“Penso que a Maia vai mostrar às pessoas que vivem aqui e ao país, que é possível mudar”

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Paula Teles é engenheira e administradora da “m.pt”, empresa de planeamento urbano e gestão da mobilidade, e é a coordenadora do Plano de Mobilidade Sustentável do Concelho da Maia. A empresa foi a vencedora do concurso público lançado pela Câmara Municipal da Maia, no início de 2008, para a elaboração do Plano de Promoção da Acessibilidade.

É licenciada em Engenharia Civil. Começou por ser funcionária da Câmara Municipal de Matosinhos, onde trabalhou durante 10 anos. Foi convidada pela Universidade de Aveiro para dar aulas e coordenar um projecto de âmbito nacional – Rede Nacional de Cidades e Vilas com Mobilidade Para Todos. Um projecto “pioneiro” em Portugal e na Europa, na altura, e que ao fim de dois anos estava a ser utilizado por uma centena de municípios. Paula Teles fundou e preside o Instituto de Cidades e Vilas com Mobilidade. É presidente da Comissão Técnica de Acessibilidade e Mobilidade e representa Portugal em Bruxelas.

PRIMEIRA MÃO – A Maia foi uma das autarquias a apresentar a candidatura ao Quadro de Referência Estratégica Nacional para a elaboração do Plano de Mobilidade Sustentável. É, aliás, um dos 20 municípios integrados neste projecto-piloto. Como está a decorrer o desenvolvimento deste projecto?

PAULA TELES – Numa altura em que há legislação que impede, continuamos a ter e a desenhar cidades e vilas com barreiras. Arquitectos, engenheiros, os planeadores do território, insistem em ignorar essa matéria Era muito importante que os governos lançassem projectos mais fortes e com algum financiamento. Eu penso que a Maia vai dar um belíssimo exemplo do trabalho de planeamento. Porque hoje, independentemente de eliminarmos barreiras pontuais, a verdade é que continuamos a desenhar mal e a projectar mal. Tão importante como eliminar os problemas no terreno, é planear bem, projectar bem, porque senão vamos continuar a ter problemas e a ter de fazer grandes investimentos para eliminar as barreiras. Daí que o meu trabalho é muito determinado no planeamento e na gestão da mobilidade. Planear as cidades, planeá-las bem desde o início, fazer tudo plano, evitar degraus e barreiras complicadas, evitar que o mobiliário urbano tenha arestas, que as coisas estejam de forma avulsa e espalhada, sem qualquer ideia no meio do território. É necessário tornar as coisas mais simples, mais fluidas, com percursos mais acessíveis.

Penso que a Maia vai mostrar às pessoas que vivem aqui, e ao país, que é possível mudar. Estes planos têm um carácter muito pedagógico. No próximo ano vamos terminá-los quase todos, com um congresso de âmbito internacional, vamos fazer relatórios para entregar ao Governo e vamos agilizar mecanismos para que o Governo passe a criar instrumentos de planeamento obrigatórios e que dê soluções aos técnicos que não fazem as coisas bem feitas, desde o início. Acho que há aqui um trabalho muito grande e de lhe tirar o chapéu, porque já passou à história a ideia de que as cidades têm poucos deficientes ou que as cidades não são para os velhos, que as cidades não são para as crianças. A cidade é para toda a gente.

E não estamos a falar só de tornar as cidades mais acessíveis para as pessoas com deficiência, mas para todas as pessoas, como, por exemplo, a mãe que leva o carrinho do seu bebé e que tem grandes dificuldades em contornar muitos dos obstáculos que encontramos nas cidades.

Eu costumo dizer que não trabalho para as pessoas com deficiência. Eu trabalho para mim própria. Faço projectos para ajudar as pessoas. O meu campo não é o da engenharia e da arquitectura. É o campo da solidariedade social. Cada puxador que eu coloco, cada espelho que eu ponho com mais inclinação para o David, que é um exemplo fantástico, que vive em Leça e está tetraplégico, poder entrar numa casa-de-banho e ver-se ao espelho ou colocar uma simples rampa para entrar numa piscina municipal. São estes pequenos detalhes que fazem do nosso trabalho de projectistas uma vida fantástica. Percebermos que quando nos deitamos, que cada detalhe que eliminamos, cada barreira que tiramos da rua, cada mobiliário urbano que arrumamos do passeio, cada elevador ou plataforma que colocamos num edifício, pode ser uma vida nova que começou. São estas, realmente, as Cidades de Desejo.

