Os desafios da Europa perante o terrorismo

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No âmbito da Exposição “World Press Photo” e do “Ano Europeu para o Desenvolvimento”, a Câmara Municipal da Maia promoveu a conferência “As Novas Ameaças à Segurança da Europa: Estado Islâmico, Terrorismo e Xenofobia”. Esta iniciativa, que contou com a presença de dois especialistas em questões internacionais, Bruno Cardoso Reis, assessor no Instituto de Defesa Nacional, investigador no ICS e no King´s College, e Fernando Jorge Cardoso, coordenador da área de estudos estratégicos e do desenvolvimento do Instituto Marquês de Valle Flor e investigador associado do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, foi moderado por Paulo Ramalho, vereador das Relações Internacionais da Câmara Municipal da Maia.

O presidente da autarquia, Bragança Fernandes, na sessão de abertura da conferência, abordou a crise dos refugiados do Mediterrâneo, que fugindo da guerra procuram no território Europeu um espaço seguro para prosseguirem as suas vidas, e para a qual a União Europeia necessita encontrar urgentemente respostas à altura das suas responsabilidades e valores, não podendo os bárbaros ataques terroristas de Paris promovidos pelo Estado Islâmico, colocar em causa a postura de acolhimento e solidariedade dos europeus para com os refugiados e imigrantes.

A maior ameaça à ordem global

O autoproclamado Estado Islâmico é, segundo Bruno Cardoso Reis, “possivelmente a maior ameaça à ordem global desde o fim da Guerra Fria, e em particular, à segurança na região do Mediterrâneo”, constituindo-se inclusive como “um grupo tão radical que a Al-Qaeda rompeu com ele por o considerar demasiado violento e ambicioso no seu objectivo de acabar com todos os Estados existentes no Médio Oriente e substitui-los pelo regresso a um Califado unificado como no tempo de Maomé e dos seus sucessores”. Bruno Reis identificou ainda como um dos problemas, o facto de enquanto o Estado Islâmico ou “Daesh”, como também é conhecido, nos últimos anos, “crescia em recrutas, territórios e recursos, os seus vizinhos mais poderosos iam-se ocupando com outras prioridades, a Arábia Saudita, com o combate ao Irão xiita e aos seus aliados, a Turquia, preocupada sobretudo em afastar Assad da liderança da Síria e evitar qualquer expansão de território sob controlo dos Curdos, o Irão e a própria Rússia, principalmente preocupados em defender o seu aliado Assad, e os Estados Unidos e os seus aliados, sobretudo preocupados em minimizar o seu envolvimento na região”. E na sua convicção, enquanto o Daesh “não for o inimigo principal dos principais Estados, a ameaça continuará”. Sendo que “para ser derrotado, o Daesh tem de ser isolado, nomeadamente cortando o acesso à Turquia e acabando com o seu tráfico de combustível e antiguidades, o seu abastecimento de munições, o seu recrutamento de voluntários no Médio Oriente, na Europa e mesmo noutras regiões do mundo”. Não vislumbrando Bruno Cardoso, como será possível “que este proto-estado revolucionário messiânico se modere no uso de todos os tipos de violência, desde a guerrilha a meios mais convencionais até ao terrorismo transnacional com base numa rede de propaganda e recrutamento global assente no uso extremamente competente de todo o tipo de redes socias na internet. Caso contrário, o Daesh continuará a representar uma ameaça nunca vista à vida de milhões de iraquianos e sírios, à estabilidade do Médio Oriente e à sua segurança e dos países ocidentais, em particular da Europa”. Sendo que “combater e destruir o Estado Islâmico não será tarefa fácil, não bastam uns quantos ataques aéreos, exigirá uma grande coligação, com a participação de tropas de países muçulmanos e um plano realista para a região”, adiantou ainda o Prof. Bruno Cardoso.

