Nortávia cria na Maia dirigível leve, ecológico e seguro

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Da Maia, para o Mundo. Para carga ou passageiros. Para circular ou simplesmente estar no ar. É o que se pretende do dirigível pensado por Cassiano Rodrigues, dono da Nortávia, sedeada no Aeródromo de Vilar de Luz, em Folgosa. Foi baptizado de Nature Friendly Airship Program (NFAP). Para já, há apenas um modelo à escala de um para oito (imagem), que deve ser apresentado publicamente no final do Verão ou início do Outono. O futuro depende das parcerias que conseguirem estabelecer, com vista ao desenvolvimento e produção da aeronave.

Ligado à aviação desde os 19 anos, Cassiano Rodrigues orgulha-se de ter “uma experiência bastante rara”, nomeadamente em relação às infra-estruturas, e com uma trajectória como piloto de aviação civil “praticamente única”. Andou pelo país e outros pontos da Europa, mas também pelo Brasil. Foi neste país irmão que entrou no sector do têxtil, actividade a que se dedicou também em Portugal, com a Rodrilínea, de que ainda é proprietário.

Mas não só confecção e costura se fazem nas instalações desta empresa. Porque o espaço da Nortávia no Aeródromo de Vilar de Luz é demasiado movimentado para o desenvolvimento de um projecto de investigação, foi nas traseiras da Rodrilínea que o projecto do dirigível começou a sair do papel e a ganhar forma. Mas a ideia surgiu quando estava mais longe.

Amante do Douro, região que considera “coisa única”, em especial Trás-os-Montes, de onde é natural, confessa que gostava de ver estas e outras províncias a desenvolverem e que “a parte aeronáutica tivesse o seu contributo”. Nesse sentido, Cassiano Rodrigues chegou a propor ligações de cidades do interior ao Porto, Lisboa e Faro, sem necessidade de subsidiar como acontece com a actual ligação Bragança – Vila Real – Lisboa. Para garantir a sustentabilidade dessas ligações, sugeriu que as aeronaves ficassem isentas do pagamento das taxas de utilização dos aeroportos principais. Mas a ideia não vingou.

Foi numa dessas idas ao Douro, mais precisamente numa paragem na Estalagem Nossa Senhora das Neves, em Bornes, que o mentor do projecto se lembrou de criar um meio de transporte para a região, sem afectar o espaço físico. A solução pensada foi este dirigível, um conceito que surgiu em 1936, com os materiais de então. Mas que não chegou a ser utilizado, dado o aparecimento do avião, como algo “colossal”.

Versátil e leve

Mas porque entende que há espaço para os dois aparelhos, Cassiano Rodrigues avançou com a ideia deste dirigível. “E aceitamos o desafio de ir por caminhos que outros não foram”. Da ideia passou-se ao trabalho de investigação e desenvolvimento tecnológico, que arrancou há mais de quatro ano. Daí resultou um dirigível em forma oval, versátil em termos de utilização. É encarado como “aquele que pode atravessar as montanhas, aquele que pode ir ao Douro sem chatear ninguém, aquele que pode estar na vigilância de costa durante horas ou durante dias, sem grandes consumos”. Isto porque se trata de um equipamento “praticamente autónomo em termos de energia”, dependendo da utilização. Mas já vamos desvendar as restantes vantagens. Ainda sobre as potencialidades de utilização, pode chegar “onde nunca ninguém esteve”. E aí permanecer “sem estragos”.

Embora haja outros projectos semelhantes em vários pontos do globo, este dirigível distingue-se sobretudo pelo peso. É leve, muito leve. Em vez da madeira e do alumínio, são utilizados materiais compósitos “20 a 30 vezes mais fortes e 20 a 30 vezes mais leves”.
Além de versátil e leve, este dirigível é amigo do ambiente e da natureza. Utiliza o hélio em vez do hidrogénio e “é exclusivamente alimentado por energia eléctrica gerada a partir de um sistema pioneiro que congrega um gerador de biocombustível, baterias, células fotovoltaicas e motores eléctricos”, destaca a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N). Ao ponto de ser capaz de dispensar piloto, conduzindo de forma autónoma.

