Opinião Aloísio Maia : Era só fumaça

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Um dia, o Governo fartou-se e entrou em greve, pronto. O Almirante Pinheiro de Azevedo, o Sem-Medo, primeiro-ministro que com galhardia e pundonor governava o país em preparos de forcado amador, arreliou-se com a enésima manif de padeiros ou pedreiros (já não me lembro) e declarou o Governo em greve. “Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá!”, dizia. Ainda hoje é um inédito mundial.

Era um homem às direitas, a quem o país ainda não fez a justiça devida

Lembro-me bem daquele tempo: O ar fervia de electricidade, a boatada campeava e, ao menor solavanco, a malta, em estado de prontidão absoluta, deitava mão às mocas e outras contundências que, em espírito de missão, guardava na mala dos minis e outros chaços que havia na altura, à espera do sinal para marchar sobre Lisboa.

Circulavam, em mãos pouco recomendáveis, mandatos de captura do COPCON, assinados em branco, que os revolucionários, na defesa da Revolução, usavam para curar invejas de comadres e desavenças antigas com o vizinho do andar de cima, por causa da altura da música ao domingo de manhã.

Metralhadoras, vindas não se sabe de onde, eram distribuídas a granel e enterradas nos quintais, embrulhadas em oleados.

Os padres já se viam de cartucheira à tiracolo, à frente da milícia, como no tempo do senhor D. Miguel, e do púlpito ameaçavam os ímpios comunas com as labaredas do inferno e com um ou outro zagalote.

Enfim, ninguém fazia puto. E muito bem, pois era o futuro do país que se jogava em comícios perenes, só interrompidos para ver a bola, e isso não se coadunava com as minudências do trabalho.

Num tempo sem Playstations e só com canal e meio de TV a preto e branco, para um miúdo de 9 anos, era como viver dentro da Eurodisney.

Felizmente que tudo se acomodou e era mesmo só fumaça à mistura com algum marialvismo.

Viva o 25 de Novembro e quem o apoiar.

Aloísio Maia