Esse é o título do livro que editou recentemente, com linguagem em Braille. É essa a mensagem que pretende transmitir, neste livro?

Uma cidade acessível não é só aquela que está materializada no espaço público ou no edificado. Hoje, há várias formas de acessibilidade. Uma pessoa que seja muito deficiente, que tem uma incapacidade de maior nível, pode nunca sair de casa. Então, como é que ela vai descobrir o Mundo? Hoje, há novas formas de descobrir o Mundo. Uma delas é através dos computadores. As tecnologias da informação fazem com uma pessoa numa cama, através de um computador, possa entrar no messenger e falar com toda a gente. Com os cegos é exactamente a mesma coisa. Enganamo-nos quando pensamos que todos os cegos lêem Braille. Só cerca de 30 por cento dos cegos aprenderam Braille. Não adianta fazer grandes livros em Braille, quando não chegam a todas as pessoas. Hoje, o Mundo é outro, através dos computadores que já têm sistemas electrónicos que conseguem transformar as letras dos documentos do Word em som. E numa imagem, descrevemos essa imagem. É essa descrição que passa para som, permitindo que, em casa, possam ter acesso a toda a informação. Os meus livros e tudo aquilo que eu vou fazendo têm sempre uma referência em Braille. Não é tudo, apenas algumas indicações que levam o cego a entrar no mundo das tecnologias. E lá está o livro em formato que eles podem ouvir, e em formato que as pessoas que já não vêem bem, como as idosas, possam ler (www.paulateles.pt ou www.institutodemobilidade.org). Todos os trabalhos estão transformados em letras maiores. Por isso é que no plano de acessibilidade da Maia fizemos uma avaliação a tudo o que é comunicação da câmara. Ou seja, o cartão do presidente, os boletins municipais, os papéis de ofício, as revistas, as cartas. Todos os documentos que a câmara imprime em papel, analisamos e dizemos se estão em conformidade com as incapacidades das pessoas. Todos os sites, todas as plataformas electrónicas que a câmara tem e que servem de comunicação entre a câmara e o munícipe, estão a ser analisadas por nós e estamos a dar sugestões para que sejam acessíveis.

 

Plano prepara as “cidades de desejo”

O Plano de Mobilidade Sustentável da Maia já está pronto?

Está praticamente na fase final. Era constituído por três fases. A primeira fase era a de diagnóstico dos cinco eixos estruturantes que estamos a trabalhar em torno da promoção da acessibilidade: 1- Edifícios; 2 – Espaço público;, 3 – Transportes; 4 – Infoacessibilidade; 5 – Design e comunicação. Trabalhamos todo o diagnóstico e fizemos propostas de correcção. Estamos a aguardar que a autarquia dê o parecer final das nossas propostas para fazer o pacote final, juntamente com o regulamento e com peças desenhadas que vão ser tipo normativos para a autarquia. Portanto, penso que em Março terminamos o plano da Maia de uma forma muito interessante e participativa.

E depois?

A câmara fica com um documento precioso. É tão inovadora nesta matéria, em Portugal, porque, pela primeira vez, estamos a fazer planos de acessibilidade e mobilidade em sistemas de informação geográfica. Ou seja, cada barreira que nós identificamos na rua, por exemplo, um pilarete fora do sítio, um sinal no meio de um passeio, cada elemento urbano está identificado em coordenadas de GPS numa planta. Os elementos formam um corredor que dá uma linha vermelha, que significa que aqueles corredores são inacessíveis. Entregamos esse material à câmara, e cada vez que eliminar um obstáculo, o vermelho passa para verde. Ou seja, se a câmara tomar a decisão de colocar na plataforma electrónica do site, todo o trabalho que foi efectuado e que está definido por manchas e linhas verdes e vermelhas, o munícipe vai estar em casa e vai saber, por exemplo se tiver um bebé qual o percurso que pode fazer, que será o que está a verde. E ao mesmo tempo, a câmara vai poder monitorizar esse plano. É um trabalho preciosíssimo, que para além de ser notável, do ponto de vista político, vai permitir que a câmara tenha um plano estratégico de intervenção.

