SUPERTABi preparou alunos e professores para um ensino diferente e fora da escola física

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Marco Bento
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Desde que as aulas recomeçaram, no passado dia 8, que são comunicadas falhas quer pelos professores, quer pelos pais e alunos. A principal razão do descontentamento prende-se com a falta de computadores ou internet para ter aulas em casa.

Mas também há muita gente a queixar-se da falta de ambiente em casa para aprender, de contextos pedagógicos desadequados ou de impreparação a nível de competências para lidar com a escola à distância.

Na Maia, são residuais os problemas de falta de computadores, encontrando-se em geral a solução entre escola e Câmara, que tem um banco de empréstimo de material. Ao nível das competências, a Escola também tem dado passos seguros para capacitar alunos e professores para novas formas de aprendizagem.

De acordo com Marco Bento, coordenador do projeto SUPERTABi, um programa de inovação educativa com recurso a novas tecnologias e métodos pedagógicos mais abertos e democráticos, houve uma melhor adaptação por parte destes alunos e professores à mudança da escola em casa devido à pandemia.

É sobre isso que Marco Bento fala nesta entrevista que concedeu ao Maia Primeira Mão.

Sendo coordenador de um projeto educativo (SUPERTABi) como analisa a forma como o ensino à distância está a decorrer no país?

De um momento para o outro, sem aviso prévio, fomos colocados perante uma situação única na nossa história recente, o encerramento de atividades letivas presenciais. Nenhum sistema de ensino estaria preparado para essa realidade e penso até, no que respeita aos professores, que estes foram muito ágeis em adaptar-se a um modelo que também ele não existia, o Ensino Remoto de Emergência. Por ser uma emergência, as soluções não são as ideais, são soluções de recurso, e foi isso que tivemos, com todas as suas desigualdades e imperfeições.

Um dos erros de março passado mantém-se neste fevereiro, quase um ano depois, ou seja, a ideia que o que aconteceu ou se vai retomar é o Ensino Online, quando não foi e não o é.

Porém, houve muita lentidão na reação. Penso que deveriam ter sido ouvidos especialistas em ambientes virtuais de aprendizagem, mas também, e sobretudo, todos os professores espalhados pelo país que já têm anos de experiências de ensino híbrido no nosso país, experiências que vão desde o 1.º Ciclo do Ensino Básico ao Ensino Secundário, como são exemplo muitos dos professores SUPERTABi.maia que têm a experiência de ensino híbrido de há alguns anos para cá!

Ignorar essas experiências e know how dos professores continua a ser um dos grandes erros do sistema educativo.
Enquanto que no resto do país, houve uma migração rápida e pouco espontânea, levou naturalmente às “dores de crescimento” e a alguns erros naturais, que no caso dos professores e alunos SUPERTABi foi mais natural, dependendo dos professores e do tempo a que estão no projeto, pois muitos tinham entrado em setembro de 2020, embora já com muita formação no ano anterior!

Sabemos que muitos dos professores SUPERTABi já faziam essa utilização com os seus alunos de forma proficiente e com grande naturalidade, criando cenários pedagógicos que não são uma réplica do “analógico”, mas uma forma de colocar os alunos a pesquisar e selecionar informação, ver e analisar vídeos, sistematizar conteúdos e produzir recursos que convocam as diferentes áreas do conhecimento e os conteúdos aprendidos.

Os exercícios são diferentes, têm de provocar essa mesma diferença, se pensarmos que os alunos são mais ativos ou interativos, sendo necessário dar resposta a essa forma de pensar e agir. Noutros locais, estes foram os casos onde o equívoco aconteceu por falta de conhecimento, numa forma errada de imposição de um sistema de digitalização do ensino, que pressupôs a réplica de um horário presencial, mas a olhar para um ecrã, onde a ação do aluno se torna ainda mais reduzida. Por outro lado, importa referir que os problemas de aprendizagem no presencial permanecem também no online, ou seja, uma má prática presencial vai contribuir para uma péssima prática online.

A conceção de que um professor tem de cumprir o currículo, não implica que o aluno o irá aprender, ou seja, em qualquer sistema, online ou não, o cuidado e o respeito pelo ritmo de aprendizagem do aluno devem acontecer, e isso é mais difícil de suceder num ambiente estranho para todos.

