No dia Internacional pela eliminação da violência contra as mulheres apresentamos um depoimento de quem venceu o medo e se libertou

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Elisabete S._imagem do facebook da entrevistada

Neste 25 de novembro, em que se assinala o Dia Internacional pela eliminação da violência contra as mulheres, deixamos uma história de coragem de alguém que venceu “o medo” e está agora numa jornada de “descoberta interior” e da procura da “paz de espírito”.

Elisabete S. tem 46 anos e vive agora a tentar esquecer um casamento de cerca de 26 anos de violência doméstica. Trabalha na área social e tem dois filhos já adultos, a quem devotou a sua vida, tudo fazendo para que tivessem uma infância feliz, algo que diz não ter tido.

Veio no mês passado conversar com o Maia Primeira Mão e conhecer os bastidores da Rádio NoAr, que faz parte do mesmo grupo de comunicação do jornal. É que Elisabete S. contou-nos que desde que, no início do ano, deu por terminado seu divórcio, resolveu agradecer a todas as pessoas e entidades que lhe deram apoio, mesmo sem o saberem, algumas delas.

Uma das etapas desta mulher, agora livre, como gosta de sublinhar, é mostrar-se grata a quem a ajudou. Diz que a Rádio NoAr foi uma das entidades que lhe iluminou o caminho em muitos dos dias, em que sequer o gesto de se levantar era tremendamente difícil, quanto mais o ter que ir trabalhar. Era a música da estação e as vozes amigas que ouvia do outro lado que lhe davam ânimo e resiliência.

Outra pessoa, ainda na área da música, que a inspirou nesta vida de tormentos foi o cantor Zé Amaro. Elisabete disse-nos que ainda há-de concretizar o sonho de agradecer pessoalmente a Zé Amaro a alegria que lhe dava e ainda dá com as suas canções.

Uma outra forma que Elisabete encontrou de apoiar outras mulheres que tenham tido ou ainda estejam a ter este problema da violência doméstica, foi com a realização de diretos em vídeo no seu perfil de facebook. Neles, Elisabete S. aborda vários temas, dando a sua opinião sincera esperando que a sua experiência de vida seja motivo de alento para alguém.

Na sua vida, o principal obstáculo que teve que enfrentar foi “o medo”, contou-nos: “o medo paralisa-nos completamente, a partir de dentro, é uma reação irracional, que não se consegue explicar”. É assim que responde a quem frequentemente lhe pergunta, como também nós o fizemos nesta entrevista: “como foi possível viver num casamento de mais de 20 anos e sujeita a violência doméstica?”

No relato de Elisabete fica patente a dificuldade de denunciar o ambiente em que vivia, uma vez que, depois da pressão de algumas entidades junto do ex-marido, este acabou por emigrar, mas não queria oficializar a separação com o divórcio e criava perseguição psicológica, mesmo à distância.

Como provar a violência psicológica? Elisabete S. sabia que era a grande dificuldade que teria que enfrentar.

Enquanto estavam juntos, Elisabete diz que foi sujeita a humilhações diárias, com insultos constantes quer em casa quer em festas de família; era obrigada a ir a pé para o trabalho, fosse que distância fosse, porque o marido lhe tirava as chaves do carro; recebia cenas de ciúmes porque simplesmente alguma pessoa lhe dirigia a palavra na rua ou no supermercado; sofria violência física e abuso sexual frequente.

Depois que o ex-marido emigrou, Elisabete contou que as humilhações e insultos continuavam à distância (durante cerca de 13 anos), pois o ex-marido ligava todos os dias à mesma hora. Além disso, exercia pressão psicológica, dizendo que tinha amigos a vigiarem-na e sabia todos os passos que ela dava. Depois vinha a casa, uma meia dúzia de vezes por ano, sendo que nesses dias voltava todo o inferno à sua vida de forma mais intensa.

O tempo foi passando e Elisabete só queria que os filhos crescessem felizes para seguirem o seu caminho. Hoje, estão independentes e, concluído este ano todo o processo de divórcio e partilha de bens, Elisabete S. contou que começou a trabalhar em si, começou um processo de se conhecer melhor, de se perdoar pelo facto de ter deixado arrastar uma situação de violência por tanto tempo e de começar a amar-se a si própria e à liberdade que agora vive.

Na entrevista que nos concedeu, Elisabete falou três horas seguidas sem parar. A emoção à flor da pele, a dor estampada nos olhos, que também brilhavam quando falava dos filhos e da esperança que se lhe abre na vida daqui para a frente…

Não dá para retratar todo o quadro da vida desta mulher neste texto, pois as palavras são escassas para tal, nem dá para colocar nelas toda a emoção que nos transmitiu, já que estas não chegam ao limiar dos sentimentos de forma tão calorosa, mas podemos sim deixar um exemplo de “coragem” de libertação de uma “prisão” chamada “violência doméstica”.

É este o intuito da revelação deste depoimento e deste exemplo: a esperança para que outros casos se repitam e que vençam!

A Elisabete S. também nos confidenciou esse propósito. Assim como um dia, numa conferência sobre violência doméstica a que assistiu, houve uma oradora (uma médica) que a inspirou a tentar “mudar” e a “dar a volta por cima”, também ela quer espalhar o seu exemplo e motivar outras pessoas que precisem de dar o primeiro passo.

Procurem ajuda para vencer o medo. É este o conselho que uma vítima deixa. Agora vive em liberdade e está a aprender a ser feliz.

Oxalá todas as histórias terminassem assim…