“O nosso sistema de Saúde é dos mais justos mas ainda não chegamos a toda a população”

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Pedro Aguiar é médico e administrador da Esferasaúde, uma rede de clínicas e unidades de meios complementares de diagnóstico e terapêutica. Com presença forte na Maia e noutros concelhos do Norte, aposta em alargar a oferta de serviços ao Centro e Sul e está na sociedade responsável pela criação do hospital de dia previsto para a Maia.

 

Como surgiu a ideia de fundar a Esferasaúde?

A Esferasaúde é uma marca que nasce em Maio de 2008 e surge com o objectivo de aglutinar cerca de 20 unidades na área da saúde, na área do diagnóstico. E porque entendemos que hoje em dia é importante, para o público, ter a presença de uma só marca, unificámos a nossa marca, para que os seus actos e serviços valessem por si só.

A marca surgiu há cerca de dois anos, no entanto já está disseminada por todo o território e principalmente a Norte já tem uma grande presença.

Sim, já estamos presentes em várias localidades do Norte, como por exemplo em Guimarães, Braga e Famalicão. Mas é na Maia que temos uma presença mais forte e onde cobrimos praticamente todas as áreas dos meios complementares de diagnóstico e terapêutica. É nossa intenção também expandir a marca para Sul durante este ano de 2010. Depois da consolidação no Norte e, porque o nosso projecto tem de ter uma progressão gradual, uma vez que os recursos financeiros são limitados, iremos avançar para a zona centro e sul.

Parte dessa consolidação na zona Norte, implica também algo que está já a ser construído aqui na Maia, um hospital de dia, do qual a Esferasaúde faz parte.

Isso mesmo. A Esferasaúde é uma marca que representa esse conjunto de clínicas de diagnóstico e que tem na sua constituição societária a participação do grupo Trofa Saúde. Juntamente com este grupo optou-se pela abertura de um hospital de dia que tivesse duas grandes componentes. A hospitalar, que consiste num hospital, mas ao contrário dos outros hospitais, este apenas funciona das 8h00 até às 24h00. Tem cirurgia, mas sempre de modo ambulatório. Esse hospital precisa de ter também uma estrutura de apoio de diagnóstico, em que entra a Esferasaúde, com a vantagem de conseguir confluir todas as unidades espalhadas pelo concelho da Maia num sítio central, tornando-se assim mais cómodo para o paciente.

De 2008 para cá, o crescimento tem sido sustentado. Acredita que a Esferasaúde presta o serviço que, por vezes, pode ficar de parte no Sistema Nacional de Saúde?

Também. Eu não nego que a nossa exposição de cerca de 70% é com o sistema Nacional de Saúde, portanto a Esfera Saúde está inserida no Sistema Nacional de Saúde. Os restantes 30% passarão por outras entidades, seguros privados, mas é evidente que com a articulação do hospital de dia com o grupo Trofa Saúde, que é um grupo dedicado à medicina hospitalar privada, conseguimos ter uma oferta mais vasta. Nós não nos esgotamos no Serviço Nacional de Saúde, cobrimos outros exames não comparticipados por esse.

Com dois anos de existência, ainda é muito cedo para pensar em como é que estará a Esferasaúde daqui a cinco anos?

Apesar de a marca ter apenas dois anos e o nosso projecto ter um pouco mais, nós temos o prazer de ter quase todas as nossas unidades com mais de 20 anos de actividade. O nosso crescimento foi feito por aquisição dessas unidades. E a juventude da nossa marca e do projecto, acaba por ser recompensado por todos os anos que essas já têm.

Nós temos realmente um plano a cinco anos, que pressupõe atingirmos, em termos de rácios económicos, 50 milhões de euros, que é mais ou menos a duplicação da estrutura actual. E embora estejamos numa época difícil para o país, nós temos o nosso caminho traçado e este ano, apesar das dificuldades, conseguimos crescer 20%.

Crise? Qual crise?

Portanto a Esferasaúde não sofreu com a crise.

Não. Efectivamente não. E deve-se muito à equipa jovem que nós temos. Entendemos que por trás desta evolução está um conjunto de pessoas e eu considero que o grande segredo é escolher as pessoas correctas. Temos realmente uma equipa muito jovem, que aproveitamos das empresas que adquirimos. Não fizemos uma entrada ‘a matar’, são quase todas as pessoas aproveitadas e embora tenhamos feito fusões em alguns lados, estamos a trabalhar essencialmente com as equipas que já vinham das outras empresas, incutindo-lhes a formação e o optimismo. Reconheço que o sector da saúde não foi o mais afectado, uma vez que é uma necessidade básica das pessoas. Ainda que nós em Portugal, em termos de saúde, ainda temos um longo caminho ascendente para fazer.

