Parceria, legalização e alargamento para o zoo da Maia

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Protocolo entre Câmara da Maia e Junta de Freguesia, com vista ao alargamento, é assinado no domingo; Zoológico vai passar a ocupar o triplo do espaço, num processo decisivo para a legalização final

“Com o alargamento, o Jardim Zoológico vai ficar com o triplo do espaço”. Quem o diz é o presidente da Junta de Freguesia da Maia, Carlos Teixeira, que é simultaneamente o director do Jardim Zoológico da Maia, há mais de vinte anos.

O alargamento do parque vai permitir um conjunto de infra-estruturas que antes não existiam: “Vamos ter um espaço para um espectáculo de focas ao ar livre e também um espaço de quarentena para os animais que até agora nos era impossível fazer por falta de capacidade estrutural, e que é importantíssimo. Os animais agora estão muito concentrados. Queremos também que eles estejam mais dispersos, em habitats mais em harmonia com a sua origem. Vamos procurar o pormenor. Seleccionar por continentes. Um cenário para o continente africano, outro para o continente americano e assim por diante”, diz Carlos Teixeira. Outra das alterações é a melhoria das condições para os animais: “Devido às novas leis que regulamentam as regras para os parques zoológicos, que são bem mais rígidas, e ainda bem, fomos obrigados a criar outro tipo de condições para os animais. Daí o alargamento ser importantíssimo porque nos vai permitir ter jaulas maiores e com condições bem melhores”.

Em relação ao tipo de animais que o Jardim poderá ter após o alargamento, o director aponta as espécies raras e animais jovens, “para que possam procriar”, no entanto confessou que há duas espécies que merecem a sua preferência: “Gostava de ter cá uma girafa e um elefante porque são muito atractivos para as crianças. Infelizmente não nos tem sido possível por falta de espaço e condições. E mesmo com o alargamento não sei se será possível”, concluiu.

O presidente da Junta de Freguesia da Maia olha para o futuro e aponta um prazo para o final da obra de ampliação: “No máximo, até final do ano. Até já estamos a preparar tudo. Contactámos técnicos e arquitectos paisagistas para tornar tudo muito mais harmonioso. Gostava de fazer do Zoo da Maia, que é pequenino, um dos melhores do país em termos de qualidade. Até porque os objectivos do Jardim Zoológico são a procriação, a preservação, e, para além disso, nós aqui temos milhares e milhares de estudantes que vêm cá e que devem levar uma imagem positiva e que aprendam alguma coisa no Jardim”.

A legalização do Zoo é também um objectivo fundamental para Carlos Teixeira, atendendo às leis de regulamentação de parques zoológicos. “Estamos a preparar a legalização do Zoo da Maia para breve. Daí o alargamento ser muito importante”, salienta.

Outro dos grandes projectos dos próximos tempos é a criação de uma parceria entre entidades públicas e privadas: “Essa é uma das principais razões, senão mesmo a principal, para a minha recandidatura à Junta. Queria deixar a gestão do jardim numa parceria entre a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal da Maia, que passará a estar envolvida na parte administrativa e de qualidade do Jardim e uma entidade privada que possa aparecer”, diz Carlos Teixeira.

Carlos Teixeira adiantou uma média de 500 mil visitantes por ano no jardim da Maia, mas afirmou que podem ser mais “Há muita gente que não paga, também devido à crise, e, por isso, a estimativa é feita sempre por defeito”, e aponta as crianças como a maioria: “As escolas são o maior número de visitantes que nós temos”. Carlos Teixeira é o autarca mais antigo do concelho da Maia, adiantou também que o Jardim Zoológico goza de um certa independência financeira: “As nossas receitas vão-nos dando para gerir o Zoo”, finalizou.

Animais deliciam crianças

Numa manhã solarenga, crianças, acompanhadas por educadoras e professoras, começam a chegar em várias camionetas, vindas de vários pontos do país, ao Jardim Zoológico da Maia. O dia começa com o espectáculo dos leões-marinhos, onde os mais miúdos ficam deliciados com as habilidades do “leãozinho” e sua treinadora. Pelo meio de malabarismos, traquinices e mergulhos, o leão-marinho ainda tem tempo para dar alguns “beijinhos e miminhos” aos mais pequenos, que riem e aplaudem na plateia. O espectáculo tem também uma parte educativa onde os mais pequenos aprendem a distinguir uma foca de um leão-marinho e também são sensibilizados para a reciclagem através de uma lição dada pelo animal. No final do espectáculo, o leão-marinho distribuiu carinhos por todos os meninos e meninas que quiseram ter uma interacção mais próxima.

A treinadora, Odete Tomás, brasileira de nascimento, trabalha com animais marinhos há 32 anos: “Já trabalhei com golfinhos, orcas, elefantes marinhos, focas e leões-marinhos”. Odete foi convidada por uma empresa da América do Sul e não hesitou: “Há 32 anos, na Argentina convidaram-me para fazer espectáculos, perguntaram-me se eu tinha paciência e amor aos animais. Naquele mesmo dia comecei a treinar, na altura com golfinhos”. A treinadora dos animais marinhos do Zoo da Maia deixa também elogios ao seu parceiro de actuação: “É muito complicado preparar um espectáculo destes, até porque há animais que aprendem mais rápido que outros, são como as pessoas. Este aqui é muito inteligente. Aos três meses já fazia pequenas actuações e aos seis já actuava sozinho”, confidenciou Odete.