A falta de noção de modelos pedagógicos com a utilização do digital levou a que se cometam demasiados erros. O cumprimento de videoconferências em tempos desajustados à capacidade de concentração de um aluno, uma ausência de noção do que deve ser o trabalho assíncrono, síncrono e autónomo de um aluno, o exagero de atividades enviadas aos alunos, com ausência de feedback, atirando para as famílias muita dessa responsabilidade de homelearning, a falta de conhecimento de plataformas seguras de comunicação e de interação digital que fomentam a criação de ambientes de aprendizagem controlados e promotores de aprendizagens, assim como o uso de centenas de apps que não havia tempo de explorar convenientemente, levou ao aumento de ansiedades de alunos e professores, sem qualquer nexo.

Em suma, na minha opinião o principal erro foi do foro pedagógico, compreender o que é ensinar e aprender na atualidade, em que o podemos fazer a qualquer hora e em qualquer lugar, onde o professor assume um papel, não de transmissor, mas de mediador ou facilitador das aprendizagens.

Que diferenças aponta na forma como decorrem as aulas na Maia, em concreto nas turmas piloto do projeto SUPERTABi?

O que aconteceu de diferente nas aulas do projeto SUPERTABi é que os alunos e os professores têm tido a formação e o acompanhamento para esses cenários que referi anteriormente, experimentam, diariamente, em contexto presencial e físico os ambientes virtuais de aprendizagem, utilizam o digital como resposta a problemas e fomentam o pensamento crítico e a resolução de problemas, independentemente, das ferramentas necessárias.

É evidente, que os nossos 28 professores têm uma capacitação pedagógica aliada à experiência no terreno com a utilização de equipamentos ligados à rede, numa forte aposta do município da Maia numa educação ubíqua, onde a possibilidade de aprender a qualquer hora e lugar é uma realidade. A Educação terá a curto prazo diverso ambientes híbridos de aprendizagem e a Maia, uma vez mais avançou à frente do seu tempo, tendo antecipado um cenário que promove a autonomia dos alunos e potencia as suas aprendizagens.

Podemos dizer que alunos SUPERTABi conseguiram adaptar-se melhor às aulas em casa?

Se um aluno já utiliza proficientemente o digital na sua escola, num ambiente, que é o ambiente escolar físico, comunica e interage virtualmente com o professor, colegas e conteúdo, naturalmente, quando tem de transpor para um ambiente remoto, o seu grau de autonomia é muito superior a todos os alunos que não tinha estas experiências.

Há uma falsa ideia que todos os alunos dominam o digital para aprender, porém, os alunos têm maior intuição com o digital, mas não o dominam de forma segura e eficiente, porque as utilizações que tinham eram de âmbito lúdico, por isso tantos alunos pelo país tiveram dificuldades, mesmo os mais velhos. Ora, no caso das turmas SUPERTABi, falamos de alunos de 6, 7, 8 e 9 anos que aprenderam a dominar a tecnologia para um contexto de aprendizagem, o que faz com que, hoje, em confinamento, dominem tecnicamente as ferramentas, possibilitando os professores de estarem mais libertos para tirar partido pedagógico.

A Maia tem tido uma postura de aposta nas condições de ensino. Acredita que existem condições para em todo o concelho haver uma adaptação a novos métodos pedagógicos, com mais tecnologia de apoio e maior autonomia dos alunos, muito em breve?

Sim, esse é um facto, que ninguém pode ignorar. A Câmara Municipal da Maia não só tem feito e continua a fazer um investimento em equipamentos digitais móveis, no acesso à internet nas escolas do concelho, na renovação física dos espaços, mas, com este projeto SUPERTABi, o reforço da capacitação de professores tem sido muito grande, pois, anualmente, a formação contínua de professores é uma realidade para irem ser integrados no projeto, mas também através do Espaço de Formação Make it Pedagogical, em Pedras Rubras, com formações de professores de outros níveis de ensino em colaboração com o Centro de Formação Maiatrofa.