Depois de apresentado publicamente o modelo, e uma vez demonstrado o conceito, pretende-se avançar para a construção do verdadeiro dirigível, “próprio para trabalhar”. Nas traseiras da Rodrilínea também não se pára de trabalhar. Além dos computadores especiais que “estão a trabalhar noite e dia no sistema”, a equipa de sete elementos – um engenheiro mecânico, quatro engenheiros aeronáuticos e os restantes são funcionários da empresa têxtil – continua a fazer testes para os acertos e correcções necessárias. Cassiano Rodrigues adverte, no entanto, que “não vai sair o melhor dirigível do Mundo para o futuro”, porque haverá melhorias constantes. Mas “é capaz de ser o melhor para a época”, admite.

Entretanto, há que captar investimento de parceiros, sobretudo internacionais, já que “tem possibilidade de ter uma dimensão a nível mundial”. E também porque, em Portugal, “não há experiência neste tipo de negócio”.
Até ao momento, já foram investidos cerca de dois milhões de euros, sendo 500 mil comparticipados através do “ON.2 – O Novo Norte” (Programa Operacional Regional do Norte).

“Ignorância aeronáutica” limita a Nortávia

“É pena que o Norte não tenha mais cultura aeronáutica”, lamenta Cassiano Rodrigues, daí resultando “os maiores disparates, por uma questão de ignorância”. O piloto não tem dúvidas que a solução reside na aposta em mais formação. De pilotos, de hospedeiras e até de mecânicos que assegurem a manutenção dos aparelhos. Até porque as organizações do sector já revelaram que, até 2020, serão necessários 70 mil novos pilotos.

Dessa formação, admite o comandante, depende também a própria sustentabilidade da Nortávia. E porque não apostar em clusters aeronáuticos como os que têm sido desenvolvidos pela Espanha? Porque por cá, considera, “não existe nem aquela sensibilidade, nem aquela predisposição”. Em suma, devido “à ignorância do povo”, mas também dos políticos, em relação à aeronáutica e à aviação. Esse poderá ser, também, o motivo do impasse da Câmara Municipal da Maia em torno do projecto apresentado há cerca de dois anos, no sentido de requalificar e readaptar o Aeródromo de Vilar de Luz.

A proposta passa pela criação de uma Área de Acolhimento Empresarial, num investimento na ordem dos 15 milhões de euros, que “procura satisfazer os paradigmas de classe, energia e ambiente aplicados ao sector aeronáutico”. A ideia é reunir ali um conjunto de empresas, contribuindo para a criação de postos de trabalho, directos e indirectos, ao mesmo tempo que permitirá a incubação de produtos e serviços “totalmente inovadores e com uma elevada natureza explorável”. A proximidade entre empresas e serviços é uma mais-valia mencionada na proposta, com o impacto económico positivo que poderá resultar dessa “estratégia de eficiência colectiva”.

Paralelamente, pretende-se criar no aeródromo uma academia de formação, uma residência e um espaço para manutenção aeronáutica. Integrado neste projecto ficaria o NFAP, em especial na fase de industrialização e exploração do produto, “apresentando um elevado potencial para vir a assumir a dimensão de Projecto de Interesse Nacional”, lê-se na proposta a que PRIMEIRA MÃO teve acesso. Esse potencial garantiria, também, financiamento comunitário, já que há um programa destinado exactamente à criação de áreas de acolhimento empresarial, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).
Apesar de já ter sido elaborado um estudo de viabilidade económica deste projecto, concluindo que “é viável”, o certo é que “não tem avançado”, lamenta o comandante. E afasta a hipótese de eventuais limitações financeiras, já que “a câmara não gastava um tostão”. Mas o projecto estará ainda a ser analisado pela autarquia.

PRIMEIRA MÃO sabe que há pelo menos dois concelhos com aeródromo que já se disponibilizaram para acolher a Nortávia. Talvez pelo impacto do projecto do dirigível, ainda que esta seja apenas uma parte do que se pretende para a já referida Área de Acolhimento Empresarial. Na Maia, uma das principais vantagens seria a proximidade com o Aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Sem querer adiantar quais as propostas apresentadas à Nortávia, Cassiano Rodrigues apenas não descarta a possibilidade de mudar: “Nós temos hipóteses de ir para outros lados e fá-lo-emos se for aconselhado”.

Marta Costa