“O alarmismo é, de facto, perturbador”

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Na semana que antecede o regresso às aulas, PRIMEIRA MÃO entrevista Isolina Aguiar. Esta médica maiata é detentora de um currículo académico de respeito, destacando-se a sua licenciatura na Faculdade de Medicina do Porto, merecendo particular enfoque a sua especialização em Pediatria no Departamento de Pediatria do Hospital de S. João do Porto, concluída com a média final de 19,1 valores.

Actualmente exerce o cargo de Assistente Hospitalar em Pediatria no Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar do Alto Ave – Guimarães, onde realiza consulta de desenvolvimento infantil e assegura o serviço de urgência pediátrica, função que também exerce no Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, exercendo clínica privada na cidade da Maia, com uma prática de honorários que assume verdadeiramente um carácter social, facto que tem sido responsável pela enorme simpatia e popularidade que conquistou na sociedade maiata.

Primeira Mão – Pânico ou fobia hipocondríaca, ajudam ou complicam?

Isolina Aguiar – Penso que complicam porque em situações de pânico as pessoas deixam de agir de forma consciente e coerente, agindo de forma intempestiva e irreflectida o que, em vez de ajudar, na maioria das vezes dificulta a execução das medidas de prevenção mais adequadas.

A serenidade dos pais e dos adultos inspiram confiança às crianças?

Sem dúvida. O exemplo dos adultos é fundamental, uma vez que as crianças os imitam e são afectadas pelo seu comportamento. Adultos receosos e nervosos vão levar a que as crianças também manifestem esses sentimentos. Adultos serenos vão induzir maior tranquilidade nas crianças o que é extremamente importante, quer nesta situação de pandemia, quer noutros aspectos da vida em geral. Este é um aspecto que os adultos devem ter sempre em atenção, uma vez que as suas atitudes servem sempre de modelo às crianças, mesmo que não se apercebam desse facto.

A criança deve tomar plena consciência dos riscos, como forma de forçar a sua adesão aos comportamentos e atitudes preventivas?

Conhecendo os riscos, a criança executará melhor as medidas preventivas. No entanto, não se deve esquecer que a explicação dada acerca dos riscos deve ser ajustada ao escalão etário e capacidades cognitivas das crianças a que se destina, para que não se dê origem à tal situação de pânico de que se falava anteriormente.

O alarmismo pode ser perturbador para a criança?

O alarmismo é, de facto, perturbador. Penso que, neste momento, já existem várias crianças perturbadas com esta situação. Neste campo, o papel da comunicação social também é fundamental. Lembro-me, por exemplo, de uma criança de 3 ou 4 anos que esteve internada há cerca de dois meses, que ao ver as notícias na televisão começou a chorar compulsivamente quando ouviu a palavra gripe e os pais disseram “ele não pode ouvir falar acerca da gripe; fica sempre assim…”.

O que aconselha então?

Informação ajustada à idade q.b., ensinando as medidas preventivas essenciais. As crianças gostam de mostrar que estão a cooperar e, de uma forma geral, conseguem executar na perfeição as referidas medidas.

Que informações e ensinamentos devem os pais transmitir aos filhos, sem lhes incutir pânico ou comportamentos anti-sociais?

Os pais devem explicar aos filhos que a gripe é uma doença infecto-contagiosa que afecta primariamente o nariz, garganta e árvore respiratória (sendo o vírus da gripe A um novo subtipo de vírus) que se transmite de pessoa a pessoa, transmitindo-se também através do contacto com objectos ou superfícies contaminadas pelo vírus. Assim sendo, as crianças devem evitar colocar as mãos nos olhos nariz e boca, principalmente após manipularem ou colocarem as mãos em locais de acesso alargado (por exemplo, manípulos de portas), assim como devem evitar contacto com indivíduos doentes. As medidas de prevenção são muito importantes.

Pode elucidar-nos quais as medidas essenciais para uma boa prevenção da doença?