Uma vez que foca esse ponto, o que é que ainda é preciso fazer no sistema de saúde em Portugal?

Costumo dizer que considero o nosso sistema de Saúde dos mais justos que temos mas ainda reconheço que não chegamos a toda a população. É preciso rectificar esse ponto e, acima de tudo, não pôr em causa a evolução dos cuidados de saúde, dos tratamentos, etc., por questões financeiras. Pois se nós, dentro da Esferasaúde, temos cuidados na formação, era importante que quem manda neste país estivesse preparado para acompanhar a evolução que a tecnologia e que os tratamentos fazem, que realmente são tremendos. A única dificuldade é realmente os juros que temos de pagar à banca com o investimento na tecnologia.

A Esferasaúde sofre com o encarecimento da tecnologia? Custa muito manter essa panóplia de equipamentos?

Custa. Realmente é dos principais custos que temos na organização. E falou numa área em que isso é por demais evidente. A área de radiologia é uma área onde exige isso e cujo grande problema é a evolução constante dos equipamentos, com o que temos de ter o cuidado de estarmos sempre actualizados. Ou seja, temos de acompanhar a tecnologia, mas entender que há tecnologia que vai para além do que é necessário.

Quando a Esferasaúde adquiriu as clínicas que agora administra, estavam bem equipadas, ou houve algum tipo de investimento nesse âmbito?

Havia um pouco de tudo, mas 90 por cento estavam efectivamente mal equipadas, ou se estamos a falar de unidades de fisioterapia, tivemos um forte investimento em obras, não tem tanta tecnologia, mas tivemos de fazer obras em quase todas, de maneira a receber melhor as pessoas.

No que toca aos utentes, estes notaram alguma diferença aquando da mudança para a Esferasaúde?

Era a nossa grande dúvida, mas felizmente, ao fim de estes quase dois anos, notamos que não tivemos o impacto negativo que estávamos a prever numa primeira fase. Nós tivemos o cuidado de lançar a marca em primeiro lugar para os nossos colaboradores internamente, ou seja, nós não conseguiríamos chegar bem ao cliente final, se não tivéssemos bem internamente. O sucesso da marca passou muito por aí. Primeiro aglutinar e transmitir os valores internos da marca para os nossos colaboradores e depois sim, passamos para fora, e realmente não houve grandes problemas com isso.

Qual é a grande aposta da Esferasaúde para 2010?

A nossa grande aposta para 2010 será a consolidação deste projecto da Maia, a unidade nova nos Carvalhos, de radiologia, que começou de novo, adquirir mais uma ou duas unidades a Norte do país, e por fim, mas não menos importante, arrancar em Lisboa. Estou convencido de que na parte final do primeiro trimestre teremos uma unidade na zona da grande Lisboa.

A Esferasaúde vai continuar a apostar somente no sector de diagnóstico, ou está em vista também a parte mais clínica?

Não. Nós vamo-nos focar só no sector de diagnóstico e deixamos essa parte aos nossos parceiros da Trofa Saúde.

Como surgiu este estreitamento de laços com a Trofa Saúde?

Acontece num momento de reflexão que nós tivemos e que vem no seguimento do que perguntou no meio da entrevista em relação aos exames aos quais o sistema Nacional de Saúde não dá resposta. É bom que haja uma resposta global para tudo o que são necessidades de saúde. E nós fomos procurar um parceiro que estivesse na parte privada da medicina. Nós temos o diagnóstico e eles têm o tratamento. Finalmente, porque também era um projecto recente, como o nosso e com alguma confluência de valores e objectivos estratégicos, que foram determinantes para a união.

Como é administrar a Esferasaúde?

É fácil. Hoje em dia a liderança das empresas tem de ser compartilhada. O grande objectivo foi ter que construir uma equipa de pessoas da nossa confiança, fomos buscá-las às unidades que compramos, e é essa equipa de líderes que constituem a empresa. E a partir do momento que está constituída uma equipa e essa equipa acredita no projecto, tudo se torna mais fácil.