Refood Maia reinventou-se durante a pandemia

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Refood Maia
imagem de arquivo
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O núcleo Refood Maia Centro iniciou a sua atividade em 2016, recolhendo refeições de restaurantes e outros estabelecimentos para distribuir por pessoas mais carenciadas. A sua ações tinha dois objetivos: reduzir o desperdício alimentar e ajudar a alimentar quem precisa.

Quisemos saber como a Refood na Maia desempenhou a sua função ao longo da pandemia. Nesta entrevista o vice-coordenador da Refood Maia Centro, Ângelo Soares, explica que houve uma adaptação, mas a ação não parou.

Como é que a Refood Maia Centro teve que se adaptar às novas condições da sua missão em pandemia?

Quando foi o primeiro confinamento (em 13 de março de 2020) tivemos que reagir de emergência. Naquelas semana começamos por impor regras de segurança e, no fim da semana, tivemos mesmo que fechar. Nessa altura, tivemos que distribuir tudo o que tínhamos na despensa, em cabazes, para dar às pessoas uma espécie de almofada.

Nessa altura qual era o número de pessoas atendidas pela Refood?

Devia andar pelas 70 pessoas. Estivemos fechados quase dois meses, tendo nesse período distribuído alguns cabazes que conseguimos angariar ou até comprar, porque, felizmente, tínhamos algum dinheiro. Fizemos os cabazes e marcámos um dia com horários bem diferenciados para as pessoas irem levantar os cabazes.

As nossas famílias foram inscritas também na resposta que a Junta de Freguesia e a Câmara da Maia tinham organizada através da Santa Casa e, portanto, durante aquele tempo de encerramento da Refood receberam também apoio a partir dessa ajuda.

Algures, em meados de Maio, reabrimos, mas nunca conseguimos voltar a abrir como antigamente, pois estávamos a abrir 6 dias por semana e agora abrimos 3 dias.

Nunca mais fechamos e temos conseguido manter a atividade mesmo nestes períodos mais complicados.

Ângelo Soares, vice-coordenador da Refood Maia Centro-foto de arquivo

Alteramos o nosso leque de fontes, houve vários restaurantes e outras fontes que encerraram completamente. Em contrapartida houve outras fontes, como supermercados, que aceitaram ser nossos parceiros, conseguindo contrabalançar as coisas.

Neste momento, estamos a assistir a cerca de 90 pessoas, pois os pedidos de apoio aumentaram e temos conseguido não dizer que não a ninguém e dar resposta a toda a gente.

O que notamos é que a disponibilidade de alimentos tem sido mais instável. Estamos a fugir um pouco a uma das nossas funções que é reduzir o desperdício, mas temos que dar continuidade a outro dos nossos princípios, que é alimentar os nossos beneficiários.
Como se costuma dizer, quem não tem cão caça com gato. Neste caso, temos tido alguns donativos, que aproveitamos naturalmente e estamos a complementar, nos dias em que abrimos, com a entrega de alguns géneros para as próprias pessoas levarem para cozinhar.

Também recentemente passamos a incluir nas nossas fontes duas grandes superfícies, que nos dão congelados tendo adquirido uma arca de congelação para os manter. Por isso, temos aqui uma nova salvaguarda na alimentação.

Foi então uma questão de adaptação?

Sim. E posso dizer que houve outros centros Refood que não conseguiram fazer isso. A maioria manteve-se aberta, desapareceram seis núcleos, mas surgiram seis novos. A maioria dos centros manteve-se apenas com o cabaz. Nós conseguimos conciliar as refeições e cumprir também a nossa missão de evitar o desperdício alimentar.

Outra dificuldade que sentimos e que esteve na origem de passarmos de 6 dias de abertura para 3 por semana, tem a ver com o facto de muitos dos nossos voluntários serem de grupos de risco, pessoas de idade e com doenças. Estas pessoas tiveram que deixar, sendo que, felizmente, houve outras inscrições de voluntários.

Neste momento, temos duas equipas que trabalham alternadamente em quase todos os turnos, semana sim, semana não, respeitando os conselhos de segurança da DGS. Temos ativos cerca de 130 voluntários, pois também temos mais rotas de recolhas.

Quantos voluntários têm em cada equipa?

No centro de operações temos que ter 10 pessoas por dia, fora os que estão nas recolhas e ainda as que estão no trabalho administrativo a partir de casa. São as recolhas absorvem muitas mais pessoas.

Considera que será possível voltar em breve e gradualmente à normalidade?

Ainda vai demorar o seu tempo, pois vamos continuar a ter o problema dos voluntários de mais idade, mesmo com vacinação, a terem receio de voltar. E também é difícil as pessoas voltarem depois da quebra de hábitos. Por outro lado, está provado que o voluntariado tem uma rotatividade, pois o voluntariado dura, em média, entre um ano e meio a dois anos.

E estou convencido que os pedidos de apoio vão continuar a aumentar e temos que ter uma grande capacidade de resposta.
Há ainda que ter em conta que muitos restaurantes não irão reabrir e teremos dificuldade de encontrar fontes de refeições. Neste momento a maioria das fontes é assegurada mais pelas grandes superfícies do que por restaurantes.

Apesar das dificuldades, devo salientar que esta pandemia despertou muita solidariedade. Vemos mais pessoas preocupadas em nos perguntar se precisamos de alguma coisa e a questionar a forma como podem contribuir, aparecem donativos de onde menos esperamos, empresas que nos têm doados consumíveis, que são muito importantes, como luvas, rolos de papel, esfregões e detergentes.

Penso que a Refood ganhou crédito, no sentido em que as pessoas encaram a instituição com um grau de confiança e seriedade, pelo que dispõem-se a ajudar. Nota-se que a responsabilidade social das empresas também veio ao de cima, apesar de toda a crise, a colaboração, que já havia, ainda aumentou.

Outra cooperação que tem funcionado bem tem sido com instituições de solidariedade aqui à volta, não só no concelho, mas perto, ou com os núcleos Refood próximos. As trocas continuam a funcionar, pois, por vezes, temos ofertas que não se enquadram bem no âmbito dos nossos beneficiários, como é o caso de fraldas, que oferecemos a lares com quem temos parcerias. Outras vezes são eles que têm excedentes e nos dão outras coisas.

Penso que a Refood ganhou crédito, no sentido em que as pessoas encaram a instituição com um grau de confiança e seriedade, pelo que dispõem-se a ajudar.

Como é que as pessoas podem contactar a Refood da Maia para fazer donativos?

O canal mais direto é o e-mail refood.maiacentro@gmail.com ou pelo facebook, onde existe um botão designado “regista-te”, que direciona para três áreas: inscrever-se como parceiro, como beneficiário ou como voluntário.

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