Existem medidas gerais de higiene pessoal e medidas gerais de higiene nos estabelecimentos escolares e outros locais públicos. Relativamente às primeiras, consistem no seguinte: Cobrir a boca e o nariz quando se tosse ou espirra, com um lenço de papel que se deve colocar, em seguida, no caixote do lixo; na ausência do lenço, tapar a boca com o antebraço; em seguida lavar as mãos. Lavagem frequente das mãos com água e sabão ou com solução de base alcoólica (especialmente após tossir, espirrar, assoar-se), entre outras situações, antes de preparar refeições e comer. As mãos devem ser lavadas, pelo menos durante 20 segundos e devem ser secas com toalhas de papel ou ar quente. Evitar contacto com outras pessoas, quando se tem sintomas de gripe e contactar um profissional de saúde (idealmente através da Linha Saúde 24 – 808 24 24 24) que dará indicações acerca do procedimento a efectuar. Se tiver sintomas de gripe, guardar distância mínima de um metro, quando se fala com outras pessoas e evitar beijos e abraços. Evitar contacto com pessoas que apresentem sintomas de gripe.

A colocação de cartazes com a técnica de lavagem correcta das mãos junto de todos os lavatórios em locais públicos, principalmente nas escolas, pode ser de máxima utilidade.

No que diz respeito às medidas gerais de higiene em estabelecimentos públicos, nos quais se incluem as escolas, estas consistem, principalmente, em manter as superfícies, os objectos de trabalho e, por exemplo, brinquedos e outros objectos de utilidade comum, limpos, procedendo à sua lavagem com detergente ou limpeza com desinfectante de forma frequente, idealmente sempre que é manipulado ou muda de utilizador. Outra medida fundamental consiste no arejamento frequente dos espaços.

Qual deve ser o papel dos professores perante este problema?

Os professores devem divulgar informações relativamente à gripe, medidas preventivas e atitudes correctas perante esta situação. Sempre que um aluno apresente febre durante a permanência na escola deve, em primeiro lugar, proceder-se ao seu afastamento das restantes crianças. Em seguida, devem ser contactados os pais. Em caso de dúvida, é aconselhável ligar para a Linha Saúde 24 (808 24 24 24) que dará indicações aos pais ou professores (conforme a situação) do procedimento a efectuar.

Sempre que o Conselho Directivo ou responsáveis da escola identifiquem uma situação suspeita de doença entre funcionários ou alunos, devem telefonar para a Linha Saúde 24, como dito anteriormente. Deve ser promovido o isolamento em casa de profissionais da escola ou alunos que manifestem febre superior a 38ºC e outros sintomas de gripe, até que a situação seja esclarecida.

Em caso de suspeita, como devem proceder os pais?

Os pais devem contactar os Serviços de Saúde, de preferência através, como já foi referido, da Linha Saúde 24. Podem também fazê-lo através do Número Nacional de Emergência (112), principalmente se parecer tratar-se de uma situação grave ou não conseguirem a ligação para o primeiro número.

Se os pais suspeitarem de gripe, não devem levar o doente ao Centro de Saúde, Hospital ou outros serviços de saúde sem contactarem os números anteriores uma vez que vão estar a promover o contágio a outras pessoas ao fazê-lo.

Como devem agir os professores e escolas em geral, perante uma situação de doença declarada?

No caso de se confirmar a doença num profissional da escola ou num aluno, estes não devem frequentar a escola por um período mínimo de 7 dias, ou até que lhes seja dada alta clínica.

Devem permanecer em casa, sempre que possível, para evitar contagiar outras pessoas. Se se deslocarem para fora da residência ou contactar com outras pessoas, devem utilizar uma máscara protectora para boca e nariz e lavar frequentemente as mãos.

O encerramento da escola poderá estar indicado, se existir risco de propagação da doença, mas essa decisão só deverá ser tomada após adequada avaliação epidemiológica pelas entidades competentes e só poderá ser decidida pelas mesmas.

Como encara o recurso aos serviços de saúde e hospitais, considerando que podem representar focos de potencial infecção?

Penso que não deveriam fazê-lo, quando suspeitam de gripe. Essa atitude demonstra respeito pelos demais. Os doentes devem utilizar, como aconselhado, a Linha Saúde 24. Se não o fizerem, e tendo em conta o potencial infeccioso, no Centro de Saúde, Serviço de Urgência Hospitalar ou outro local onde recorram, serão encaminhados para um SAG (Serviço de Atendimento de Gripe) ou para a zona destinada à observação desses doentes, após o que será decidido, em função dos critérios clínicos, quais os passos seguintes.