A visita dos mais pequenos prosseguiu com o almoço no novo parque infantil do Jardim Zoológico e a visita ao reptilário, pouco antes de poderem ver os animais que estão espalhados pelas diversas jaulas do Zoo. Pelo meio de brincadeiras, correrias e a excitação própria da idade, as crianças elegeram os macacos e os animais de grande porte, leões, panteras, tigres e leopardos, como sendo os eleitos das suas preferências: “Gostei dos macacos e do tigre. É divertido vir ao Zoo”, disse João. André partilha da mesma opinião “Gostei dos macacos, do jaguar, do tigre e das zebras. Eu já tinha vindo a um zoo mas gosto na mesma”, bem como o pequeno Alexandre: “Gosto muito de vir ao Zoo, e gosto muito do jaguar, dos macacos e do hipopótamo”.

Rui Costa é tratador dos animais de grande porte e condutor do comboio turístico quando necessário. Começou por chegar ao zoo através de um programa de recuperação: “Já trabalho no Zoo da Maia há nove anos. Eu vim parar a Junta de Freguesia da Maia porque houve uma altura em que estive a fazer tratamento. Na altura era motorista mas não podia conduzir, por isso, comecei a trabalhar com os animais, com colegas que me foram ensinando, até porque é muito perigoso andar sozinho para fechar e abrir jaulas, ou mesmo entrar nelas. Fui-me habituando a fazer este serviço e agora, para além de motorista da Junta e do comboio turístico, trabalho com os animais.”. No entanto, Rui Costa afirma que não é fácil trabalhar com animais que normalmente a maioria das pessoas não tem coragem sequer de se aproximar: “É uma responsabilidade muito grande. São animais que é preciso ter muito respeito por eles e é preciso ter muito cuidado tanto a abrir e fechar as portas, como a tratar deles”, e deixa um aviso “é preciso ter muito cuidado”. “Por acaso nunca tive nenhuma situação mais perigosa, mas temos que ter sempre presente que um descuido é a morte do artista, como se costuma dizer. Quando os animais ficam agressivos, é porque alguma coisa não está bem. Nós, como trabalhamos com eles diariamente, apercebemo-nos e comunicamos logo ao veterinário para evitar situações de perigo”.

Paula Telinhos trabalha no Jardim Zoológico há 15 anos, faz parte da equipa técnica “onde entre tratadores e equipa técnica, trabalham cerca de 15 pessoas” e revela que faz de tudo um pouco: “Tratamos de tudo o que tenha a ver com o funcionamento do zoo. Desde a orientação dos empregados, o bem-estar dos animais, manutenção dos habitats, dietas alimentares e ajudo na parte clínica, onde, junto com o nosso veterinário, faço a parte de enfermagem. Os projectos pedagógicos e científicos também passam pela equipa técnica”. Paula Telinhos diz que a vertente pedagógica é muito importante: “Agora todos os Zoológicos são obrigados a ter uma vertente pedagógica. Têm um projecto que é apresentado às autoridades e avaliado anualmente. Dentro do projecto pedagógico, uma das coisas que temos é a sala de incubação, onde falamos da incubação artificial, comprando-a à natural, explicamos o que é o desenvolvimento embrionário, tudo isto adaptado à faixa etária das crianças que nos visitam. Também mostramos ovos porque nós aqui temos diversas variedades de ovos, e eles normalmente só conhecem os ovos de galinha. Também mostramos a incubação em répteis. Apesar de toda gente poder vir, esta sala só funciona com visitas marcadas e com poucos visitantes de cada vez”. Paula fala também do largamento do Zoo, que considera de extrema importância: “O facto do Zoo poder ser alargado é a nossa maior vitória neste momento. Com este alargamento vamos poder criar habitats novos, onde vamos colocar animais que já temos, o que nos vaio permitir reestruturar os habitats de onde vão sair esses animais. Vamos ter alterações muito grandes a curto e médio prazo. No entanto, as obras não vão interferir com as visitas do público”. Em relação à forma de funcionamento do Zoológico, a técnica fala sobre alguns procedimentos: “Sempre que precisamos de algum animal, vamos procurar nos excedentes de outros Zoos, tal como o contrário também acontece. Os outros zoos vêm buscar animais aqui”, e revela as dificuldades quando algum animal adoece: “Os mais complicados são os animais de grande porte. Quando estão doentes é preciso sedá-los para os tratar senão torna-se muito difícil porque podem não aceitar bem a presença das pessoas”, concluiu.

Depois de um dia entre o espectáculo marinho, répteis e a visita aos animais do zoo, as crianças regressaram sorridentes, mas também cansadas, às suas escolas. No entanto, todos concordam que querem voltar a visitar os “animaizinhos”.