos de escolaridade – os gastos com livros para as oito disciplinas já deverão oscilar, este ano, entre os 120 e os 150 euros. Mas se o seu educando estiver a frequentar os 7º, 8º ou 9º ano, admite Abílio Silva que “já começa a doer”, podendo ter que desembolsar mais de 200 euros, só com os manuais escolares. No ensino secundário, é certo que são menos as disciplinas, mas o preço de cada livro ronda, em média, os 30 a 40 euros.

Este ano, os livros estão mais caros, tendo em conta a subida do IVA em um por cento. Mas não foi só nos preços que a medida governamental teve impacto. A actualização provocou também algum atraso na disponibilização dos manuais às lojas. No caso concreto desta papelaria maiata, as pessoas começaram a comprar os manuais em Julho (ainda antes de irem de férias) mas foram confrontadas com a falta de alguns livros. Ao contrário do ano passado, em que “correu tudo muito bem e a gente começou o ano logo com os livros todos”, recorda Abílio Silva.

De qualquer forma, e como as compras já começaram há algum tempo, já há livros que começam a faltar. Mesmo deixando os pais para o início efectivo das aulas a compra de manuais de algumas disciplinas, nem sempre usados pelos docentes. E assim podem evitar uma despesa desnecessária.

Esta semana foi de maior afluência, com a contagem decrescente para o início do ano lectivo. E sem grandes alterações nas vendas, em relação a anos anteriores, apesar de serem cada vez mais as editoras e portais que fazem descontos na compra online de manuais escolares, em média, entre os cinco e os dez por cento. Para fazer face a esta concorrência – inclusive de fornecedores seus – a papelaria de que Abílio Sousa é proprietário repetiu a receita do ano passado: na compra dos livros, oferece um cartão que permite ao cliente descontos de dez por cento na compra de material escolar, ao longo de todo o ano lectivo. É uma forma de fidelizar e de atrair as pessoas à loja, em vez de comprarem esses artigos nas grandes superfícies.

Marta Costa