O centro da Maia é uma cidade moderna. Encontraram muitos obstáculos?

Sim, ainda. É preciso mudar as mentalidades e os desenhos. Uma senhora com tacão alto tem muita dificuldade em andar numa calçada à portuguesa. É só perceber isso. O arquitecto tem de ter a paciência de criar, nem que seja integrado nos passeios, um corredor que tem de ser de 1,20 metros, que seja confortável e acessível. Uma calçada em cubo é muito inconfortável. Uma cadeira de rodas trepida, um carrinho de bebé anda aos saltos. Caímos no ridículo de ter câmaras que põem tapetes para os carros e quando chega a passadeira põe cubo. É uma questão de desenho, de solução técnica.

Os problemas encontrados no centro da Maia e nas restantes zonas do concelho a intervencionar são fáceis de corrigir?

Claro que sim. Este centro da cidade já é um espaço com muita preocupação, tem passeios grandes…

Mas depois coloca-se outro problema, que é a falta de civismo de muitas pessoas que aproveitam esses passeios para estacionar os carros.

E depois, põem pilaretes em cima, e lá vou eu dizer para os tirarem. A falta de civismo acaba por cruzar com o problema de mobilidade e a falta de acessibilidade. E dos próprios comerciantes que colocam toda a mercadora na rua e que destroem os sistemas de continuidade dos passeios. Mas voltando ao caso da Maia, tem um trabalho notável. O próprio metro limpou muita coisa. O metro do Porto é, talvez, um dos melhores exemplos a nível internacional da acessibilidade para todos. Não só o transporte é acessível, como limpou os corredores por onde passa – casas que de deitaram abaixo, ruas que se aumentaram, largos que foram feitos. Se me perguntasse qual foi a obra que eliminou mais barreiras eu dizia que era a Metro do Porto.

A Câmara da Maia tem feito outros trabalhos. Estivemos a diagnosticar 10 zonas do concelho. Posso dizer que o maior projecto a nível nacional é o da Maia, com toda a convicção. Foi muito ambicioso. A nível dos edifícios analisamos 197 edifícios. Cada câmara, em média, analisa 20 edifícios. Estivemos a trabalhar, quase sem parar, durante meio ano, com equipas de arquitectos no terreno a analisar os edifícios. Claro que a câmara vai ficar com um espólio enorme. É só reflectir e decidir prioridades de intervenção.

E vai ter muito onde investir…

Pois. Mas é um trabalho notável. Mesmo a outras áreas urbanas são muito importantes. Como a zona de Moreira; a zona de Santana, em Gueifães, que tem desenvolvido muito em termos urbanísticos; todas as antigas áreas das nacionais 13 e 14 em que as urbanizações foram crescendo em torno delas. São áreas prioritárias. No que tem a ver com espaço público, acho que a câmara apostou muito bem. Simultaneamente, a câmara da Maia tem feito imensas formações com os técnicos para explicar esta matéria, para aprenderem a desenhar melhor, temos feito reuniões com todas as juntas de freguesia, estamos também a trabalhar com as crianças nas escolas para criar já esta sensibilização. Há um conjunto de matérias transversais que estão a ser desenvolvidas para colmatar a questão da barreiras, no futuro.

Numa entrevista ao PRIMEIRA MÃO, o vice-presidente da autarquia, António da Silva Tiago, disse que a execução deste plano é um objectivo estratégico. Qual é o sentimento que fica ao ouvir isto? Penso que tem grandes expectativas em relação à execução deste plano.

Tenho muitas expectativas e fico muito contente por ouvir o vice-presidente dizer isso. Efectivamente, é necessário que os políticos entendam que isto é um plano estratégico, porque quando temos uma forma de entregar um trabalho em sistema de informação geográfica que vai permitir monitorizar, estamos a fazer com que o nosso trabalho seja utilizado como um belíssimo instrumento de apoio à decisão. Vai dar rumo ao próprio município. É uma coisa fantástica. As nossas cidades de desejo é, simplesmente, chegar à rua ou ao largo ao lado e resolver tudo de uma forma tão fácil, eliminando um simples degrau ou fazendo um passeio maior.

Fernanda Alves