Evidentemente que o recurso directo aos serviços de saúde e hospitais deverá ser evitado, para evitar a propagação da doença. As pessoas não devem esquecer-se que, ao dirigir-se a um serviço de saúde, e tendo em conta que se a suspeita for gripe, serão encaminhados para locais onde muito provavelmente se encontrarão doentes com essa doença, eles próprios poderão ser infectados com essa deslocação.

Qual é a sua visão global acerca do problema?

Na minha opinião, os procedimentos aconselhados relativamente à gripe são os mesmos que deveriam ser executados relativamente à maioria das situações de doença infecto-contagiosa. Ou seja, perante a situação de doença, contactar a Linha Saúde 24 antes de se deslocarem aos serviços de saúde.

Que cuidados especiais devem ser tomados com as crianças que possam ser considerados doentes de risco?

São consideradas crianças de risco, crianças de idade inferior a um ano, doentes imunodeprimidos e doentes com asma ou outra doença crónica.

As medidas preventivas com estas crianças devem ser ainda mais rigorosas.

Se forem contacto próximo de doente com gripe ou se apresentarem manifestações clínicas compatíveis com gripe, devem também contactar a Linha Saúde 24. Após fazê-lo, devem seguir as recomendações dadas. Estas sim, poderão ser mais rigorosas que as da população geral. Existem orientações técnicas específicas para os profissionais de saúde, fornecidas pela Direcção Geral de Saúde e que são do conhecimento dos mesmos que serão seguidas neste grupo especial.

A auto-medicação assume riscos acrescidos no caso da gripe A; isto é verdade no caso das crianças em especial, ou é válido para toda a gente?

É válido para toda a gente, embora nas crianças as consequências possam ser mais graves.

Acha que se pode mesmo evitar um contágio, ou isso será sempre obra de um acaso?

Sim, é possível evitar o contágio. Está provado que com as medidas de prevenção e controlo, não só teremos uma propagação mais lenta da doença, mas teremos também um número de infectados inferior ao que teríamos sem as referidas medidas.

As medidas de prevenção e controlo permitem ganhar tempo (o que pode permitir a existência de tempo para uma eventual vacina); permitem também melhorar a preparação para enfrentar a fase pandémica (já declarada). Além das vantagens referidas, permitem também diminuir o número de doentes (com consequente diminuição de casos graves e mortes) e, o que é muito importante, permitem diminuir a sobrecarga nos serviços de saúde devido a excesso de procura. Permitem também diminuir a sobrecarga nas escolas, empresas e serviços sociais devido a excesso de absentismo.

A introdução de uma disciplina de Educação para a Saúde tem sido sistematicamente relegada para um segundo plano, em favor de outras abordagens, porventura mais mediáticas e geradoras de polémicas ideológicas. Acha que este poderia ser o momento ideal para lançar uma disciplina deste género, cujos conteúdos programáticos integrassem entre outras matérias, a questão dos contágios e infecções, das mais diversas e perigosas doenças que ameaçam as crianças e jovens?

Sem dúvida que sim. A prevenção das doenças, entre outras, das doenças infecciosas, deve ser uma preocupação fundamental, uma vez que é a medida mais eficaz no combate às doenças. Se esses temas já tivessem sido abordados na escola, de uma forma sistematizada, situações como esta seriam mais facilmente combatidas visto que as crianças já estariam familiarizadas com muitas das medidas que foram adoptadas nesta situação concreta.

A prevenção das doenças é uma atitude fundamental no combate às mesmas. Considero, inclusivamente, que temos obrigação de transmitir esses conhecimentos às crianças e jovens, para possibilitar um futuro com mais e melhor saúde.

Que recomendações especiais gostaria de deixar aos pais, educadores e professores?

Resumidamente, gostaria de dizer que não devem entrar em pânico. As medidas de prevenção são muito importantes e, quer os pais quer as escolas devem facilitar a sua execução. Perante uma suspeita de doença, devem contactar a Linha Saúde 24 e não devem recorrer directamente aos serviços de saúde.

Nesta situação de pandemia, a noção e concretização do respeito entre os seres humanos é fundamental e, tenho esperança, que este se venha a sobrepor a outros que engrandecem menos…