Saudosismo e partilha no Venepor

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Sessões mensais do Cineclube da Maia já mobilizaram cerca de 800 pessoas

Crianças são os espectadores especiais de Março

Desactivada há vários anos, a sala de cinema do Centro Comercial Venepor tem sido maioritariamente usada como auditório. Mas um grupo de jovens estudantes do ensino superior fez com que o espaço que descrevem como “morno”, com bancos “moles, vermelhos e de veludo” voltasse a ser aquilo para que foi concebido: espaço de projecção de filmes. E não só. Por ali já passaram, desde Outubro do ano passado, fitas como “Aquele querido mês de Agosto”, “Bem-Vindo ao Norte”, “A Turma”, “Uma família à beira de um Ataque de Nervos” e, no dia 27 de Fevereiro, a comédia / drama “O Despertar da Mente”, de Michel Gondry. Foram assistidas por cerca de 800 pessoas.

Com sede na Rua Conselheiro Costa Aroso, as sessões têm como palco o Centro Comercial Venepor, cedido pela Câmara Municipal da Maia. Sempre no último sábado de cada mês. Mas há algo que distingue esta ressuscitada sala de cinema das restantes: mais do que exibir filmes, os criadores do Cineclube da Maia querem promover nos espectadores um olhar crítico, recorrendo a actividades paralelas à projecção. Podem ser concertos musicais, exposições ou workshops. Sempre com uma aposta no factor surpresa.

Para desvendar um pouco mais deste projecto, PRIMEIRA MÃO convidou a direcção do Cineclube da Maia a falar sobre si próprio. Dos cinco elementos base que a compõem, André Prata, Marcos Maia e Ricardo Reis acederam ao convite e sentaram-se nos lugares dos espectadores. Foi nas cadeiras mais próximas da sala de projecção que Marcos Maia confessou o facto de, para além de serem todos da Maia, serem todos conhecedores desta sala e partilharem “a vontade muito grande de voltar a fazer alguma coisa aqui e devolve-la às pessoas que a frequentavam”. Mesmo que na génese do grupo não fosse tão acentuada como agora a ideia de que a Maia sente saudades do Cinema Venepor e de ali regressar.

Eventos sociais

Em parte, é disto que se têm apercebido desde Outubro, graças à proximidade que tentam manter com os seus espectadores. Mais do que isso, poder-se-á dizer com os seus colaboradores. É que, em cada sessão que promovem, outros maiatos vão manifestando a intenção de colaborar e fazerem algo pela cultura, a este nível. Daí concluir Marcos Maia que, apesar de se centrarem num filme, são sobretudo “eventos sociais” que visam, entre outros aspectos, fazer renascer o hábito de ir ao cinema, nesta sala, uma vez por mês.

E não é só isso que encontram. Aliás, quando lá se deslocam no último sábado de cada mês, não sabem exactamente o que vão encontrar. A não ser o filme que será projectado. O que o antecede, é onde reside o factor surpresa, que tanto destacam os elementos do Cineclube da Maia. E acontece em todas as sessões, na entrada para a sala, espaço inclusive decorado “conforme o ambiente do filme e o que achamos mais propício à sessão”, de forma a ajudar à experiência que vão ter na sala. A projecção só começa às 22h00, mas o ponto de encontro está habitualmente marcado para as 21h30. E se, no início, essa meia hora de diferença “fazia-lhes confusão”, recorda Marcos Maia, “actualmente as pessoas percebem isso perfeitamente e chegam na mesma às 21h30”.

Em redor de um filme, o Cineclube da Maia promove um encontro e proporciona momentos “de partilha”, como lhes chama André Prata. Esse encontro tem mobilizado pessoas, maioritariamente, na casa dos 20 a 25 anos, mas o leque vai dos 15 aos cerca de 40 anos de idade.

O resultado, confessa, em termos de números e de objectivos cumpridos, “tem sido muito satisfatório”. Sobretudo porque têm conseguido que esta actividade, sendo de índole cultural, é “auto-suficiente”, ainda que admitindo que isso pode não acontecer em todas as sessões. Também por isso, o objectivo de passar de sessões mensais a quinzenais “não será para breve”, conta Ricardo Reis. Primeiro, há que “conseguir ganhar estofo”. “Porque queremos ser pertinentes no que estamos a fazer”, acrescenta André Prata, e “porque ainda não temos meios para fazer algo quinzenal, com a qualidade que fazemos uma vez por mês”, admite Marcos Maia. Sem esquecer “que o público não teria a mesma disponibilidade”.

Miyazaki no Venepor

A próxima, já este mês, terá um público especial. Poderemos dizer, as próximas. Para além da sessão mensal, marcada para o dia 27 de Março, o Cineclube da Maia vai abrir as portas do Venepor a cerca de 700 crianças das escolas do concelho, para a exibição do filme “Ponyo à beira-mar”, de Hayao Miyazaki, entre os dias 23 e 25 de Março. É também sobre esse filme de animação a duas dimensões, do realizador japonês, que vão realizar trabalhos no próprio estabelecimento de ensino. Será, afinal, a orientação temática deste mês de Março, em torno do mar e da biodiversidade. Os mais pequenos terão ainda oportunidade de fazer uma animação com os próprios desenhos. Para as crianças que não foram a estas sessões, através das escolas, o Cineclube da Maia abre as portas no sábado à tarde.

E porque se fala de filmes, importa saber como são escolhidos. A opção sobre uma determinada fita em detrimento de outra muda consoante a própria reacção do público. Ao mesmo tempo, desvenda Marcos Maia, “o nosso papel é tentar, de alguma forma, provocar as pessoas e perceber a reacção delas” no final da projecção. Até para que olhem para o cinema como “manifestação artística” e não apenas como entretenimento. Daí que se diferencie um pouco da habitual programação de outros cineclubes.

No que à programação diz respeito, o Cineclube da Maia promete actividade, mas sublinham os seus membros que não podem garantir as datas a longo prazo, já que o espaço é cedido e poderá ser usado pela Câmara da Maia para outras iniciativas. Presentemente, a maior preocupação prende-se com as obras previstas para outro espaço da autarquia – o Fórum da Maia – devendo ser transferidas para o Venepor algumas actividades.

Marta Costa

3 COMENTÁRIOS

  1. Obrigado, Ana. Vamos ficar à tua espera numa das sessões. E obrigado a Marta Costa e ao Jornal, a peça ficou muito boa, e o recentemente renovado site ainda melhor. (Procuramos só uma coisa, chegou a ser publicado o vídeo?)
    Muito agradecido,
    André Prata

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