Assim, em 3 anos, passámos de 7 professores (1 por agrupamento) para 28 (4 por agrupamento), mas é importante referir que este não é um processo que se pretende construir de forma precipitada, porque pretendemos envolver e respeitar os professores no seu ritmo de aprendizagem. A Educação na Maia é um investimento e não um custo, porque é assim que devemos olhar para a Educação, o futuro vai dando razão a estes investimentos, infelizmente, a pandemia veio expor e reforçar este projeto, que sendo prévio à pandemia, deixa o concelho orgulhoso.

foto de arquivo

Nesta altura em que já contamos com um ano de pandemia, que caminhos podemos apontar para a escola do futuro, que tem que ser já amanhã?

O que gostaria e o que penso, pois, a pandemia está a prová-lo, é que a Escola precisa ser repensada no sentido de integrar naturalmente modelos híbridos de aprendizagem.

O ensino híbrido é uma modalidade pedagógica, que mistura possibilidades de combinar atividades em sala de aula com atividades em espaços digitais para oferecer as melhores experiências de aprendizagem a cada estudante, exatamente o que fazemos no supertabi.maia. No Ensino Híbrido o foco está mais na ação dos docentes. O conceito de Educação híbrida é mais abrangente, porque olha para as combinações possíveis de todos os envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem.

Hoje, podemos redesenhar as melhores combinações possíveis na integração de espaços, tempos, metodologias, tutoria para oferecer as melhores experiências de aprendizagem a cada aluno de acordo com suas necessidades e possibilidades.

As próprias tecnologias, hoje, já nos oferecem cada vez mais possibilidades, desde logo ao trazer para a sala de aula, ambientes que nunca teríamos a oportunidade de visitar, através de realidade aumentada e virtual, falamos de tecnologias híbridas, cada vez mais “inteligentes”, que integram as atividades da sala de aula com as digitais, as presenciais com as virtuais.

Mas a escola e esse repensar deve sinalizar um currículo mais flexível, que defina os conceitos estruturantes de uma criança, defina o que é básico e fundamental para todos e que permita, ao mesmo tempo, caminhos personalizados para atender às necessidades de cada aluno.

Uma escola que articule processos mais formais de ensino e aprendizagem com os informais, de educação aberta e em rede, misturando e integrando áreas diferentes, profissionais diferentes e alunos diferentes, em espaços e tempos diferentes.

Combinar e flexibilizar são conceitos-chave para dar conta dos desafios atuais, pois, podemos sair de propostas fechadas para outras mais abertas, os tempos iguais para os tempos combinados, os itinerários iguais para os personalizados e também intensamente participativos, dentro de espaços escolares, de espaços digitais e espaços profissionais. A escola do presente implica em repensar o currículo rígido, as metodologias ativas, a adaptação e diversificação dos espaços, o uso intensivo de tecnologias digitais, a melhoria da avaliação.

Com o avanço das plataformas digitais e a facilidade de ver-nos de forma síncrona, as possibilidades de combinação, integração e personalização se ampliaram de forma muito diversificada e intensa.

Podemos pensar em modelos ativos predominantemente presenciais, em modelos ativos parcialmente presenciais e digitais, e modelos ativos de ensino e aprendizagem totalmente online, dependendo das necessidades específicas dos alunos, das competências a serem trabalhadas em cada etapa e área de conhecimento e do grau de maturidade e autonomia de cada um.

O desenho pedagógico desta “Escola” tem de ser mais flexível, aberto, híbrido, personalizado, ativo e colaborativo, com diferentes combinações, arranjos, adaptações num país com realidades muito desiguais. O ideal é o equilíbrio entre a personalização (mais escolhas do aluno, mais autonomia) com a aprendizagem colaborativa (aprendizagem ativa, entre pares, por projetos), a tutoria/mentoria, avaliação formativa, oferecendo as melhores condições de aprendizagem em tempo real (sala de aula, plataformas online, espaços profissionais) e de forma assíncrona (com itinerários e atividades mais individualizados).

Para isso também a escola precisa de ter um processo democrático, onde quem pensa seja ouvido, ativando os processos participativos ao invés de processo burocráticos.

Deixo algumas questões relacionadas com alguns dos meus receios para a escola pós pandemia, nomeadamente, a que cenários voltaremos para dentro das nossas escolas? Depois de investimento em autoformação, computadores, mesas digitais, melhoria de internet, qual a nossa atitude enquanto professor, alunos, pais e decisores? Queremos tanto voltar à escola física, mas não poderemos usar modelos Híbridos como o exemplo do Projeto SUPERTABi.maia?

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