O medo

Por sua vez, Fernando Jorge Cardoso, reforçou a ideia que “o terrorismo é uma das principais ameaças à Europa, não tanto pela morte de pessoas e pela destruição de bens, mas principalmente pela limitação das liberdades individuais e de circulação, e pelo medo que alimenta ideias e movimentos populistas e xenófobos, o que reforça as posições antieuropeístas”. Sendo a actual crise dos refugiados ”um exemplo evidente deste tipo de consequências, com países europeus a construírem muros para impedir a entrada de estrangeiros”. Neste contexto, Fernando Jorge sublinhou a importância de se recordar que “ a guerra na Síria e no Iraque, bem como os movimentos de grupos armados que reivindicam uma visão arcaica e literal do Corão, inspirada na interpretação salafita, são vistos como ilegítimos pela esmagadora maioria das organizações e estados islâmicos que consideram que o terrorismo do Daesh, mais que uma luta contra o ocidente, é uma luta contra o próprio Islão”. Devendo, em sua opinião, considerar-se que “as posições xenófobas e anti-islâmicas na Europa e nos Estados Unidos são produto da ignorância, do medo e do oportunismo político de líderes populistas”. Fernando Jorge lembrou ainda, que “hoje é consensual entre analistas, que a força militar destes grupos minoritários, como o Daesh, é o resultado de duas decisões estratégicas desastradas. Uma, a da destruição do Estado Iraquiano pela administração norte-americana que levou à deserção de altas patentes militares iraquianas para o califado, outra, a decisão de derrubar o regime de Kadhafi na Líbia, com a França a desempenhar papel de relevo, que levou à desagregação do Estado Líbio, ao desaparecimento do maior paiol de armas em Africa para as mãos de grupos milicianos e terroristas, e ao descontrolo total das fronteiras no Mediterrâneo, com a instalação do negócio do transporte de refugiados e migrantes económicos para as costas da Europa”. Em suma, “as acções terroristas de hoje são protagonizadas por militantes radicalizados e organizados no Daesh, e é a eles que tem de ser atribuída a responsabilidade dos crimes que cometem em nome da religião, mas essa inabalável responsabilidade não deve fazer esquecer, até para aprendizagem futura, que o seu crescimento em termos militares se fez à custa de estratégias de intervenção externa pouco inteligentes e de financiamentos Sauditas a mesquitas e madrassas de inspiração salafita, nas quais foi pregado o ódio ao ocidente, e de alguma forma, ao próprio islão”, concluiu Fernando Jorge Cardoso.

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Sobre o significado e importância deste evento, Paulo Ramalho sublinhou que se trata de “uma iniciativa que a Câmara Municipal promove anualmente, desde 2011, no âmbito da Exposição World Press Photo, sobre um tema da actualidade internacional, que tem já um público fiel, e por onde já passaram diversos especialistas, como por exemplo o Dr. Azeredo Lopes, actual Ministro da Defesa”, destacando ainda a importância da promoção “de reflexões que visem contribuir para o esclarecimento da sociedade civil, sobre realidades que afectam a nossa vida quotidiana, e que muitas vezes nos passam despercebidas ou até as ignoramos por acontecerem longe de Portugal, esquecendo nós que o fenómeno da globalização tornou tudo tão perto e tão próximo. Por exemplo, não temos dúvidas que a maior parte dos cidadãos europeus apenas acordaram para a gravidade e dimensão do fenómeno Estado Islâmico com os recentes atentados de Paris…, da mesma forma que não duvidamos que muitas das pessoas que assistiram a esta nossa conferência só ali perceberam que uma boa parte do financiamento do Estado Islâmico advém da venda de petróleo no mercado negro, a preço muito inferior ao do mercado regular internacional. Sendo que só a região de Mossul, que se situa no norte do Iraque, e que está actualmente sob o domínio do Estado Islâmico, tem capacidade para produzir mais de um milhão de barris de petróleo por dia. Petróleo que é transportado em camiões- cisterna, que alguém compra e paga…precisamente ao Estado Islâmico.” Paulo Ramalho referiu ainda que “o prestígio que estas conferências estão a alcançar se relaciona muito com a qualidade dos especialistas que escolhemos para participar nas mesmas, que pretendemos sempre que sejam pessoas altamente qualificadas, conhecedoras das matérias e com real capacidade para esclarecer, ou seja, que acrescentem valor à discussão.”

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